Carta dos atingidos pelos crimes da Vale à sociedade brasileira

Para marcar as datas dos crimes da Vale em Mariana (quatro anos) e Brumadinho (um ano), o Movimento dos Atingidos por Barragens vai promover a “Jornada de Luta dos atingidos […]

Para marcar as datas dos crimes da Vale em Mariana (quatro anos) e Brumadinho (um ano), o Movimento dos Atingidos por Barragens vai promover a “Jornada de Luta dos atingidos – A Vale destrói, o povo constrói” com ações em Minas Gerais e em todo o país. Em lutas que vão ocorrer a partir de setembro deste ano até janeiro de 2020, o MAB vai denunciar as consequências dos crimes na vida dos atingidos de Minas Gerais e Espírito Santo. 

 

Leia a carta dos atingidos pelos crimes da Vale à sociedade brasileira: 

“Assistir televisão nos últimos meses me embrulha o estômago. No intervalo do jornal, da novela, lá está ela “prestando contas”: a Vale, empresa que me tirou os sonhos, a casa, os amigos. Talvez acreditem que investir uma quantia milionária em publicidade seja o suficiente para apagar os crimes em Mariana e Brumadinho. Mas não vai adiantar, nós, atingidos, seguiremos denunciando nossa condição, os nossos direitos violados.

Na bacia do Rio Doce, para nos enrolar, a Vale colocou uma máscara chamada Fundação Renova. Vocês sabiam que, quatro anos após o crime, nenhuma casa foi levantada? A lama passou e ficou. Vocês sabiam que nossa gente, até hoje, sofre com problemas de saúde por causa da água contaminada? Onde está a reparação prometida?

Um crime, como os que a Vale cometeu contra os atingidos, causa grande impacto. Logo após o rompimento, a comoção é geral. Se vocês soubessem mais sobre o dia a dia dos atingidos pelas barragens do Fundão e da Mina do Córrego do Feijão ficariam ainda mais comovidos. De um lado, insegurança, falta de perspectiva, desemprego, doenças físicas e mentais, do outro: descaso.

No caminhar dos acontecimentos na bacia do Rio Doce, a construção de uma casa parece ser uma tarefa difícil de realizar (quatro anos!) Nós sabemos que não é. Ao longo da nossa Jornada de Lutas, iremos construir uma, tijolo por tijolo. Será bonito, nós atingidos vamos entregar uma casa para um dos nossos. Faremos juntos, organizados. Se a Vale destrói, o povo constrói. 

Se por um lado, existe o sofrimento de não ter o conforto de um teto, precisamos falar da dor de não ter o abraço de um parente ou amigo querido. Juntos, os dois crimes deixaram 292 mortos; Brumadinho tenta cicatrizar aos poucos. A dor permanece. Em um país onde as pessoas reclamam tanto de impunidade, é nossa obrigação pedir por justiça pelos que se foram. 

Não é justo perder tudo e não ser reparado, indenizado, compensado. Em um Brasil marcado por rompimentos, queremos o que é nosso por direito. A reconstrução das nossas comunidades, dos nossos sonhos, das nossas vidas. Durante os meses da jornada dos atingidos, mostraremos que só a luta pode modificar a realidade.

Sabemos que a solidariedade do povo brasileiro sempre foi grande e, demonstrada amplamente nos momentos críticos da nossa situação. Queremos, portanto, que cada parede da casa que será construída para uma família atingida em Barra Longa, Minas Gerais, tenha um pouco do apoio do nosso povo”.

Se a Vale destrói, o povo Constrói!

O lucro não vale a vida!

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