Com descaso governamental, estado do Mato Grosso arde em chamas

O estado, que possui três diferentes biomas, sofre com avanço do desmatamento e queimadas enquanto mentiras sobre responsabilização das populações locais são disseminadas

Incêndio no Pantanal/ Foto: Mayke Toscano/Secom-MT

O estado do Mato Grosso está em chamas, toda sua biodiversidade arde com o descaso governamental. Podemos medir a abundância e potência desta porção territorial com o fato de que o estado abrange os biomas: Amazônia, Cerrado e Pantanal. Além da pandemia da Covid-19, enfrentamos, no país, um aumento descomunal dos focos de incêndio nas regiões norte e centro-oeste. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, o Pantanal alcançou, neste ano, o maior número de queimadas desde 1998, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) começou o monitoramento.

Estes diferentes biomas abrigam, além de toda fauna e flora, os povos tradicionais, originários e quilombolas, os quais possuem uma relação de dependência exclusiva deste meio para sobrevivência. A cultura e modo de vida destas populações têm uma relação íntima com a natureza, e assim, eles se são protagonistas na manutenção da vida e das florestas, mesmo sofrendo todas as terríveis consequências do desmatamento, dos ataques governamentais e do aumento das queimadas.

Na presidência deste país, temos alguém que negligencia e promove o descaso com relação a esta situação desesperadora, agindo escancaradamente como um verdadeiro genocida. A alta cúpula do governo se comporta como incentivadora das queimadas, do desmatamento e do avanço da fronteira agrícola, fomentando a morte dos nossos biomas, destruindo terras indígenas e exterminando a biodiversidade de um país conhecido como um dos mais biodiversos mundialmente. 

Com o desenrolar da política econômica e ambiental dos últimos dois presidentes da república se evidencia uma priorização da exportação de commodities e de uma destecnificação da produção. Assim, temos nas fronteiras de expansão da economia uma pressão maior ainda contra aqueles que possuem outros modos de vida.

A Amazônia é o maior exemplo disso, pois há décadas é massacrada pelo fogo e pelo trator esteira; a destruição do bioma está quase sempre ligada aos grandes empreendimentos de infraestrutura. A transamazônica, a BR-163, e as grandes barragens de Tucuruí, Jirau e Belo Monte são alguns exemplos de portas de entrada para expansão sem freios da produção de commodities agrícolas, como a soja, ou de mineração, como o ferro, alumínio e o garimpo de ouro.

O imaginário do estado de Mato Grosso está ligado ao papel de “celeiro do país” devido à alta produção de grãos para a exportação. A decisão de expandir as áreas de produção ao invés de tecnificar e industrializar é uma decisão política que serve aos interesses das grandes exportadoras e das multinacionais estrangeiras, que compram matéria prima barata para processamento nos países estrangeiros.

A forma mais barata para ‘abrir novas terras’ na agricultura é o fogo. O fogo não é natural, muito menos nessa escala que vemos agora no bioma amazônico. Porém, é uma prática comum e tão antiga que muitos acreditam ser característica dessa região. A época de queimadas coincide com o auge do período seco o que agrava ainda mais as proporções das queimadas e danos à saúde da população de forma geral.

 O que dizemos sobre a Amazônia se aplica também ao Cerrado, com a diferença que o Cerrado é muito menos protegido pela legislação ambiental. Vale lembrar que segundo a Embrapa o cerrado pode ser classificado em 11 tipos diferentes, tornando-se assim um dos biomas com maior diversidade do país (Amazônia e Mata Atlântica tem três e cinco tipos, respectivamente). 

 O Cerrado é outro bioma que sofre com o falso discurso das queimadas naturais. Nesse caso, elas até podem existir, porém em pequena escala e temporalmente muito distantes umas das outras. Não é a mesma situação que vemos acontecer todos os anos pela ação humana, quando grandes latifundiários do gado e da soja ateiam fogo, seja para renovar o pasto, seja para aumentar as áreas de lavoura ou pastagem.

Com o Pantanal não é diferente, a sanha dos produtores de grãos em suas vastas planícies e dos grandes pecuaristas em suas vastas pastagens e fontes de água promove queimadas há décadas na região, também com a desculpa de que o fogo faz parte da cultura pantaneira. Nada está mais distante da racionalidade do que esse saudosismo relacionado a destruição. Há muito tempo já se descobriu que essas práticas não são necessárias para a renovação das pastagens, nem da fertilidade do solo, pelo contrário o fogo elimina elementos químicos importantes como o enxofre, além é claro de destruir a matéria orgânica e a vida do solo (fungos, insetos e bactérias benéficas).

O que está por trás desses grandes incêndios não são ações naturais, nem tão pouco o aumento da produtividade do solo. A real causa desta tragédia, assim como ocorreu em Brumadinho e Mariana, é o projeto econômico e de sociedade em especial, mas não exclusivamente, deste governo. Nós do Movimento dos Atingidos por Barragens somos contrários a esse modelo econômico de destruição da natureza e da vida. 

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