Atingidos vão às ruas no Brasil e em 22 países e intensificam luta por água, soberania e justiça 

Atos, assembleias e ações diretas marcaram a data em todo o país e no exterior, reforçando a pressão pela regulamentação da PNAB e a defesa dos rios e territórios

No dia 14 de março, quando se celebra o Dia Internacional de Luta Contra as Barragens e pela Defesa dos Rios, milhares de atingidos e atingidas se mobilizaram em todo o Brasil e também em outros países em uma grande jornada internacional de lutas. A data foi construída com ações em 22 países da Europa, Ásia, África e América, marcando o caráter global da luta em defesa da água, dos territórios e dos direitos das populações atingidas. A data também marca 35 anos de organização e luta do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). 

Além das mobilizações realizadas no próprio domingo, dia 14, a jornada de lutas se estendeu ao longo de toda a semana, com uma ampla agenda de atividades em diferentes regiões do país, incluindo encontros, seminários, assembleias, exposições e ações diretas que fortaleceram a organização das populações atingidas e ampliaram o debate público sobre seus direitos.

“Fizemos várias e importantes ações em todo o país neste ano. É importante ver também como o Encontro Internacional dos Atingidos realizado em Belém em novembro de 2025 e a fundação do Movimento Internacional incentivou a construção de lutas em muitos países, fortalecendo o internacionalismo como um princípio da luta dos atingidos”, afirma Alexania Rossato, da coordenação nacional do MAB.

No Brasil, a mobilização se expressou em atos, assembleias, encontros, exposições e ações diretas, reafirmando a força organizativa do movimento e a atualidade de suas pautas diante do avanço da crise climática e da exploração dos territórios.

São Paulo: mobilização nas periferias e nos territórios tradicionais

No estado de São Paulo, as ações reuniram diferentes realidades de atingidos. Na capital, o ato em São Miguel Paulista levou às ruas moradores e militantes da Zona Leste, com denúncias sobre as violações de direitos nas periferias urbanas, onde a população enfrenta problemas relacionados ao abastecimento de água, moradia e impactos de grandes obras. No Litoral Norte, em São Sebastião, o MAB denunciou os três anos da tragédia de 2023 e que os atingidos seguem sofrendo com enchentes, enquanto milhares de famílias continuam morando em áreas de risco. Em reunião com a Secretária de Habitação, foi reivindicado a regularização fundiária nas áreas atingidas e construção de moradias populares prometidas desde da tragédia.

Em Guarulhos, o ato realizado no dia 14 reuniu atingidos em frente ao Shopping Poli, com faixas, palavras de ordem e mobilização popular, reforçando a denúncia contra a precarização das condições de vida e a ausência de políticas de reparação.

No Vale do Ribeira, a realização de um seminário sobre o 14 de março fortaleceu o debate com comunidades tradicionais e territórios historicamente ameaçados por grandes empreendimentos, destacando a importância da organização popular para a defesa dos rios e da vida.

Rio de Janeiro: denúncia da privatização da água e da crise climática

No Rio de Janeiro, o MAB realizou um ato em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo estadual, denunciando os impactos da privatização da água e os efeitos cada vez mais intensos da crise climática sobre a população.

A mobilização reuniu atingidos com faixas e palavras de ordem que apontavam para a responsabilização do Estado diante das violações de direitos e para a necessidade de garantir acesso à água como direito, não como mercadoria. A ação também dialogou com uma agenda mais ampla no estado, que inclui atividades sobre soberania energética, defesa da água e enfrentamento das desigualdades agravadas por eventos climáticos extremos. Além disso, o lançamento da exposição das Arpilleras no Sesc Tijuca integrou a programação, trazendo a memória e a denúncia das mulheres atingidas por meio da arte e da comunicação popular.

Rondônia: mulheres na linha de frente da luta na Amazônia

Em Rondônia, o destaque foi o ato protagonizado pelas mulheres da Via Campesina, realizado em Porto Velho. A mobilização evidenciou o papel central das mulheres na organização da luta nos territórios amazônicos, especialmente frente aos impactos de barragens, hidrelétricas e grandes projetos.

O ato denunciou a exploração dos territórios e reafirmou a necessidade de defesa da vida, da soberania dos povos e dos bens comuns. As mulheres atingidas seguem sendo linha de frente na resistência e na construção de alternativas nos territórios.

“Em nossas lutas também tivemos como bandeiras a soberania dos povos e a paz. Em tempos de guerras, de sequestro e morte de chefes de Estado, de ataques e roubo dos bens naturais estratégicos como o petróleo, levantar essas bandeiras é tomar posição contrária à ação do imperialismo, é lutar pela vida, pela paz e pela soberania”, destaca Alexania.

Mobilização nacional fortalece luta por direitos

A jornada do 14 de março foi construída ao longo de toda a semana, com atividades em todas as regiões do país. No Norte, comunidades realizaram assembleias e ações diretas contra hidrovias e concessões de rios. No Nordeste, encontros e seminários fortaleceram o debate sobre políticas públicas para atingidos. No Sul, vigílias, celebrações e encontros de mulheres marcaram a mobilização.

Em Minas Gerais, um dos estados mais impactados por crimes de barragens, atos e atividades políticas reforçaram a luta por justiça e reparação, além da centralidade da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB).

“Aqui no Brasil levantamos a bandeira dos direitos e a regulamentação da PNAB. Não é possível que depois de mais de dois anos da aprovação e sanção da lei conquistada pela nossa luta, ainda não tenha sido decretada sua regulamentação. Para garantir que isso aconteça, nossa luta seguirá. Estaremos mobilizados no próximo período pela regulamentação da PNAB, pela criação de um fundo e de um órgão que atenda e acompanhe as reivindicações dos atingidos”, afirma Alexania Rossato.

Ações internacionais conectam lutas em todos os continentes

A jornada do 14 de março também evidenciou a consolidação de um processo internacional de articulação entre populações atingidas. Ao todo, foram registradas ações em 22 países, envolvendo organizações da Europa, Ásia, África e América, que integram a construção do Movimento Internacional de Atingidos.

As mobilizações reuniram uma diversidade de formas de luta, como atos de rua, encontros comunitários, processos de formação com jovens e mulheres, campanhas de comunicação, manifestações em frente a órgãos públicos e ações culturais. Ao todo, foram contabilizadas dezenas de atividades protagonizadas por comunidades atingidas, reafirmando a data como um marco global de resistência.

Entre as ações, destacam-se atividades como encontros comunitários e mobilizações contra hidrelétricas na Ásia; campanhas e formações na África; além de atos públicos, festivais, denúncias e articulações territoriais em países da América Latina, Europa e Estados Unidos. Também houve iniciativas como caravanas fluviais, processos de reflorestamento, produções audiovisuais e manifestações em defesa dos rios como bens comuns.

As atividades envolveram dezenas de organizações e comunidades, com forte protagonismo popular e caráter territorial. A diversidade de experiências demonstra que a luta contra barragens e pelos direitos dos atingidos é compartilhada por povos de diferentes partes do mundo, fortalecendo o internacionalismo como estratégia política e organizativa.