1º de maio solidário

O mundo gira, gira, mas o antagonismo classe figurado na relação capital-trabalho continua de pé

O pêndulo dessa relação é dialético e pode oscilar para um lado ou para outro, em proporção às forças atuantes, e pode estar mais explícito ou menos conforme cada contexto histórico.

Na pandemia, sob aparência de sensibilidade humanitária, com os cofres da burguesia se abrindo aos trilhões, o pêndulo, visto a médio e longo prazo, pesa pró-capital.

É verdade que a pandemia ‘criou’ um ambiente que escancarou esse antagonismo em versão simples, vivida no cotidiano, cuja compreensão ficou acessível às pessoas comuns. Embora seja sempre muito proveitoso o estudo do pensamento marxista em qualquer tempo e lugar, parece que esse momento até dispensa tal esforço. Marx brota de sua obra clássica e, quase em pessoa, está ‘vivo’ no conflito aberto.

A luta de classe saiu do papel, dos gritos de ordem, dos sindicatos, e foi para dentro das casas e para a rua. A disputa mais encarniçada materializa-se em torno do isolamento social. Uma queda de braço virulenta.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) defende o isolamento social como tática importante de proteção. Ela é seguida por autoridades nacionais das diversas áreas fundamentadas nos bons resultados dos países que o adotaram e na ciência. Os movimentos populares e sociais, sindicatos, associações seguem essa mesma linha.

Mas as máquinas sozinhas sem a ‘força’ de trabalho – ao contrário do que diz a ideologia capitalista – não produzem nada, enferrujam, apodrecem. O impasse então está criado.

O capital mobiliza seu contingente e busca atacar todas as frentes de uma só vez pela volta imediata ao trabalho. Ainda que isso seja risco real à saúde do trabalhador. A sua mensagem demagógica é salvar empregos. Mas é algo que beira ao assassinato.

Independente da motivação ‘individual’ subjetiva da divulgada solidariedade, é fato que o Covid-19 encontra forte aliado na ganância viral da classe opressora, parasita, sedenta de mais valia para acumulação.

A solidariedade é um dos movimentos dos capitalistas que responde a uma demanda imediata, no vazio deixado pelo estado burguês, e serve para colar a imagem das empresas privadas à filantropia o que lhe garante fôlego para surfar na pandemia e superá-la.

Dito de outra forma, essa ‘criatividade’ é a roupa de que o capital precisa, porque ficou nu.

A figura pública mais encarniçada nessa defesa ‘insensata’ da volta imediata ao trabalho é o Presidente da República, Jair Bolsonaro. Por trás dele, claro, estão os mandantes detentores do poder econômico.

Ele assume um engajamento pessoal afrontando as autoridades da saúde. Mas o pior! Esse comportamento reflete diretamente no senso comum e na tomada de decisão de governos, nos diversos níveis, contribuindo para o aumento do número de contaminados e de óbitos.

Zema, em Minas Gerais, é um dos que lhe seguem o exemplo de forma eficaz, posto que de seu modo aparentemente abobalhada. Outra postura de sua parte é que seria algo estranho, pois ele é empresário e do mesmo partido de Bolsonaro.

Os dados científicos indicam uma proporcionalidade entre circulação de pessoas e propagação do vírus. Ele pega carona! Considerado isso a irresponsabilidade de uma autoridade pode caracterizar-se crime.

No início da pandemia, o coronavírus era tratado como um inimigo comum de toda a humanidade. Sem classe social e sem fronteiras. Dizia-se que ‘estamos no mesmo barco’.

Essa anedota ainda persiste no senso comum. E expressa alguma verdade enquanto não se descobre a vacina. Porém torna-se cada vez menos defensável. Sua letalidade tem uma componente social e cresce exponencialmente entre os empobrecidos.

A tempestade é a mesma mas, definitivamente, não estamos no mesmo barco. Uma coisa é a situação de quem pode debochar do povo, com cinismo, pois, se contaminado, tem à sua volta cuidados de sobra. Tratado feito rei. Outra coisa é a situação do indígena, das famílias em aglomerados urbanos precários, das pessoas em situação de rua e de todos os grupos vulneráveis.

Chama a atenção o caso das mineradoras, que continuam operando, normalmente. Elas não se encaixam nos serviços essenciais, mas nem precisaram de quem as defendesse, pois são poderosas.

As empresas da área da mineração sabem que o que fazem é uma temeridade. Aposta semelhante já ocorreu nos crimes em Mariana (5/11/2015) e em Brumadinho (25/01/2019). Mas baixas não lhes importam. Primeiro porque seus donos estão bem protegidos, noutras regiões, e investem ali como se investe num banco. Depois porque existe um verdadeiro exército de reserva, que aceita emprego até por salário menor por medo da fome.

Mas o necessário isolamento social, que tem o mérito de desnudar o mito de que o capital precede o trabalho, traz uma contradição. Ele diminui o risco da contaminação, mas impacta, negativamente, a condição de vida de grupos fragilizados, vítimas históricas do estado neoliberal.

Há um caso emblemático em Congonhas que se pode aplicar tranquilamente a outros municípios. Existe uma família artesã de 12 membros que mora no Bairro Residencial, debaixo da barragem Casa de Pedra (CSN). Seus artesanatos eram vendidos no centro da cidade turística. Com a pandemia, a venda foi proibida por decreto. Ainda que não o fosse, os turistas sumiram.

No contexto da pandemia, a classe oprimida sente mais fortemente na pele, a perversidade do estado neoliberal, o qual não tem mecanismo de proteção do povo.

Entre os mais vulneráveis a pancada é sempre maior. As centenas de milhares de pessoas em situação de rua, nas metrópoles, os trabalhadores informais, os indígenas, todos ficam totalmente à mercê da caridade.

A burguesia já implementa sua tática para salvar a saúde da economia. Diga-se de passagem que, apesar dos solavancos e do fogo amigo, ela está bem posicionada. Em um certo sentido, na sua perspectiva a crise da saúde são águas passadas.

O desafio da classe trabalhadora é muito maior. Salvar vidas é mais desafiante que salvar lucro. Sua condição é agravada pelo esmagamento sofrido, em especial no último período, piorada na pandemia.

Mas não há razão para desespero. A história mostra que o povo sempre encontrou saída até nos ‘becos sem saída’.

A pandemia acordou a semente da ajuda mútua. Ela se multiplica por todos os lados. Responde por caridade ou por outro nome qualquer. ‘Ai do povo se não fosse o próprio povo!’. Nesse chão fértil e na inspiração caridosa do 1º de maio, dia do trabalho é uma boa oportunidade para o cultivo da solidariedade de classe. Pois ela salva vidas agora. E os pés firmados nela pode ser a condição necessária para o passo adiante.

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