MULHERES
Foto MAB

Sobre as mulheres atingidas por barragens

A experiência da realidade, e diversos estudos, provam que as mulheres, historicamente, são as grandes vítimas dentro da reprodução do modelo capitalista, patriarcal e machista, no qual estamos inseridos. Em nosso caso específico, de mulheres atingidas por barragens, temos um agravante, além de sofrer com as desigualdades de classe e nas relações de gênero, precisamos também enfrentar as violações de direitos causadas pelas construções de barragens. Essas violações foram confirmadas no relatório final do Conselho Nacional de Direitos Humanos, à época Conselho de Defesa e Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), em dezembro 2010, o qual destaca: “as mulheres são atingidas de forma particularmente grave e encontram maiores obstáculos para a recomposição de seus meios e modos de vida; […] elas, não tem, via de regra, sido consideradas em suas especificidades e dificuldades particulares”.

Desde o início, as mulheres tiveram um papel ativo e importante na construção do MAB em todas as regiões do Brasil, seja nas tarefas de liderar as lutas, seja nas tarefas organizativas na comunidade que fortaleciam o movimento garantindo a organicidade das atividades. Cada região traz suas particularidades, o importante é evidenciar que as mulheres atingidas sempre estiveram em busca de seus direitos. Com base nisso, a organização foi amadurecendo a necessidade da participação das mulheres nos espaços de decisão, construindo condições para acelerar processos de protagonismo feminino dentro do movimento. Entre 2007 e 2010, foram realizados diversos encontros com as mulheres de diferentes regiões com o objetivo de fomentar a participação e construir coletivamente um entendimento de como as barragens afetam a vida das mulheres. Com isso, sistematizamos as violações aos direitos das mulheres atingidas, nos seguintes eixos: Mundo do trabalho, Participação política, Relação com as empresas, Perdas dos laços comunitários, Direitos sexuais e reprodutivos, Acesso a políticas públicas.

Neste caminhar, um momento importante foi a realização do Primeiro Encontro Nacional de Mulheres Atingidas por Barragem, em 2011, com o lema: “Mulheres atingidas por barragens, em luta por direitos e pela construção do projeto energético popular”, onde participaram 500 mulheres, um marco no trabalho organizativo das atingidas por barragens. Além de denunciar o modelo energético e o impacto na vida das mulheres, foi lá que pautamos a necessidade do Estado criar uma política nacional que garantisse, em lei, os direitos dos atingidos por barragens.

Arpilleras

As arpilleras fazem parte de uma técnica têxtil popular chilena, que incorpora elementos tridimensionais e retalhos de tecido aplicados sobre o suporte de juta, que, em espanhol é “arpillera”, daí o nome. Nos anos sombrios da repressão militar chilena, as arpilleras floriram os pátios, interiores das casas e igrejas da periferia de Santiago como forma de denúncia da violência estabelecida. Com temáticas que incluíam desde afazeres do cotidiano até gritos de luta e de luto, as peças ganharam o mundo – algumas continham, inclusive, fragmentos de roupas dos desaparecidos políticos costurados.

É com esse sentido político que mulheres atingidas por barragens no Brasil, por meio do contato com as mulheres organizadas no MAB, resgatam a técnica, visando, de forma artística, denunciar violações ambientais, sociais, econômicas e culturais que as atingem em consequência do modelo energético adotado no nosso país. Desde 2013, foram realizadas oficinas auto-organizadas onde são costurados coletivamente os testemunhos da realidade de mulheres atingidas em 19 estados. Para nós, do MAB, as arpilleras, além de uma ferramenta de denúncia, são um convite e uma possibilidade de tecer a organização das mulheres. É assim que as peças são costuradas, em cada ponto o anseio de que outro mundo é necessário e possível de ser tecido coletivamente.

Fotos das peças:
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