Brumadinho: um ano e meio após o crime, como está a vida dos atingidos?

Ao completar um ano e seis meses do crime do rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, atingidas e atingidos da bacia do rio Paraopeba relatam os impactos da tragédia em seu modo de vida

Foto: Guilherme Weimann

O país parou em luto pelas cenas fortes das notícias do rompimento do complexo de barragens da Vale em Brumadinho, no dia 25 de janeiro de 2019. Durante alguns dias ou meses, não se falou em outro assunto nos grandes meios de comunicação do país. Pouco a pouco o tema foi desaparecendo dos noticiários, dando lugar a outros assuntos.

Desde o começo, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) se manteve firme nos territórios, em luta com os atingidos pelos direitos violados e muito atento aos efeitos dramáticos do crime, não só em Brumadinho, mas em diversas outras localidades da bacia do rio Paraopeba, amplamente atingidas.

Ao completar um ano e meio do crime da Vale, o MAB convidou os atigidos e atingidas a relatarem suas histórias de vida e luta após o dia 25 de janeiro de 2019. Aqui apresentamos alguns de seus relatos:

Maria da Glória Silva – Juatuba (MG)

Após rompimento da barragem tive meu sustento comprometido, pois eu tirava do rio meu alimento diário. Além disso, eu vendia os peixes que sobravam o que me auxiliava nas minhas despesas. Hoje convivemos com rio poluído, estou com muitos problemas de pele, problemas respiratórios, uso “bombinha”.

Outro problema é que não podemos mais utilizar a água da cisterna. Sou obrigada a comprar água mineral, sem ter condições, pois a água da Copasa vem suja demais para beber. Pedimos água mineral à Vale, mas não fomos atendidos.

Além de tudo isso, perdemos nosso belo rio, nossa única fonte de lazer. Não posso mais chegar nem perto, me dá falta de ar.

O nosso dinheiro foi reduzido pela metade e isso é insuficiente, pois o tratamento com dermatologista e os medicamentos não ficam baratos. Tenho passado dificuldades financeiras, porque o dinheiro da Vale não cobre as despesas que surgiram após a contaminação do rio.

Nada paga nossa saúde perdida, nada paga a alegria de pescarmos os peixes no Paraopeba. A situação é muita séria.

Como é triste saber que, com tudo isso, a Vale não está arcando com suas responsabilidades. Como é triste ter um problema de saúde e não ter sequer condições de comprar o remédios, remédios diversos.

Flávio Amorim de Oliveira – Juatuba (MG)

Moro no bairro satélite há uns dois anos e meio. Antes do trágico acontecido desmoronamento da barragem, o Rio Paraopeba era um lugar maravilhoso, onde você podia encontrar lazer, conhecimento, e de onde eu retirava uma renda melhor, pois os pescadores que iam ao rio pescar sempre passavam no bar onde trabalho para consumir, batiam papo, contavam histórias e era tudo muito bacana. Era ali que eles contavam os casos de quando iam pescar, as histórias de pescador!

Mas infelizmente veio o ocorrido e daí em diante o movimento do bar foi só caindo. Então o bar ficou esquecido, pois era o ponto dos pescadores. E não foi só esse o problema. Depois do acontecido também nos afetou na saúde pois a qualidade da água que pagamos da mesma forma piorou. Então essa situação nos colocou expostos a riscos e doenças que ainda não temos a noção do que pode nos causar futuramente. E infelizmente a empresa responsável pelo acontecido vem nos esquecendo, achando que nós não necessitamos de atenção e cuidados.

Logo após o acontecido eu tentei entrar com o pedido do auxílio-emergencial que, com muito custo, foi conquistado para a população afetada, mas infelizmente me foi negado, porque não havia comprovantes de que eu residia ali a menos de 150 metros do rio!

Venho tentando lutar por esse direito que me foi negado, apesar que esse é o mínimo que a empresa responsável pode nos oferecer, pois o que perdemos, sabe-se lá quando voltaremos a ter: o nosso rio do jeito que era!

Espero que, com o tempo, os valores morais e materiais possam ser recuperados pela população, que pelo menos uma parte de toda essa catástrofe possa ser concertada com a ajuda dos órgãos responsáveis. Fica aqui os meus sinceros agradecimento a toda equipe das Assessorias Técnicas que com tanto esforço e dedicação vem lutando pelos nossos direitos!

Thomas Nedson – Betim (MG)

Até hoje existe um descaso com os atingidos. Aqui na Colônia Santa Isabel, região atingida pelo crime, não existe reparação e o direito do povo. O auxílio-emergencial foi reduzido em 50% sem que apresentassem qualquer argumento técnico. Com isso, o prejuízo à população só aumentou. Nesse momento, com a Covid-19, essa situação piora ainda mais. A Vale não reconhece o nosso direito, nem o crime que ela cometeu na bacia do Paraopeba. A insegurança aumentou muito, a contaminação do ar, da água, da terra, dos alimentos.

E nós seguimos lutando e enfrentando novas dificuldades, porque com o tempo, o assunto vai caindo no esquecimento da mídia, dos governantes.

Então, nesse momento, para muitos, a situação é de desespero. Ainda mais com a renovação do crime, após a enchente no começo do ano, que afetou muito a Colônia Santa Isabel, trouxe doenças e causou mais prejuízos.

Eliane Marques – Cachoeira do Choro/Curvelo (MG)

Cachoeira do Choro, área rural de Curvelo, sempre foi uma comunidade pacata, às margens do rio Paraopeba. Nossa comunidade foi fundada, cresceu e prosperou em função do rio. Com a tragédia, causada pela irresponsável Vale, nossa Cachoeira do Choro deixou de ser o que era para se tornar uma comunidade de atingidos.

Famílias inteiras que tinham propriedades aqui para veranear, pescar, curtir a natureza, construir a casa de sua velhice, já não têm mais gosto pelo local, até pelo medo de se banhar no rio. Com a ausência dessas famílias, e até mesmo dos demais turistas que eram presença constante, o comércio sofre. Torna-se insustentável se manter em um lugar que agora é “morto”.

As famílias já estabelecidas no local viram sua renda se esvair. Já não é seguro ter uma criação, pois os animais que eram sustentados pelas águas do Paraopeba estão morrendo quando entram em contato com o rio. A plantação está na mesma situação. Famílias como a minha, por exemplo, que bombeavam as águas do rio para regar a plantação, veem as plantas morrerem a seca. Assim perdemos o alimento do dia a dia, nossos e dos nossos animais.

E a nossa renda? Vinda da pesca, da produção rural, da criação e venda de animais? Perdemos tudo e passamos por dificuldades até mesmo para ir ao supermercado e comprar rémedios.

Nossa saúde? Estamos adoecendo, não temos confiança na água da Copasa que nos é fornecida a altos preços. O poço artesiano fica às margens do rio, e em época de cheia sempre foi comum o contato com as águas do Paraopeba. Em nossas torneiras, a água é visivelmente poluída, tendo muitas vezes cor barrenta e mau cheiro. As plantas regadas com essa água amarelam e secam até morrer. E nós? Temos outra opção senão consumi-la? E nossa saúde mental? Estamos deprimidos, vendo tudo o que levamos anos para construir, o lugar onde investimos nosso dinheiro, nossos sonhos e nossa esperança se esvair diante de nossos olhos.

A empresa Vale, grande responsável por nosso sofrimento, o que faz a respeito? Já faz um ano e meio e ainda há muitos atingidos que não chegaram a receber sequer um centavo, e muitos dos que estavam recebendo o auxílio-emergencial tiveram essa renda cortada pela metade sem aviso prévio. Quando procurada, após muita dificuldade de contato por barreiras burocráticas impostas pela própria Vale, a resposta é sempre a mesma: “se não estiver satisfeito procure o Ministério Público”.

E assim seguimos, atingidos, abandonados a própria sorte. O alimento dos animais, suspenso para muitas famílias, a água potável, chega a ser humilhante precisar. O caminhão vem quando quer, ficando até semanas sem fornecer a água. O contato foi encerrado. Ficamos sem saber onde procurar, a quem recorer. Muitas famílias, já desesperadas, mais uma vez recorrem ao rio. Se arriscam à contaminação para ter o que comer dentro de casa. É desumano.

A falta de informação por parte da Vale e o corte de direitos e auxilio-emergencial estão nos matando pouco a pouco.

Gilmar Matosinho – Brumadinho (MG)

Nossas vidas aqui em Brumadinho mudou muito e mudou para pior. Não é que antes era uma maravilha, mas tínhamos uma vida pacata! Depois do crime da Vale assassina piorou tudo, não temos mais o Rio Paraopeba, aão podemos mais comer os peixes do rio, pois as águas e os peixes estão contaminados. A saúde da população piorou e muito, pois são muitas novas doenças que a população contraiu após o crime.

Antes, a Vale assassina já não nos respeitava, agora ela está passando com um trator por cima de toda população.

O único apoio que temos desde o início é do Movimento dos Atingidos por Barragens, o MAB, que nos organizou e está nos ensinando a lutar por nossos direitos! Nossa esperança agora está toda depositada na Assessoria Técnica!

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