Em coletiva internacional, MAB reafirma denúncia de acordo injusto entre Vale e governo de MG sobre Brumadinho

Entrevista virtual contou com a participação de jornalistas do Brasil e de mais 15 países; MAB se posicionou contrário ao modelo de acordo entre Vale e governo Zema na Justiça, que deixou de fora os atingidos

Na tarde desta sexta-feira (22), o Movimento dos Atingidos por Barragens recebeu jornalistas de veículos nacionais e internacionais em uma Coletiva de Imprensa sobre o marco dos dois anos do crime da Vale em Brumadinho.

Estiveram presentes 33 organizações, entre veículos de mídia e entidades parceiras de 16 países. Participaram Joceli Andreoli, da coordenação nacional do MAB, Joelisia Feitosa, atingida na cidade de Juatuba, no leito do rio Paraopeba, e Juan Pablo, da coordenação do MAR, Movimiento de los Afectados por Represas, coletivo internacional de atingidos por empreendimentos.

Sem participação, sem reparação

“Faz quase um ano que a Vale, as instituições de justiça e o governo de Minas Gerais tentam construir uma estratégia de acordo, com a Vale se safando das ações judiciais para não ser punida pela Justiça aqui no Brasil, e ela fez disso uma grande propaganda, inclusive com seus acionistas” , alerta Joceli Andreoli, do MAB. 

Joceli Andreoli, da coordenação nacional do MAB

Andreoli se refere ao Acordo Judicial travado no TJMG (Tribunal de Justiça de Minas Gerais) que foi promovido desde o início sem nenhuma participação dos atingidos pelo rompimento da barragem.

Na última quarta-feira (20), o Movimento foi surpreendido com a notícia de que os processos ligados ao acordo foram redistribuídos da 1ª para a 2ª instância, o que foi caracterizado pelo MAB como “golpe aos atingidos”, já que o juiz que o juiz que acompanhou todas as rodadas de negociação até então deixou de ser o responsável pela homologação, por enquanto.

Segundo o integrante da coordenação do MAB, muita coisa está em jogo neste acordo e nas movimentações escusas da Vale, incluindo a perda do direito às Assessorias Técnicas, que realizam o levantamento dos dados nas regiões afetadas, e a perícia independente da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Além disso, há grande preocupação com o fim do pagamento do Auxílio Financeiro, pago desde o crime, pois sem ele, muitas famílias não terão nenhuma renda, já que o rio Paraopeba, fonte de sustento para as comunidades, segue totalmente poluído com os rejeitos do rompimento.

As Assessoria Técnicas são fundamentais, é um direito garantido em lei, que tem a função de garantir as provas do crime a partir da ótica dos atingidos. As equipes estão, agora, no trabalho de construção da matriz de danos, e a Vale quer romper com isso”, diz Andreoli. 

“O povo ficou sem o básico, que é a água, sem água fica muito difícil a sobrevivência” afirmou a atingida Joelisia Feitosa, que atuava como pescadora.

Joelisia Feitosa, atingida pelo crime da Vale em Brumadinho

“A Vale não cumpre nem mesmo o que já foi acordado com a Justiça, ela manda e desmanda no nosso território, fica querendo fazer acordos individuais e nem mesmo esses acordos está cumprindo”, aponta Feitosa. 

Coordenador do MAR, o colombiano Juan Pablo prestou solidariedade aos atingidos pelo crime em Brumadinho e relembrou a visita que fez na ocasião da marcha do ano passado, quando o rompimento completou um ano. “Foi muito triste”, conta Pablo. “Nós saímos daquele evento com a mensagem de divulgar que a Vale era criminosa e estava negando o direito dos atingidos, hoje, infelizmente, vemos que o próprio Estado brasileiro também integra essa estratégia “, destaca o ativista. 

Juan Pablo, da coordenação do MAR

Sobre o crime

Com o rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão, em 25 de janeiro de 2019, 272 pessoas morreram e o rio Paraopeba, importante fonte de renda para mais de 20 comunidades, ficou totalmente destruído, afetando o modo de vida de milhares de pessoas. A situação das famílias atingidas é acompanhada desde o início pelo Movimento dos Atingidos por Barragens, que nesses dois anos, luta por direitos e reparação justa e integral para os moradores da bacia do rio Paraopeba.

Ações de denúncia

Desde dezembro do ano passado, o Movimento dos Atingidos por Barragens organiza a “Jornada de Lutas: 2 anos do crime da Vale em Brumadinho – Justiça só com luta e organização”

O calendário de lutas conta com uma série de atividades de denúncia da situação crítica dos atingidos: presenciais, na porta do TJMG (Tribunal de Justiça de Minas Gerais), respeitando os protocolos de segurança contra o contágio do coronavírus, e virtuais, com encontros temáticos e ações nas redes sociais sobre a alteração no modo de vida dos atingidos da bacia do rio Paraopeba afetados com o crime e a impunidade da empresa na falta de justiça e reparação para as vítimas.

Neste sábado (23), será realizado um ato das mulheres atingidas por barragens com transmissão ao vivo pelas redes sociais do MAB; e na segunda-feira (25), um tuitaço unificado com diversas organizações parceiras irá marcar o dia de ações nas redes, além dos atos de rua em diversos pontos do estado de Minas Gerais.

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