Ribeirinhos de comunidades acima do reservatório de Belo Monte reivindicam reparação de danos

Segundo o Ministério Público, movimentos sociais e moradores locais, a construção da usina, que aguarda a renovação de sua licença de operação, causou irreparáveis prejuízos ao meio ambiente e provocou o sumiço dos peixes do Xingu, impactando comunidades abaixo e acima da barragem

Atingidos de comunidades de Altamira (PA) em reunião do MAB. Foto: Coletivo de Comunicação MAB

Enquanto o Ibama analisa o pedido de renovação da licença de operação da Usina de Belo Monte, os moradores de comunidades ribeirinhas à montante do reservatório, em Altamira (PA) denunciam não terem tido acesso até hoje a nenhuma medida de reparação. Apesar de sofrerem com os grandes impactos da hidrelétrica desde o período da sua construção, sete anos após o início das operações, eles ainda não foram sequer reconhecidos como atingidos pelo Consórcio Norte Energia, responsável pela construção e operação da barragem.

“Eles falam que nós não fomos atingidos, mas nós fomos atingidos sim, em muitas coisas, principalmente no nosso peixe, que era o nosso sustento, e, hoje em dia, a gente não pega mais, nem para comer. A água está suja, muito suja mesmo”, conta Alcilene Silva de Almeida, moradora do bairro de Boa Esperança.

A mesma denúncia é feita por Francisco da Rocha, da comunidade Ilha das Araras. “Não tem mais peixe no rio. A gente vai pescar e não pega nada. Tem que pedir uma carne lá na rua para comer num beiradão desse”, conta.

Leia mais: Ribeirinhos do Xingu denunciam violações de direitos por Belo Monte ao Ibama (mab.org.br)


Segundo moradores, quantidade de peixes no Rio Xingu diminuiu consideravelmente após construção de Belo Monte. Foto: Coletivo de Comunicação MAB

As comunidades mencionadas estão localizadas a mais de 80 quilômetros do reservatório principal de Belo Monte. Mesmo assim, o relato dos moradores é unânime: após a construção da barragem, a quantidade de peixe disponível no rio diminuiu muito. O morador João Evangelista, um dos mais antigos da comunidade Boa Esperança, explica que a usina alterou o ritmo do rio Xingu. “O rio está lento para encher e vazar. Assim, fica sujo porque perdeu a força da correnteza. Está numa vagareza para secar”, conta. Belo Monte entrou em operação em 2016, quando iniciou o enchimento do reservatório, de 516 km².

Pressionada pelo Ibama no ano passado, a Norte Energia começou a pagar uma verba de reparação aos pescadores da região do Xingu pelos impactos na pesca. A medida inicialmente abrange 1.976 pescadores cadastrados pela empresa. O número já é apontado como insuficiente, uma vez que a empresa admite que existem 3.909 outros pedidos de cadastro que estão em “estudo de caso” e que até agora não tiveram resposta. “Queria ver como vai ficar esse estudo de caso, porque a Norte Energia não explica nada para nós”, reclama Francisco da Rocha.

Para piorar a situação, moradores contaram que a Norte Energia distribuiu a alguns pescadores um tipo de malhadeira inadequado para o uso na região. Como sua trama é estreita, acaba prendendo muitos peixes pequenos, que acabam não atingindo um tamanho adequado para a pesca.

Atingidos discutem reivindicações de políticas públicas em Altamira (PA). Foto: Coletivo de Comunicação MAB

A moradora Francineide, da região do Km 13 de Brasil Novo, considera um desrespeito a forma como a empresa vem tratando os atingidos. “De vez em quando vem aqui uma equipezinha, que traz uma caixinha com anzol e três iscazinhas. Isso não é certo. A Norte Energia ganha tanto em cima dos ribeirinhos”, desabafa.

Acesso a políticas públicas

Além de denunciar que a água do Rio Xingu está suja e sem peixes, os atingidos reclamam da falta de políticas públicas na região, como acesso à energia, saneamento básico, escolas de qualidade e posto de saúde próximo. As localidades pertencem ao município de Altamira e são acessadas pelo rio.

“Nós não temos água para beber nem lavar roupa. Chega o inverno e ninguém pode fazer nada com a água. Nós não temos energia, não temos posto de saúde, nem escola perto. Tudo é longe. Tem várias crianças aqui nessa ilha e não tem escola perto”, afirma Carolina, moradora da Ilha das Araras.

O Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB fez uma série de reuniões nessa região no final de semana passado, em preparação para o Encontro dos Atingidos por Belo Monte, que ocorrerá no início de junho em Altamira (PA).

Na visita, os militantes do MAB também puderam conferir a situação das escolas da localidade. Em uma delas, na comunidade Boa Esperança, o telhado de palha está todo danificado. A prefeitura providenciou uma lona para cobrir a estrutura, o que deixa a sala de aula muito quente, em especial durante a tarde. Sem acesso à energia na localidade, não é possível sequer ligar um ventilador.

Outra escola, da comunidade Passaí, funciona em um galinheiro cedido de forma provisória por um morador. “Era para ser uma situação improvisada, de três meses, e já vai durar três anos”, conta Paulo, morador do local.

Conteúdos relacionados
| Publicado 21/12/2023 por Coletivo de Comunicação MAB PI

Desenvolvimento para quem? Piauí, um território atingido pela ganância do capital

Coletivo de comunicação Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no Piauí, assina artigo sobre a implementação de grandes empreendimentos que visam somente o lucro no território nordestino brasileiro

| Publicado 22/07/2021 por Coletivo Nacional de Comunicação do MAB

Prefeitura de Altamira aponta necessidade de retirar mais 56 imóveis da área da “Lagoa”

Laudo amplia número de imóveis considerados inviáveis de serem ligados ao sistema de saneamento e reconhece a responsabilidade da Norte Energia sobre a remoção das famílias

| Publicado 29/09/2021 por Coletivo de Comunicação MAB PA

Atingidos por Belo Monte ocupam sede do Ibama em Altamira (PA)

Famílias remanescentes da região da Lagoa do Independente 1, em Altamira (PA), ocupam a sede do Ibama nesta quarta-feira (29).

| Publicado 22/06/2023 por Coletivo de Comunicação MAB PA

Pescadores questionam critérios de Belo Monte para pagar verba de reparação

Quantidade de documentos exigidos para indenização desperta preocupação de atingidos: cerca de 6 mil pescadores estão “em estudo de caso” na região do Xingu (PA)