Mulheres denunciam violações cinco anos após rompimento da barragem de Fundão em ato virtual

Perda de emprego e renda, destruição do ambiente de lazer, aumento do adoecimento e violência são alguns pontos levantados pelas atingidas

Como parte da programação da jornada de lutas: “Vale com a injustiça nas mãos: 5 anos sem reparação na bacia do Rio Doce”, as mulheres organizadas no MAB, em Minas Gerais e Espírito Santo, trouxeram depoimentos sobre a situação que vivem atualmente e viveram durante todo esse período em que as empresas responsáveis pelo crime não promoveram a reparação justa aos atingidos. 

“Vemos que milhares de pessoas ainda não foram reconhecidas, e a maioria são mulheres. Quando alguém da família recebe o cartão é o homem, isso porque no total de indenizações, mesmo elas sendo a maioria nos cadastros, apenas 33% do recebimento é para mulheres, e 77% vai para os homens declarantes”, conta Letícia Oliveira, da coordenação nacional do movimento, e moradora de Mariana. 

Para Letícia, a realidade das atingidas só piora com o passar do tempo, “não há reparação, só há empobrecimento, perda de trabalho e renda, adoecimento e carga dobrada de trabalho doméstico com o aumento na demanda dos cuidados, geralmente tarefa feminina nas famílias”, relata.

Enquanto o tempo passa, a esfera judicial, ao invés de tentar acelerar o processo reparatório, se coloca ao lado das empresas. “A justiça retrocede, limitando os direitos, postergando a decisão sobre as Assessorias Técnicas e dando decisões favoráveis às mineradoras que cometeram os crimes”, pontua Oliveira. 

“Até hoje a gente quem tem comprar água para tomar banho e cozinhar, consumimos água de galão de 20 litros, temos que nos organizar na comunidade para buscar galões para idosos e pessoas doentes. Aí, eles nos perguntam: ‘o que vocês querem? façam as contas’ e eu digo: ‘mas que conta? a gente tinha um rio inteiro nosso, que foi tirado da gente”, denuncia a educadora IuriMirim, indígena tupiniquim em Aracruz, no Espírito Santo.

Além das mulheres da bacia do Rio Doce, atingidas organizadas no MAB em outros estados do país também participaram do ato em comentários, que foram lidos pelas apresentadoras Camila Brito e Fernanda Portes, da coordenação do movimento em Minas Gerais. Mulheres militantes de outros países, que integram o MAR (Movimiento de Afectados por las Represas), também prestaram solidariedade às atingidas da bacia. Outras participações foram de mulheres líderes de movimentos parceiros, como a Via Campesina e a FUP (Federação Única dos Petroleiros). Nos intervalos entre os blocos, foram apresentadas vinhetas com as peças de Arpilleras, produzidas pelas mulheres atingidas pelo crime. 

Impunidade gera outros crimes

Pouco mais de três anos após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, mais uma tragédia anunciada. O rompimento da barragem da Mina do Córrego do Fundão, em Brumadinho, também no estado mineiro, deixou 272 pessoas mortas, além de mais contaminação ao meio ambiente e um rastro de violações de direitos humanos.

A atingida Damiana Aparecida gravou um depoimento falando sobre a situação da bacia do rio Paraopeba. “Brumadinho era uma cidade bem acolhedora, as crianças estavam sempre livres brincando na rua, fazíamos muitos piquenique com família e vizinhos, agora a insegurança tomou conta. As mulheres andam com medo nas ruas”, desabafa a atingida. 

No ato, foi lembrada a situação da cidade de Congonhas, onde há uma barragem da empresa CSN; São mais de cinco mil pessoas morando a 800 metros da barragem, o que representaria apenas 8 segundos de tempo de fuga, em caso de rompimento, ou seja, toda uma comunidade sem tempo hábil para escapar da morte.

Mesmo na dificuldade, em luta

Confira os depoimentos de atingidas que relataram no evento o sentimento envolvido com a contaminação do Rio Doce. 

“Ficamos na região das pequenas ilhas, próxima a Ilha Brava, a lama passou pela nossa ilha que tínhamos no meio do rio e levou tudo o que a gente tinha. Quando aconteceu o rompimento ficamos sem reação, desesperados, eu e meu esposo Nivaldo, e quando a gente viu brotar do barro um monte de peixe morrendo, e a gente viu tudo o que construímos ao longo do tempo perdido. Hoje, continua existindo a ilha, mas as plantas não nascem mais, continua tendo muito barro. A Renova só promete que vai mandar um agrônomo, mas até hoje nada. Com a orientação do MAB, consegui entender muita coisa. Eu vi minha vida perdida ao longo do tempo e até hoje. Eu sempre fui muito feliz, brincalhona. Hoje, eu vejo a ‘Silma’ que sou hoje: sem vontade de receber minha família na minha ilha, passar os finais de semana, pescar no rio, fazer minha carne assada, porque eu vivo totalmente drogada com remédio pra dormir, remédio pra comer. É assim que eu vivo hoje: destruída.”

 Josilma Ferreira, agricultora, atingida em Governador Valadares (MG). 

 


“Sou pescadora, foi uma situação muito difícil para nós. Aqui onde eu moro, a lama passou 12 dias após o rompimento, e matou toda a nossa criação de bois, e, claro, muitas vidas, foram 20 pessoas mortas no rompimento, tudo culpa da Samarco. Eles colocaram essa Renova pra atrapalhar e não pra ajudar, porque aqui a gente não está sendo ajudado. Na quinta-feira, vai fazer cinco anos de sofrimento. Perdemos nosso lazer, nosso tempo bom, nossa renda, quem ainda consegue receber o cartão, usa todo o dinheiro em remédio e médico. Nós perdemos a nossa vida, porque o rio é nossa vida, não só de nós pescadores, mas de todo mundo, rio é vida. Hoje, a gente só fica dentro de casa. E quem cresceu na beira do rio não consegue ficar dentro de casa. Meu esposo está agoniado, ele é pescador desde 7 anos de idade, agora fica agoniado querendo trabalhar. Muitos idosos que criaram as famílias dentro do rio estão em depressão. A Renova ameaça cortar o cartão das pessoas, eu e minha família nem conseguimos receber ainda. Eu tenho muita tristeza porque quando a gente quer comer um peixe, a gente tem que ir buscar muito longe, porque aqui em Colatina estão todos contaminados. Eles tiraram tudo da gente”. 

Joselita Maria, pescadora, atingida em Colatina (ES). 


Parlamentares que apoiam a causa das atingidas

Apoiadoras no Congresso da luta dos atingidos, as deputadas pelo PT, Maria do Rosário e Érika Kokay estiveram presentes na atividade, com participação ao vivo.

Maria do Rosário afirma que admira o movimento porque nele as mulheres são, de fato, protagonistas, tanto na direção quanto nas bases. Ela comentou o fato das mulheres sofrerem ainda mais violações de direitos com situações como as de Mariana e Brumadinho, e em outros locais do Brasil. “Temos que unir o parlamento com a luta popular, a vida vale muito pouco para esse governo genocida, somos nós dos movimentos populares que precisamos defender a vida e combater Bolsonaro”, diz Rosário.

Érika Kokay, parceira em diversas denúncias e outras atividades do movimento, falou sobre a coragem das mulheres, que parece já ser item de nascença, citando o poeta João Cabral de Mello Neto; ela também se solidarizou com a luta e lamentou a perda do território, onde são construídas as relações entre as pessoas. “A lama física e a lama metafórica encontrou barreira na coragem das mulheres que lutam”, comenta Kokay. 

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