Município de Congonhas registra tremores de terra e atingidos por barragem Casa de Pedra entram em alerta

Moradores estão em estado de alerta por medo de rompimento de barragem da CSN Mineração que é uma das maiores em área urbana do mundo

Moradores do bairro Residencial Gualter Monteiro, de Congonhas (MG), relataram uma noite pavorosa por causa de um tremor de terra na noite do último domingo (15). O receio é que o evento tenha relação com a barragem Casa de Pedra, de propriedade da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que acumula 103 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério.

Três bairros estão abaixo da barragem da CSN na área urbana de Congonhas. Foto: Ramon Lisboa/EM

Atualmente, mais de cinco mil pessoas vivem em bairros que estão abaixo do nível da barragem, que é a maior em área urbana da América Latina. Estudos apontam que um possível rompimento da estrutura seria catastrófico, pois as pessoas que vivem na área de risco, a cerca de 200 metros da barragem, teriam menos de 20 segundos para fugir da morte.

Fátima, moradora do bairro Residencial e atingida por Casa de Pedra, conta o drama vivido por ela e sua netinha: “senti um estrondo alto, minha casa tremeu toda. Cheguei a ir à janela achando que tinha sido uma batida de carro. Cheguei a olhar se era uma batida na parede da minha casa ou no muro da escola. Mas não era. Imediatamente fiquei preocupada. Minha neta ficou nervosa demais, com muito medo, porque a gente mora debaixo da barragem Casa de Pedra. E a gente não sabia se tinha a ver com a barragem ou não. E a noite foi uma noite longa para todos que ouviram e sentiram esse tremor nessa noite de domingo”.

Segundo o Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB), o tremor foi registrado às 22h19 de domingo, com 2.1 de magnitude na Escala Richter. Para o padre Antônio Claret, da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), as notas das mineradoras, da Defesa Civil e da gestão pública municipal são insatisfatórias diante do grave risco potencial que sofre um município que tem 23 barragens de rejeito. A CSN informa ‘não ter detectado nenhum tremor de terra em Congonhas’. A Vale afirma que seu Centro de Monitoramento Geotécnico (CMG) ‘registrou, na noite desse domingo (15), sismo natural na região da barragem Mina de Fábrica, em Congonhas’. Diz ainda que ‘não foram identificadas alterações nas condições de segurança das estruturas (barragens), que abrangem Forquilhas I, II, III, IV e Grupo’. A Prefeitura Municipal de Congonhas e a Defesa Civil local, por sua vez, terminaram sua nota apenas afirmando que ‘aguardam relatório técnico das mineradoras que atuam na cidade’.

O MAB, que está presente em Congonhas desde o crime da Vale em Brumadinho (25/11/19), já construiu uma pauta de reivindicação junto às famílias atingidas pela barragem Casa de Pedra, com a participação ativa do Ministério Público. Entre as principais demandas apontadas está o deslocamento voluntário das mais de cinco mil pessoas das áreas de risco para uma nova área onde todas as estruturas individuais e coletivas devem ser construídas em local seguro.

De acordo com Claret, o MAB tem denunciado o descaso das mineradoras com essa pauta e a lentidão para atuação no caso por parte das administrações municipais (atual e passadas). Além disso, o Movimento aponta a morosidade e omissão da Justiça, que não deu andamento ao processo de garantia de melhor segurança da população. “‘Pagar para ver’ depois dos crimes da Vale em Mariana e Brumadinho vai sair caro demais para o povo. Ainda assim, os responsáveis perdem a oportunidade de salvar, em tempo, milhares de vidas, ‘apenas’ agindo com precaução”, conclui o coordenador.  

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