“A vida de um atingido nunca mais vai ser a mesma”

Cleonira dos Santos, militante do MAB, conta sua história e aponta os impactos da construção das barragens na vida das pessoas atingidas. Por José Coutinho Júnior, da Página do MST […]

Cleonira dos Santos, militante do MAB, conta sua história e aponta os impactos da construção das barragens na vida das pessoas atingidas.

Por José Coutinho Júnior, da Página do MST

“A Usina Hidrelétrica Barra Grande é uma obra fundamental para gerar a energia que impulsiona o desenvolvimento do Brasil. A Usina Hidrelétrica Barra Grande é uma obra imponente, erguida com a inteligência e o esforço do homem somados à precisão e à grandiosidade da Engenharia. Durante os 52 meses de construção, foram gerados, em média, 5 mil empregos por mês, proporcionando desenvolvimento e novas perspectivas à região de abrangência do empreendimento”.

A descrição da Usina Hidrelétrica Barra Grande presente no site da construtura BAESA esquece de mencionar o que aconteceu com pessoas como Cleonira dos Santos Almeida, que morou em Pinhal da Serra (RS) do seu nascimento até os 20 anos, mas que, devido a construção da barragem para a usina, viu sua casa e das pessoas próximas a ela, ser destruída.

Cleonira morava com a família em uma roça na costa do rio Pelotas. Eles plantavam batata doce, milho, feijão, mandioca, além de criar galinha, gado e porcos. Quando tinha oito anos, começou a ouvir que a barragem seria construída, mas os moradores da comunidade não acreditavam que isso aconteceria de fato.

“A gente não achava que ia acontecer, até quando a empresa começou a fazer levantamentos das terras das pessoas. Os meios de comunicação divulgavam que a barragem traria empregos, desenvolvimento e progresso para a região, e a gente acreditava, estávamos até felizes, mas um dia a empresa invadiu nossas terras, cortando as cercas e entrando para colocar marcos de cimentos. Vimos que perderíamos a nossa terra e que a barragem não traria nada de bom para nós”.

Os moradores começaram a se organizar para lutar contra a construção da barragem, com a ajuda de atingidos pela barragem de Machadinho (RS) e do Movimento dos Atingidos Por Barragens (MAB). Cleonira conta que nunca houve qualquer tipo de diálogo por parte das empresas (além da BAESA, também participaram da construção Camargo Corrêa e Votorantim). Dessa forma, a jovem de 19 anos que nunca havia sequer dormido na casa de uma amiga arrumou uma barraca e se juntou à organização para lutar em 2005.

“O diálogo só acontece na porrada. A empresa não vem te procurar e te agradar. Você tem que cutucar ela, até que ela se sinta prejudicada para vir negociar. Ou seja, a gente teve que se mobilizar para não deixar eles entrarem nas propriedades para colocar os marcos, fazer a roçada, ocupar o escritório da empresa… de outro jeito não adianta”, afirma Cleonira.

Infelizmente, os moradores não conseguiram impedir a construção da barragem. Mais de 5000 pessoas foram removidas, inicialmente sem serem indenizadas de qualquer forma. Para Cleonira, essa remoção foi uma agressão que não pode ser mais desfeita.

“É muio triste. Para mim, que era jovem na época, é terrível. Eu até hoje não gosto de voltar onde morava, fico imaginando onde eram as fruteiras, o pinhão. Meus pais que eram mais de idade e construíram uma história, para eles é mais triste ainda. Minha mãe até hoje não teve coragem de voltar lá. Você destrói uma cultura inteira. Não existe nada pior do que tirar a sua terra e das pessoas que vivem próximas a você”.

Sonho

A luta dos moradores continuou mesmo após a construção da barragem ser inevitável. Por mais de quatro anos eles lutaram para ser reassentados em outra área. Muita pessoas foram presas e fortemente reprimidas, até quando os atingidos descobriram que a empresa Engevix fraudou o estudo ambiental da área, alegando que onde a barragem seria construída não havia nenhuma mata.

Após a construção, seis mil hectares de mata nativa ficaram debaixo d’água. A comunidade usou isto para obter a garantia de diversos direitos, dentre os quais o reassentamento de 2000 das 5000 famílias removidas. Os atingidos ainda lutam para que todas as famílias sejam reassentadas e tenham condições de vida dignas.

Cleonira acredita que a vida no assentamento, localizado no município de Esmeralda (RS), é boa. Hoje ela tem uma área 13 hectares de terra, sendo a maior parte dela agricultável, com uma casa e galpão. Os reassentados fizeram um projeto onde as famílias diversificaram a produção, com fruticultura, gado de leite e comida para subsistência. Mesmo assim, para ela é impossível ignorar o que acontece a outros atingidos. “Você nunca mais é a mesma. Você vê essas empresas fazendo a mesma coisa com outras famílias, e não dá para ficar em casa cuidando da sua vida”. 

Por isso, Cleonira continua lutando, auxiliando outras áreas que são atingidas por barragens para que  população possa se organizar e evitar sua construção. “Meu sonho é ver o povo parar a construção de uma barragem. Em Itapiranga e Garabi, as empresas estão vindo com toda força. Acredito muito que essa barragem não vai sair porque o povo não vai deixar ela sair. Esse povo tem uma terra maravilhosa e moram perto de um rio lindo, e eu sei o que acontece com a vida das pessoas depois que elas perdem a casa e a proximidade com o rio”.

Mulheres em luta

Cleonira é uma militante determinada, que abriu mão de muitas coisas em sua vida, além de se colocar em situações de risco, para seguir lutando. “A gente acaba não tendo muito tempo para a família e filhos. Sou uma preocupação para minha mãe e pai, porque somos visados, já que a empresa que vai construir uma barragem vai odiar você que vai lá orientar as famílias, e minha família sofre muito com isso”.

Ela diz que enfrentou muito preconceito por ser mulher, e que além de lutar contra as grandes empresas e as barragens, as mulheres tem o duplo desafio de desconstruir essa visão.  

“Esse preconceito que exclui a mulher da luta é o que a burguesia quer. A mulher, pelos valores que ela tem, pelo amor à família, tem uma capacidade de luta muito grande. Isso faz ela lutar e brigar com mais garra. Mas ser mulher é bem difícil. Às vezes você tem que deixar os filhos, e isso dói bastante”, afirma emocionada.