MAB realiza seminário nacional sobre El Niño e crise climática

Movimento reforça que é preciso organização popular, medidas de prevenção e reparação integral das populações atingidas

MAB debate crise climática e impactos do El Niño com atingidos em seminário em São Paulo. Foto: Tamires Pinheiro / MAB
MAB debate crise climática e impactos do El Niño com atingidos em seminário em São Paulo. Foto: Tamires Pinheiro / MAB

No Vale do Jequitinhonha, no nordeste de Minas Gerais (MG), a crise climática não é uma previsão abstrata para o futuro, mas uma realidade que esquenta a pele e o solo. Joyce Silva, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no estado, carrega a marca do extremo climático que hoje é parte do dia a dia do semiárido mineiro. 

Natural de Araçuaí, cidade que em 2023 registrou o recorde nacional de temperatura com mais de 44°C, Joyce testemunha como o aquecimento global transforma territórios em zonas de sacrifício. “Minas Gerais é grande demais e eu estou aqui representando a região semiárida, que é praticamente o Norte e o Vale do Jequitinhonha. Quando a crise climática chega lá na minha região, ela chega através da seca, da chuva atrasada, da insegurança do agricultor por não saber se vai conseguir produzir seu próprio alimento”. 

O relato da militante foi narrado durante o Seminário Nacional “El Niño e a crise climática: Somos todos atingidos”, ocorrido ontem (24), em São Paulo, e organizado pelo MAB. O evento reuniu cerca de 180 militantes de várias regiões do país, além de parlamentares como a deputada federal Juliana Cardoso (PT/SP), o ex-ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira (PT) e especialistas na pauta climática. 

A experiência trazida por Joyce ilustra a agressividade de um modelo de desenvolvimento que sacrifica quem menos contribui para o problema. Ela denunciou o que classifica como racismo ambiental, onde as populações mais pobres pagam a conta da degradação causada por grandes corporações. “Quem mais gera a crise climática são as empresas, que muitas vezes nem no nosso país estão; mas quem paga a conta da crise climática é a gente, que pouco polui. Começo afirmando que isso tem nome: chama-se racismo ambiental”, afirmou. 

Além do calor extremo, Joyce alerta para a ameaça de desertificação de sua região, um processo acelerado pela irregularidade das chuvas e pela exploração mineral predatória, agora disfarçado sob a classificação de “Vale do Lítio”. 

“O Vale do Jequitinhonha sempre foi desrespeitado. Antes, a gente era conhecido como ‘Vale da Miséria’, e hoje o governador nos vende como ‘Vale do Lítio’. O MAB reafirma que nós somos o Vale do Jequitinhonha. A região está no centro do debate mundial por causa da mineração, mas isso não está sendo discutido com a gente”, critica, questionando a lógica de uma transição energética que ignora o acesso das comunidades locais aos benefícios e direitos básicos.

Como pano de fundo das vivências de Joyce está o fenômeno El Niño, que neste ano de 2026 já está confirmado e tende a gerar eventos climáticos cada vez mais radicais. Tema central das discussões científicas, o El Niño foi detalhado pelo climatologista e cientista ambiental Carlos Nobre e por Guilherme Checco, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática durante o seminário. 

De acordo com os especialistas, o El Niño inicia-se com o enfraquecimento dos ventos alísios no Pacífico Equatorial, o que interrompe o fluxo normal de águas quentes para o oeste e permite que uma onda oceânica subsuperficial, a Onda de Kelvin, transporte calor em direção à costa da América do Sul. Esse aquecimento anômalo altera drasticamente os padrões de chuva e temperatura em escala global.

Para o segundo semestre de 2026, as previsões são alarmantes. Segundo Nobre, modelos climáticos como o Brazilian Global Atmospheric Model (BAM), ou Modelo Atmosférico Global Brasileiro, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais  (INPE), e dados da National Oceanic and Atmospheric Administration (que em português é traduzida como Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) indicam uma probabilidade de 63% do fenômeno atingir a categoria “muito forte”, com temperaturas ultrapassando 2 graus acima da média, entre outubro e janeiro. 

“Temos que nos preocupar, porque o El Niño de 2016 atingiu a categoria muito forte e causou também esse tipo de extremo, secas na Amazônia e chuvas no Sul. Outubro até janeiro vem a 90% ou 88% de probabilidade de ser forte ou muito forte”, alertou o cientista.

Guilherme Checco enfatizou que, embora seja um fenômeno natural, o El Niño atual é potencializado pelo aquecimento global de origem antrópica, ou seja, causado pela ação humana. Com a temperatura da Terra já 1,3°C a 1,4°C acima dos níveis pré-industriais, os efeitos tendem a ser mais destrutivos. 

Uma nota técnica conjunta de órgãos como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e 0 Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), aponta que o Norte e o Nordeste devem enfrentar secas severas e aumento de incêndios florestais, enquanto o Sul e partes do Sudeste sofrerão com chuvas torrenciais e enchentes. “O Brasil gasta o triplo em resposta a desastres do que aplica em ações preventivas”, pontuou Fábio Takeshi Ishisaki, assessor de políticas públicas do Observatório do Clima, criticando a cultura reativa do Estado brasileiro que ignora o planejamento preventivo.

A situação dos atingidos pela crise climática nos estados

A crise climática se mostra de formas distintas. Ainda assim, a exclusão social em cada estado é um ponto comum, de acordo com os militantes do MAB. Vindo do Rio Grande do Sul (RS), Djeison Diedrich destacou que as enchentes ocorridas em 2024 no estado e que vitimaram mais de 180 pessoas, não podem ser vistas apenas como eventos naturais, mas como resultado de falhas estruturais. “O povo gaúcho não topa mais morar em área de risco, não topa mais ser resgatado de barco”, afirmou, denunciando que a reconstrução do estado tem priorizado o agronegócio e bancos em detrimento dos verdadeiros atingidos. 

Ele citou a precariedade no Vale do Taquari, localizado no interior do estado, a menos de 100 km de Porto Alegre, onde famílias vivem em contêineres improvisados e sofrem perseguição política de prefeitos que ameaçam excluir do auxílio quem se organiza no MAB. “Tem prefeito lá no Vale do Taquari que chega para o atingido e diz: ‘Olha, se você não sair do MAB, eu vou te tirar da lista’. Com as prefeituras combatendo o povo dessa forma, o Governo Federal não pode só apostar nelas, precisa apostar no povo organizado”, relata.

Roberto Oliveira, militante do MAB do estado do Rio de Janeiro, apontou que o desabamento de encostas é um problema de classe. foto: Thamires Pinheiro / MAB
Roberto Oliveira, militante do MAB do estado do Rio de Janeiro, apontou que o desabamento de encostas é um problema de classe. foto: Tamires Pinheiro / MAB

Roberto Oliveira, militante do Rio de Janeiro, apontou que o desabamento de encostas é um problema de classe. “As áreas onde as casas caem ou deslizam são áreas pobres, periféricas, para as quais os trabalhadores foram submetidos. Não é todo morro que desaba”, explicou, comparando a segurança de bairros de classe média com a vulnerabilidade das favelas. Ele denunciou que menos de 1% do orçamento estadual é investido em prevenção de enchentes e desabamentos, o que classificou como um crime. 

Além das chuvas, o estado enfrenta o calor extremo na Baixada Fluminense, onde a privatização da água e a falta de energia impedem que a população consiga alívio nesse cenário. O militante ainda convidou a todos para lutar por reparação e medidas para evitar novos desastres. “É preciso adaptar e prevenir, mas também é urgente reparar aqueles que já foram atingidos. Porque tem gente que perdeu a casa, nunca mais conseguiu outra e continua morrendo.”

Arthur Macfadem expôs a falta de dados sobre a população atingida pela crise climática em cidades paulistas. Foto: Tamires Pinheiro / MAB
Arthur Macfadem expôs a falta de dados sobre a população atingida pela crise climática em cidades paulistas. Foto: Tamires Pinheiro / MAB

Do estado de São Paulo, Arthur Macfadem expôs o “apagão de dados” proposital que invisibiliza a população em áreas de risco, como na Zona Leste e no Litoral Norte. Ele relembrou a tragédia de São Sebastião, em que o volume recorde de chuva encontrou um cenário de descaso do Estado. “A gente não está prevendo que seremos atingidos, nós já estamos atingidos, já estamos vulnerabilizados e em situações extremamente preocupantes”, alertou. 

Como panorâma da Amazônia, Laércio Cavalcante descreveu o colapso do Rio Madeira, que passou de uma seca histórica de 19 centímetros para uma inundação de 16 metros em poucos meses. “A gente teve cerca de 28 mil pessoas atingidas em 50 comunidades ali da região do Rio Madeira. Quais foram esses impactos assim vividos na pele dessas pessoas atingidas? Os poços secaram e o acesso à água ficou difícil. Quando a gente vê o Rio Madeira seco, em alguns braços dele, a gente vê aquele deserto de areia e ali naquele deserto formavam-se algumas bolsas de água. As famílias botavam aquela sua bombinha naqueles poços onde a água estava totalmente verde, insalubre e inviável de consumo”, relata.

Josivaldo Oliveira, liderança do MAB no Nordeste, conectou o aprofundamento do modelo capitalista ao agravamento das secas na região. Com 80% do território inserido no Semiárido, a região viu o número de secas severas saltar de quatro ocorrências no século 16 para 21 registros no século 20. 

“Tudo indica que o século 20 é o que tem o maior número de secas dentro do Nordeste. Significa dizer que quanto mais o capitalismo se aprofunda, mais tem consequência para a sociedade em diversas regiões do país”, concluiu.

Além da escassez hídrica, Josivaldo denunciou os crimes cometidos na gestão das águas por empresas de energia. Ele citou o caso de Jequié, na Bahia, na qual em 2022 a abertura repentina das comportas de uma barragem inundou parte do município. “Por volta de 30 mil pessoas foram afetadas violentamente. Não foi feita habitação, não foi feita reparação, não foi feito nenhum tipo de reparação do Estado brasileiro”, criticou.

O desastre continuado e a desresponsabilização corporativa

Um dos pontos debatidos no seminário foi o conceito de “desastre continuado”, apresentado por Carlos Prado, militante do MAB em Minas Gerais. Ele explicou que os crimes ambientais cometidos por grandes empresas não se encerram no momento do rompimento da barragem. Pelo contrário, a crise climática atua como um fator que reinicia e espalha a contaminação pela natureza. “As chuvas revolvem o rejeito de mineração que foi depositado no Rio Paraopeba e no Rio Doce. Ou seja, uma nova contaminação acontece todo ano no período de chuva e, sobretudo com as enchentes, esse rejeito todo vai para as margens dos rios, causando novos danos”, detalhou Prado. 

Essa realidade torna-se ainda mais grave diante da estratégia jurídica das empresas. Prado denunciou que as corporações têm utilizado os eventos climáticos extremos como uma “cláusula de exclusão” de responsabilidade. Ao alegarem que as estruturas não suportaram o volume de chuva devido à crise climática, elas tentam transferir a culpa da falha das estruturas e da negligência para a natureza. 

“Empresas de mineração vão colocar que o rompimento de barragens não é responsabilidade delas, porque a estrutura não foi projetada para suportar essa quantidade de chuva. Então, colocam na cabeça das famílias atingidas que a culpa é da crise climática, e não da empresa que construiu a barragem. Já é uma nova perversidade do capitalismo”, afirmou o militante. Minas Gerais, com suas 31 barragens em risco iminente, foi descrita por ele como uma “bomba-relógio”, onde 1,5 milhão de pessoas vivem sob a ameaça constante de novas catástrofes.

A ameaça da exploração das terras raras e caminhos para o enfrentamento

Sônia Guajajara lembrou das ameaças da exploração das terras raras. Foto: Tamires Pinheiro / MAB
Sônia Guajajara lembrou das ameaças da exploração das terras raras. Foto: Tamires Pinheiro / MAB

A ex-ministra dos Povos Indígenas e atual deputada federal (PSOL-SP), Sônia Guajajara, reforçou que a crise climática não separa o rural do urbano, pois atinge prioritariamente as populações marginalizadas. “Somos sempre os primeiros e os mais impactados pela crise climática, embora não sejamos nós os causadores dela”, afirmou, conectando a luta contra grandes hidrelétricas, como a de Belo Monte (PA), ao atual enfrentamento contra o projeto de lei das terras raras no Congresso Nacional.

Guajajara denunciou a pressa legislativa na exploração desses minerais sob o pretexto da transição energética, alertando que isso pode repetir crimes como os de Mariana e Brumadinho em territórios indígenas. “A exploração das terras raras traz as mesmas preocupações e riscos de desastres que já enfrentamos com a mineração tradicional”, destacou. Ela também expôs a grave crise de saneamento, revelando que apenas 20% dos territórios indígenas têm acesso a água potável, muitas vezes devido à contaminação por mercúrio.

Liciane Andrioli apresentou eixos fundamentais para o enfrentamento às mudanças climáticas. Foto: Tamires Pinheiro / MAB
Liciane Andrioli apresentou eixos fundamentais para o enfrentamento às mudanças climáticas. Foto: Tamires Pinheiro / MAB

Como formas de enfrentamento, o seminário consolidou propostas que passam pela organização popular e pela inversão da lógica estatal. Liciane Andrioli, da coordenação nacional do MAB, apresentou cinco eixos fundamentais: planos de prevenção com participação popular; informação e treinamento para as comunidades em risco; recursos financeiros para organização e proteção; planos de ação emergencial com estoques preventivos; e incidência política institucional. 

Liciane ainda chamou atenção para o fato de que o Serviço Geológico do Brasil identificou mais de 17,7 mil áreas de risco no país, sendo 5,5 mil de risco muito alto e 12,1 mil de risco alto. A maior parte dos riscos geológicos está associada a processos de deslizamentos, com 8,8 mil áreas mapeadas. Em seguida, estão os processos de inundação, com 5,7 mil registros. Ao todo, são cerca de 4,6 milhões de brasileiros vivendo na incerteza de um desastre.

Diante disso, o movimento defende que a reparação deve ser integral e que o Estado deve adotar a gestão do risco de forma antecipada. Como concluiu Sônia Guajajara, a união é o único caminho contra o negacionismo e o retrocesso. “Precisamos estar organizados para combater o negacionismo, as guerras e o ódio desse setor que cresce no Brasil e no mundo”.

Propostas para uma nova governança climática

Diante do cenário de urgência, Fabio Takeshi e Guilherme Checco apontaram caminhos para a reformulação das políticas públicas brasileiras. A crítica central se dá sobre a maneira reativa do orçamento público, que prioriza a remediação em detrimento da prevenção. Takeshi defende que a inversão dessa lógica é “proteção da vida”. Ele sugere que a responsabilização pelos eventos extremos deve alcançar também os bancos que financiam grandes empreendimentos. “Nós temos que também colocar na cadeia de responsabilização dos eventos climáticos extremos aqueles que financiam projetos, financiam atividades que fazem tudo isso acontecer”, argumentou.

O MAB, por sua vez, consolidou no seminário a necessidade de uma Política Nacional de Direitos dos Atingidos pela Crise Climática. Isso inclui a criação de sistemas de alerta eficazes, e a garantia de que as comunidades participem diretamente do mapeamento de riscos e da gestão de abrigos. 

A proposta é que a transição energética e a adaptação climática não sejam apenas negócios de banqueiros, mas processos de soberania popular. Como sintetizou Djeison Diedrich sobre a luta no Rio Grande do Sul, o objetivo é garantir que o processo de reconstrução não deixe as famílias atingidas apenas com as “migalhas” do orçamento público, enquanto grandes empresas se apropriam dos recursos destinados à calamidade.