Aumentos nos preços dos itens de cesta básica, do gás e da tarifa de luz intensificam situação de insegurança alimentar no país

Diante da crescente situação de desemprego, famílias das periferias das grandes cidades têm que optar entre comprar alimentos ou pagar conta de luz, que está com tarifa vermelha. MAB e outras organizações populares do país têm feito parcerias para distribuir cestas básicas para comunidades em situação de maior vulnerabilidade.

“A minha conta de energia esse mês veio R$ 320,00. Eu sou uma pessoa que estou desempregada e tenho 4 filhos. Estou recebendo o auxílio emergencial no valor de R$ 375,00, como chefe de família, pra pagar energia, comprar o gás, que está um absurdo, e manter a casa. O pessoal da Eletropaulo veio aqui cortar a energia e tive que brigar. Se eu pago a luz, a minha família passa fome”. O depoimento é de Palloma Virgílio dos Santos, moradora do bairro União de Vila Nova, na zona Leste de São Paulo.

Foto: Pedro Ventura/ Agência Brasília
Inflação do gás eleva o preço do botijão a mais de R$100 em algumas capitais brasileiras. Foto: Pedro Ventura/ Agência Brasília

O recente reajuste da tarifa da luz, definido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), foi de 52%, devido à aplicação da bandeira tarifária vermelha 2. Com isso, cada 100 kWh consumidos estão custando R$ 9,49 a mais. Esse – que é o mais alto patamar de cobrança de energia elétrica previsto em lei – foi autorizado em meio ao agravamento da crise econômica relacionada à má gestão da pandemia do COVID-19 no país.

Por isso, a dificuldade de pagar a conta de luz relatada por Palloma é comum na periferia das grandes cidades, já que a taxa de desemprego atual é de 14,7% e o auxílio emergencial está variando de R$ 150,00 e R$ 375,00. Enquanto isso, a inflação de itens alimentícios básicos tem tido aumentos mensais, acumulando perdas salariais para os trabalhadores, e o botijão de gás chegou a R$ 113,00 em alguns bairros da capital paulista no último mês. No país, a média é de R$ 92,00, segundo a Petrobras, o que tem levado famílias mais pobres a cozinhar em fogareiros à lenha.

Ana Santos, moradora do Jardim das Gaivotas, Palloma Virgílio e Raquel Barbosa, de União de Vila Nova, integrantes do MAB na capital paulista, que têm recebido doação de alimentos durante a pandemia
Ana Santos, moradora do Jardim das Gaivotas, Palloma Virgílio e Raquel Barbosa, de União de Vila Nova, integrantes do MAB na capital paulista que têm recebido doação de alimentos durante a pandemia.

Ana Maria Santos, do bairro Grajaú, também relata dificuldades para quitar as contas básicas. “Infelizmente, a gente sabe que o nosso governo atual não liga para as pessoas mais pobres, só na hora da votação. Com esse auxílio que está sendo pago agora, você compra um bujão de gás, que está R$ 100,00 no meu bairro, e aí compra uma cesta básica numa família que tem 7 pessoas e só dá para passar uma semana. Tem famílias que estão em situação bem difícil mesmo”, relata.

A projeção do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (WFP) é que 9% da população brasileira hoje seja subalimentada. Caso essa projeção se confirme, o país deve entrar novamente no mapa da fome no novo levantamento da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2021. A atual crise sanitária não é a única responsável pela situação, já que os dados mostram que a fome já vinha crescendo nos últimos cinco anos. O período coincide com a retirada de recursos de programas sociais no país. A insegurança alimentar, crescente, porém foi agravada com a pandemia.  

Raquel Soares, moradora do bairro Vila Nova, acredita que há um descaso dos governantes com relação à crise econômica e a falta de acesso a alimentos básicos no país. “Se o governo se preocupasse, tomaria medidas imediatas com relação à pobreza, como a continuidade de programas sociais, distribuição de cestas básicas e vale gás para as famílias mais carentes e disponibilização de cursos profissionalizantes nas periferias”.

MAB tem organizado doação de alimentos para atingidos nas periferias de diversas cidades brasileiras

Organizações populares articulam doação de cestas básicas e marmitas em todo o país

Diante desse contexto, muitas famílias que enfrentam o desemprego, como as de Ana e Palloma, vivem de doações. Atualmente, elas recebem cestas básicas do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que tem feito parcerias para distribuir alimentos em comunidades vulneráveis nos municípios onde atua. “Hoje, posso dizer que tem um alimento na minha mesa através de uma força que o MAB está dando pra gente. Eles entram na nossa casa pra saber o que está acontecendo, o que a gente está precisando. Eu acho que eles fazem o que os políticos deveriam fazer não fazem. Estão fazendo movimentos pra ajudar os moradores de rua também”, comenta a Palloma.

Já Ana Santos conta que, quando recebe doações, ainda tenta ajudar os vizinhos com filhos pequenos. “Eu agradeço que tem gente ainda que doa. Inclusive uma mãe me mandou um áudio ontem pedindo um leite pro filho dela. Aí eu recebi uma doação e fui lá e levei o leite pra ela”, conta.

Diego Ortiz, membro da coordenação estadual do MAB em São Paulo, explica que as ações de solidariedade na capital paulista estão sendo realizadas em parceria com a organização Koinonia Presença Ecumênica (representando o Fórum Ecumênico ACT Brasil). Segundo ele, o movimento está conseguindo realizar grandes jornadas de ajuda humanitária desde o começo da pandemia em 2020. O foco é fornecer condições básicas de enfrentamento da crise, especialmente para famílias atingidas por enchentes em São Paulo. Ele explica que “só no ano de 2021, o Movimento já distribuiu 35 toneladas de alimentos em cestas básicas e 2.700 kits de higiene e limpeza em capital paulista”. 

Para Raquel Soares, o apoio de organizações como o MAB é fundamental para amenizar os efeitos da crise. “O MAB distribui alimentos aqui na periferia sem levar em conta qual religião das pessoas, a cor ou o partido político das pessoas. MAB é resistência”.

Voluntárias da Cozinha Popular recebem caixas com alimentos em Bela Vista, Fortaleza © Aspásia Mariana / Greenpeace
Voluntárias da Cozinha Popular do MTD recebem caixas com alimentos em Bela Vista, Fortaleza. Foto: Aspásia Mariana / Greenpeace

Além do MAB, muitas outras organizações populares do pais tem somado esforços para amenizar a situação de insegurança alimentar no Brasil. Em Fortaleza (CE), o Movimento das Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD) inaugurou duas cozinhas populares nos bairros Bela vista e Pirambu. A iniciativa é uma parceria entre MTD e as pastorais sociais, em especial a Pastoral da Criança. De acordo com a coordenação do movimento, “as cozinhas populares têm sido uma saída coletiva para enfrentar a fome que assola diversas comunidades no Brasil”.

“Na cozinha de Pirambu, são 12 mulheres chefes de família que, com doações de uma rede de amigos, conseguem produzir voluntariamente 200 quentinhas todo sábado. A prioridade são as mulheres que estão com mais dificuldade, com filhos e sozinhas, ou em um relacionamento abusivo”, comenta Helder Careca, do MTD.

MAB defende tarifas sociais de água e luz e desconto no gás para população de baixa renda

Diante do contexto de crise, além de articular a doação de alimentos para os atingidos, o MAB também têm pressionado o Congresso Nacional para a aprovação de projetos de leis que preveem tarifas sociais de água e de luz e descontos no preço do botijão de gás de cozinha para as famílias de baixa renda.

Nesse sentido, o Projeto de Lei 1374/2021, que garante desconto para pessoas de baixa renda na compra do gás de cozinha, foi aprovado na Câmara dos Deputados e aguarda votação no Senado. Outro projeto de lei importante para amenizar os efeitos da crise econômica no país é o PL 823/2021. Também conhecido como Lei Assis de Carvalho II, ele prevê medidas de incentivo à produção de alimentos básicos para se combater a fome que avança no país e fortalecer a agriculta familiar. O projeto (que também aguarda votação no Senado) inclui várias medidas de socorro a pequenos produtores rurais que devem possibilitar o reabastecimento de produtos alimentícios que estão em falta no mercado, provocando o aumento de preço de itens básicos da mesa do brasileiro. Leia matéria completa sobre o PL.

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