São Paulo recebe pesquisa do MAB e Fiocruz sobre a saúde dos atingidos

A população do Jardim Pantanal, na Zona Leste paulista, sofre anualmente com enchentes em virtude do fechamento das comportas da Barragem de Penha

Dona Maria Duarte perdeu as contas de quantas vezes viu a água invadir a cozinha da casa que fica em frente ao córrego Jacuí, afluente do Rio Tietê. Foto: Victória Holzbach / MAB
Dona Maria Duarte perdeu as contas de quantas vezes viu a água invadir a cozinha da casa, que fica em frente ao córrego Jacuí, afluente do Rio Tietê. Foto: Victória Holzbach / MAB

No Jardim Pantanal, Zona Leste de São Paulo, não choveu na tarde de quarta-feira, 28 de abril. Apesar disso, os olhos dos moradores estavam atentos ao córrego Jacuí, que aumentava visivelmente durante a tarde. No outro lado da rua, dona Maria recebia as pesquisadoras da Fiocruz e do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). No início da conversa, menos de cinco minutos desde a chegada das visitantes, a moradora se volta à entrada para mostrar por onde a água costumeiramente invade a casa, e se surpreende que o corredor – há pouco totalmente seco – já acumula mais de meio metro de água que voltou pelo esgoto.

“Todo ano é a mesma coisa, enche a casa de água. Cansei de ver aquela água podre entrando e levando tudo que eu tinha em casa. Por isso, já não compro mais nada”.

Maria Duarte de Souza partilha a angústia que passam centenas de pessoas anualmente, atingidas por enchentes no Jardim Pantanal em virtude do fechamento das comportas da barragem da Penha.

O bairro recebeu, na última semana, a pesquisa desenvolvida pelo MAB e a Fiocruz, em parceria com o Ministério da Saúde, que estuda a saúde dos atingidos por barragens em vista da formação de vigilantes populares em saúde. De 26  a 30 de abril, a comunidade acolheu as pesquisadoras da Fundação Oswaldo Cruz, que junto aos militantes do MAB visitaram mais de 30 famílias no Jardim Lapena e na Vila Nova União.

O projeto “Saúde e Direitos Humanos: vigilância popular e participativa em saúde e ambiente nos territórios atingidos por barragens” chegou em São Paulo após ter passado por Canoas (RS), Cametá (PA), e Jequié (BA) para estudar os efeitos das enchentes na saúde da população, a partir de um olhar ampliado da saúde que considera o meio ambiente, trabalho, moradia, segurança alimentar e outros fatores. 

Sem condições de seguir suportando as recorrentes enchentes, Josiane Neres de Oliveira encontrou um lugar na ocupação Nova Esperança, e prefere correr o risco de ter que sair da nova casa do que ter que enfrentar novamente as águas, que só em 2025 invadiram duas vezes a residência onde morava. “A gente nunca está preparado para passar pela enchente. A gente perde tudo, não tem nenhum apoio do governo e passa por momentos em que somos ainda mais excluídos”, diz Josiane. Para ela, as enchentes são consequências de vários fatores: “Não temos locais para descarte correto do lixo e a mudança climática agrava ainda mais a situação. Mas o pior é a barragem, que eles fecham quando o rio está cheio e a água volta e alaga nosso bairro para preservar a Marginal Tietê e os bairros mais ricos”.

Nathalia Gonçalves de Souza, atingida no Jardim Lapena, também critica a omissão do poder público. Ela conta que durante as enchentes a defesa civil não chega no local: “Eles dizem que não tem como passar e dizem pra você ficar em um local seguro. Como eu vou achar um lugar seguro enquanto o mundo está acabando e a água inundando a minha casa?”, questiona a atingida. “Quem tem pra onde subir, vai; quem não tem, fica em desespero, sem saber o que fazer”, conta Nathalia.

Além de visitar as famílias em suas casas, a pesquisa também proporcionou um trabalho em grupo que mapeou os efeitos das enchentes no corpo das mulheres e homens atingidos. 

O objetivo do projeto construído entre MAB, Fiocruz e Ministério da Saúde é promover e apoiar ações de vigilância popular em saúde, preparando as populações de cada território para identificar, monitorar, comunicar e registrar quaisquer problemas de saúde na população, especialmente aqueles causados pela construção de barragens ou por eventos climáticos. O aprofundamento do conceito e a formação de vigilância popular é o segundo passo do projeto, previsto para o segundo semestre deste ano.

Responsabilização do poder público 

Pesquisadoras entrevistam atingidas no Jardim Lapena, uma das áreas mais atingidas nas cheias do córrego Jacuí. Foto: Victória Holzbach / MAB
Pesquisadoras entrevistam atingidas no Jardim Lapena, uma das áreas mais atingidas nas cheias do córrego Jacuí. Foto: Victória Holzbach / MAB

Durante os cinco dias de execução da pesquisa nas comunidades do Jardim Lapena e de União de Vila Nova, ficou evidente o descaso do poder público com os atingidos e o agravamento de situações que já são de vulnerabilidade durante as enchentes. A pesquisadora da Fiocruz Minas, Priscila Neves, afirma:

“As enchentes que acontecem anualmente, em decorrência do fechamento das comportas da barragem da Penha, só demonstram como a falta de planejamento urbano e a ausência de políticas públicas de prevenção colocam em risco populações vulnerabilizadas, em sua maioria, pessoas negras. E essa situação se agrava ainda mais com a crise climática”. 

A pesquisadora conta que o grupo encontrou no local “pessoas adoecidas e comunidades invisibilizadas e esquecidas pelo poder público. O apoio vem de dentro da própria comunidade, onde indivíduos se unem para tentar transformar a realidade”, apontou Priscila.

O Ministério da Saúde é parceiro do MAB e da Fiocruz no projeto e Rafael Bastos acompanhou a pesquisa deste território pelo ministério. Ele destacou a importância da iniciativa e da metodologia do projeto:

“Ir ao território, ouvir a população, entender in loco as dimensões que impactam a saúde há anos e as formas de organização desenvolvidas para o cuidado. Entender a articulação da população com movimentos e organizações sociais do território e os serviços de saúde. A importância do MAB no território e o empoderamento da comunidade. A necessidade de estruturar planos populares de preparação para as enchentes e contribuir para a regulamentação da Política Nacional de Direitos das Populações Atingidas por Barragens (PNAB), instituída pela Lei Federal 14.755/2023. Entre diversas outras demandas que evidenciam a importância da pesquisa e a parceria da Fiocruz, MAB e Ministério da Saúde”.

No último dia de pesquisa, o grupo realizou uma reunião, na Secretaria de Saúde de São Paulo, com a Divisão de Vigilância em Saúde Ambiental (DVISAM), o Núcleo de Vigilância de Riscos e Agravos à Saúde Relacionados ao Meio Ambiente e técnicos do Programa de Vigilância em Saúde Ambiental Relacionado a Populações Expostas à Poluição do Ar do Município de São Paulo (VIGIAR). Na ocasião, pesquisadores e atingidos apresentaram a situação enfrentada pela população em relação à falta de informação, à falta de ações de prevenção e ações pós-enchentes e, principalmente, à invisibilidade da região em vista da recorrência das enchentes, que também afeta toda a estrutura de saúde, causando danos a longo prazo para a população atingida.

A reunião contou com participação dos atingidos, Fiocruz, Ministério da Saúde e órgãos da saúde da Prefeitura de São Paulo. Foto: Comunicação MAB SP
A reunião contou com participação dos atingidos, Fiocruz, Ministério da Saúde e órgãos de saúde da Prefeitura de São Paulo. Foto: Comunicação MAB SP

Durante a reunião, a DVISAM reconheceu a falta de informação e de um conhecimento amplo da situação real que a região passa, e se comprometeu com a abertura de diálogo para que ocorra uma relação entre os atingidos e a secretaria de saúde, afim de tratar da situação das enchentes e da relação com a barragem da Penha.