À beira do colapso: a situação das barragens nos Estados Unidos

Meu trabalho com o MAB e as conversas com pessoas atingidas por barragens de todo o mundo me fizeram querer investigar as seguintes perguntas: qual é o estado das barragens em meu próprio país, os Estados Unidos, em 2020? Temos preocupações sobre a segurança delas? Poderia haver um rompimento de barragem aqui? O que aconteceu em Brumadinho pode acontecer aqui? Quem controla essas barragens, e quem “se beneficia” da energia?

Por Caitlin Schroering

Por que não ouvimos discussões sobre conflitos e a questão da segurança de barragens nos Estados Unidos? A verdade é que não ouvimos muito sobre isso em nenhum lugar. Lembro das 300 pessoas enterradas vivas na lama quando a barragem de Brumadinho rompeu no Brasil. Houve pouca repercussão em notícias internacionais e muito menos atraiu atenção necessária no Brasil. No entanto, uma grande empresa multinacional, a Vale, estava por trás disso e foram seus erros que causaram essa catástrofe, esse crime.

O MAB questiona: “energia para quem?”. Meu trabalho com o MAB e as conversas com pessoas atingidas por barragens de todo o mundo me fizeram querer investigar as seguintes perguntas: qual é o estado das barragens em meu próprio país, os Estados Unidos, em 2020? Temos preocupações sobre a segurança delas? Poderia haver um rompimento de barragem aqui? O que aconteceu em Brumadinho pode acontecer aqui? Quem controla essas barragens, e quem “se beneficia” da energia?

Há mais ou menos um mês estive pesquisando e aprendi o seguinte: em 2017, a Sociedade Americana de Engenheiros Civis (ASCE) deu uma nota “D” às 91.000 mil barragens do país. Essa é a mesma nota que as barragens do país recebem desde 1998, quando a ASCE começou a avaliar. A ASCE estimou ainda que cerca de $ 45 bilhões de dólares precisam ser gastos em reparos dessas barragens “cujo fracasso ameaçaria a vida humana”; reformar todas as barragens que precisam de reparos custaria mais de $ 64 bilhões de dólares. A maioria dos cidadãos desconhece completamente essa realidade, incluindo aqueles que vivem perto a essas barragens. Alguns estados nem sequer têm um programa de segurança para barragens e cerca de 20% das barragens consideradas de alto risco também não possuem planos de emergência. Esses riscos só aumentarão diante das mudanças climáticas. Essa informação é ainda mais perturbadora diante do que aconteceu em 20 de maio de 2020, quando duas barragens romperam no estado americano de Michigan.

A aproximadamente 225 quilômetros de Detroit, 11 mil moradores de Edenville, Sanford e Midland foram evacuados. O estado e o país ainda estão no meio da pandemia do coronavírus, que matou mais de 100 mil pessoas nos Estados Unidos, com 1,76 milhão de casos confirmados. Para os trabalhadores humanitários de emergência e os 11 mil moradores, a evacuação se tornou ainda mais desafiadora, pois as pessoas tentavam garantir o uso de máscaras e pudessem manter a distância de 1,5 m. Ainda assim, os moradores tiveram que se arriscar à exposição ao coronavírus para escapar das crescentes enchentes.

Midland, em Michigan, é o lar da empresa Dow Chemical, que costumava fabricar substâncias que contêm dioxinas, compostos ligados ao câncer e danos reprodutivos. Na cidade, há áreas poluídas e contaminadas. Esses são os locais que o governo dos EUA determinou que as empresas limpassem depois de anos derramando contaminantes na terra e na água. A Agência de Proteção Ambiental (EPA) supervisiona a limpeza desde 2012. Mas a EPA alertou que o esforço de limpeza não é suficiente para resistir a um evento de inundação como o ocorrido recentemente, e existe o medo de que produtos químicos tóxicos estejam sendo liberados no ambiente e vias navegáveis. O rompimento da barragem está subitamente trazendo ao discurso público, pelo menos um pouco, que o que aconteceu lá poderia acontecer novamente, com impactos ainda mais devastadores.

Historicamente, houve sérios rompimentos de barragens nos Estados Unidos, embora isso nunca faça parte do discurso público ou político. Geralmente, esses acidentes são causados por falta de financiamento e regulamentos e reparos adequados. As barragens que romperam em Michigan são de propriedade da Boyce Hydro, uma empresa privada listada pela Comissão Federal de Regulamentação de Energia como “cronicamente não-compatível com as solicitações regulatórias para melhorar a barragem”.

Embora a maior parte da infraestrutura (estradas, pontes, sistemas de esgoto) seja de propriedade pública nos EUA, a maioria de todas as barragens são de propriedade privada. De fato, 97% das barragens nos Estados Unidos são de propriedade privada. Após o rompimento das barragens, o governador de Michigan, Gretchen Whitmer, afirmou: “Podemos falar sobre o mérito de empresas privadas ou não possuírem infraestrutura crítica ou não – acho que não deveriam, mas é com isso que estamos lidando aqui”. O governador Whitmer solicitou uma investigação completa sobre o rompimento. Há uma percepção de que as barragens são energia “limpa”, mas é hora de enfrentarmos a realidade dos impactos socioambientais significativos deles.

*Caitlin Schroering é doutoranda em Sociologia na Universidade de Pittsburgh e membro do Comitê em Solidariedade ao MAB e MAR nos Estados Unidos.

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