“A Vale mata rio, peixe, gente e os nossos sonhos”, desabafam atingidas em ato virtual, dois anos após crime em Brumadinho

Atividade faz parte da Jornada de Lutas que denuncia impunidade da mineradora e falta de reparação integral para as comunidades afetadas com a destruição do rio Paraopeba

Na tarde do sábado (23), como parte da “Jornada de Lutas: 2 anos do crime da Vale em Brumadinho – Justiça só com luta e organização”, o MAB realizou o Ato das Mulheres Atingidas pelo crime da Vale na bacia do Paraopeba, evento virtual transmitido pelas redes sociais do movimento. 

Apresentação de Katia Teixeira na live das mulheres atingidas

O ato político-cultural foi marcado pela participação de mulheres artistas que enviaram vídeos com apresentações de músicas com letras retratando a vida e a luta das mulheres, além de poesias que foram lidas por atingidas e militantes de organizações parceiras também na mesma temática.

“Nós tínhamos água em abundância, agora dependemos da água que a Vale vem trazer, tanto a potável quanto para fazer as tarefas domésticas e cuidar da nossa horta, é pouca a quantidade, e, muitas vezes, a gente tem que racionar e escolher qual atividade podemos fazer no dia”, relata Claudia Freitas, atingida no município de Mário Campos.

Para a atingida Tatiana, de Cachoeirinha Esmeraldas, a vida após o rompimento da barragem no Córrego do Feijão segue muito difícil. Ela tinha como renda as faxinas que fazia nas casas de temporada de pessoas que iam até o Paraopeba para pescar. Com o rio totalmente poluído, não existe mais esse fluxo de pessoas no local, e Tatiana está desempregada desde então, assim como os pescadores da região.

“Eu não recebo nenhum auxilio da Vale, queremos que ela pague pelo o que ela fez. As pessoas aqui não tinham nada a ver com isso e estão pagando pelo crime”, desabafa a atingida. 

Ivana Farina Pena, conselheira do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) lembrou no ato que, logo após o rompimento, foi instalado o Observatório Nacional sobre Questões Sociais Complexas e de Difícil Resolução, com o caso de Brumadinho sendo um dos primeiros a ser tratado.

A conselheira destacou que o MAB esteve presente neste espaço e foi representado por mulheres “que traziam muita dor, mas principalmente força”, segundo a integrante do CNJ. 

Mulheres organizadas


“Só de falar a palavra ‘mulher’ a gente já respira luta e o MAB reconhece isso”, pontua Fernanda Borges, da Coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens. 


A coordenadora do MAB reconhece a postura das mulheres da bacia do Paraopeba que estão em luta desde de janeiro de 2019, na ocasião do crime.

“Essa situação do crime agrava ainda mais a vida das mulheres, que já sofrem mais em uma sociedade desigual, machista e racista. As mulheres sofrem com o descaso e a negação dos direitos essenciais pela Vale, como o abastecimento de água, o acesso ao lazer, o agravamento dos problemas de saúde nas comunidades”, explica Borges.


Dentro de estratégia do MAB de fortalecimento dos laços da luta internacional por Direitos Humanos das populações impactadas por grandes empreendimentos, a atingida pela Vale em Moçambique, na África, Maria Cussay gravou um depoimento em solidariedade às atingidas de Minas Gerais.

“Aqui também nós resistimos para que as empresas nos deem os nossos direitos que são negados, algumas de nós até já foram presas por isso. É uma luta incansável, mas vamos seguir juntas, de mãos dadas”, diz Cussay.

Como forma prática do espaço de escuta e atuação das mulheres atingidas, a construção das arpilleras (técnica de bordado inspirado em um modelo chileno) foi valorizada no ato. Atingidas mostraram ao público a peça bordada para denunciar o crime em Brumadinho e afirmaram em coro:  “A Vale mata rio, mata peixe, mata gente, e também mata sonhos”. 

Jornada de lutas 

As mulheres organizadas no MAB estão há dois anos cobrando justiça e reparação para a bacia do Paraopeba e participaram da construção de uma pauta de reivindicações que tem inclusos pontos sobre saúde, reparação financeira, segurança, mundo do trabalho e pelo fim da descriminação no tratamento com as mulheres atingidas.

Em especial, neste momento de um novo agravamento dos casos de Covid-19, a reivindicação é pela continuidade do pagamento do Auxílio Financeiro para que as pessoas não fiquem sem nenhuma fonte de renda e tenham que estar ainda mais expostas ao contágio do vírus. 

A deputada estadual Andreia de Jesus (PSOL-MG) enviou uma saudação às atingidas por barragens afirmando a necessidade de que a luta continue para que haja justiça. “Os corpos das mulheres negras são os mais afetados, temos que reconhecer o papel fundamental de atuação dessas mulheres nesses territórios”, afirma a deputada.

Na próxima segunda-feira (25), será o marco dos dois anos do crime da Vale em Brumadinho e, com isso, o MAB organiza uma série de atividades ao longo dos municípios afetados na bacia do rio Paraopeba; é possível acompanhar a cobertura completa nas redes sociais do movimento.

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