ENTREVISTA | Paulo Artaxo: “O Brasil não está preparado para o próximo El Niño”
Em entrevista ao MAB, o cientista Paulo Artaxo alerta para um novo ciclo de desastres climáticos, defende o papel dos movimentos sociais e afirma que o Brasil já tem conhecimento e recursos para proteger a população, mas falta ação
Publicado 22/06/2026 - Actualizado 22/06/2026

O Brasil pode enfrentar, ainda este ano, um novo e intenso episódio de El Niño. Embora a intensidade do fenômeno só deva ser confirmada nos próximos meses, os sinais já são suficientes para acender o alerta entre pesquisadores, movimentos populares e comunidades que ainda convivem com os impactos dos desastres climáticos recentes.
A preocupação não é abstrata. Em 2024, um forte El Niño esteve associado a uma combinação de eventos extremos que atingiram diferentes regiões do país: enchentes históricas no Rio Grande do Sul, seca severa na Amazônia, isolamento de comunidades ribeirinhas, avanço das queimadas, estiagens prolongadas no Nordeste e ondas de calor recordes no Sudeste.
Mais de um ano depois, milhares de famílias continuam esperando reassentamentos, reconstrução de moradias, recuperação de infraestrutura e políticas permanentes de proteção. Em muitos territórios atingidos, a reconstrução sequer foi concluída.
É nesse contexto que o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) promoveu uma conversa com o físico e climatologista Paulo Artaxo, um dos principais pesquisadores brasileiros sobre mudanças climáticas e integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Ao longo do diálogo com militantes de diferentes regiões do país, Artaxo discutiu os riscos associados ao próximo El Niño, os desafios da adaptação climática, o papel do Estado, a importância dos movimentos sociais, a transição energética, a defesa dos territórios tradicionais e os limites do atual modelo econômico.
Em diversos momentos, o pesquisador insistiu em uma ideia central: o Brasil já possui conhecimento científico, tecnologia e recursos para reduzir riscos e proteger sua população. O problema não é a falta de diagnósticos, tampouco de recursos: “Não há grandes dúvidas sobre o que precisa ser feito. O que falta é implementação, vontade política”, afirmou.

Como o senhor vê a participação da sociedade civil organizada e dos movimentos populares na construção das soluções para a crise climática?
Paulo Artaxo: Sem envolver todos os agentes que estão causando ou sofrendo os impactos das mudanças climáticas, nós não vamos encontrar saída para essa questão. Isso envolve os municípios, o judiciário, os atingidos pelas barragens, os movimentos sociais, as organizações científicas e toda a sociedade.
Os movimentos sociais tiveram uma força extraordinária nos debates internacionais recentes. Pela primeira vez, passaram a ter capacidade real de influenciar as negociações climáticas. O Brasil possui excelentes planos de adaptação climática. O Plano Adapta Brasil é um exemplo importante. Mas esses planos continuam, em grande medida, no papel. E para que eles saiam do papel, a sociedade civil é essencial; não é acessória.

O que os dados indicam sobre a formação do próximo El Niño? E quais podem ser os impactos para o Brasil?
Paulo Artaxo: Ainda não sabemos exatamente qual será a intensidade do fenômeno. Isso deve ficar mais claro no início de agosto. Ele pode ser um El Niño extremamente forte, pode ser um El Niño de intensidade média, mas uma coisa nós já sabemos: não será um El Niño fraco.
A experiência de 2024 está muito viva na memória de todos nós. Nós tivemos enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul, eventos extremos na Serra do Mar, secas severas na Amazônia, aumento das queimadas, estiagens no Nordeste e ondas de calor muito intensas no Sudeste.
Independentemente da intensidade final do fenômeno, esse padrão tende a voltar. E nós continuamos despreparados. O governo federal está tentando se organizar para evitar situações absurdas como as que vimos em 2024, quando hospitais precisaram ser evacuados porque estavam inundados e pacientes de UTI foram transportados de barco. Mas a infraestrutura brasileira continua extremamente vulnerável aos eventos climáticos extremos.
O que deveria estar sendo feito agora?
Paulo Artaxo: Precisamos de planos de contingência imediatamente. É melhor fazer esses planos agora, não quando o problema já estiver instalado. Cada região possui suas vulnerabilidades. Na Amazônia, por exemplo, precisamos garantir estoques de água, alimentos e medicamentos para comunidades que podem ficar isoladas. No Sul do país, é necessário preparar respostas para enchentes.
E é importante entender uma coisa: a adaptação acontece município por município. Ninguém adapta um país continental como o Brasil de uma vez só. Por isso, é tão importante pressionar prefeitos, câmaras municipais e governos estaduais. São as populações locais que conhecem suas vulnerabilidades.

Muitas comunidades ainda estão reconstruindo suas vidas após os eventos extremos dos últimos anos. Falta dinheiro para enfrentar essa situação?
Paulo Artaxo: Não. Essa é uma questão fundamental. Não falta dinheiro. Existem bilhões de reais disponíveis para adaptação climática em fundos públicos, no BNDES e na FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos). O problema é a implementação. Hoje nós sabemos onde estão os riscos. Sabemos quais municípios são mais vulneráveis. Temos os recursos. O que falta é transformar isso em ação concreta.
Existem experiências internacionais que poderiam servir de exemplo para o Brasil?
Paulo Artaxo: Algumas experiências são interessantes, mas não podem ser copiadas mecanicamente. A realidade brasileira é diferente da realidade da Holanda, da China ou de qualquer outro país. Nós precisamos construir nossas próprias estratégias.
O Adapta Brasil já mapeou as vulnerabilidades dos 5.547 municípios brasileiros. Hoje já sabemos onde estão os riscos. A questão agora é agir. E isso depende muito da pressão popular.
Porque as mudanças climáticas atingem principalmente as populações mais pobres. Você não vê mansões sendo arrastadas por deslizamentos na Serra do Mar; você não vê os bairros mais ricos sendo os mais atingidos pelas enchentes. Esses impactos recaem principalmente sobre a população trabalhadora. Por isso, é necessário pressionar os poderes públicos para que as estratégias de adaptação sejam construídas com base nos interesses da população e não nos interesses econômicos de determinados setores.
O próximo El Niño acontecerá em meio a um período eleitoral. Qual é o principal desafio de discutir mudanças climáticas nesse contexto?
Paulo Artaxo: O maior desafio é convencer os principais atores políticos – Executivo, Legislativo e Judiciário – a efetivamente trabalhar em defesa das necessidades da população. E isso eles só vão fazer através de pressão popular. O desafio dos movimentos sociais será pressionar os candidatos, seja para deputado, governador ou presidente, sobre quais ações concretas eles estão propondo para enfrentar as mudanças climáticas.
Alguns candidatos estão elaborando planos de contingência. Eu sei disso porque tenho participado de algumas dessas discussões. Mas isso precisa se tornar uma pauta muito mais ampla. As mudanças climáticas não são um problema futuro. Elas já estão impactando a vida da população brasileira e vão continuar impactando cada vez mais. Por isso, a agenda ambiental e a agenda climática precisam ocupar um espaço muito mais central no debate político.
O que mais preocupa o senhor quando fala em preparação para eventos extremos?
Paulo Artaxo: Que o poder público esteja preparado para dar o suporte necessário à população no momento certo. Esse é o ponto central. O que vimos no Rio Grande do Sul foi uma situação muito preocupante. Foram voluntários, muitas vezes sem treinamento e sem equipamentos adequados, utilizando barcos improvisados para retirar pessoas de áreas alagadas, resgatar moradores em telhados e prestar socorro. Isso não deveria ser a regra.
Nós deveríamos ter Defesas Civis preparadas, equipadas, treinadas e com capacidade operacional para responder rapidamente. Eu considero intolerável que a nona maior economia do planeta continue respondendo a desastres dessa forma. Nós não estamos falando de falta de conhecimento; nós sabemos o que precisa ser feito. O problema é transformar isso em prioridade política.
Nas cidades costeiras e na Serra do Mar existe uma preocupação crescente com deslizamentos e também com o avanço do mar. Mas esse tema ainda parece pouco debatido no Brasil. Como o senhor avalia essa situação?
Paulo Artaxo: Eu concordo com essa avaliação. O Brasil ainda não acordou para o risco representado pelo aumento do nível do mar. Nós temos cerca de 8.500 quilômetros de litoral vulnerável. E muitas das nossas cidades costeiras já estão sofrendo impactos.
Há alguns anos eu percorri a região costeira de Recife e observei áreas onde a erosão já estava destruindo estruturas que antes eram plenamente utilizadas. Estradas estão sendo afetadas; áreas urbanas estão sofrendo processos erosivos. Isso já está acontecendo. Não é uma projeção daqui a cinquenta anos. É um processo em curso. E, infelizmente, o país ainda não trata esse tema com a seriedade necessária.
Muitas comunidades do Rio Grande do Sul ainda vivem os impactos das enchentes de 2024. O que essa experiência revela sobre a capacidade do Estado brasileiro de lidar com a crise climática?
Paulo Artaxo: O caso do Rio Grande do Sul evidencia um problema que existe em todo o país. Nós continuamos reagindo depois que o desastre acontece. Quando deveríamos estar atuando antes. As áreas de risco já eram conhecidas, os cenários climáticos já existiam. Os alertas já estavam disponíveis. Mesmo assim, as respostas continuam chegando depois. Esse é o problema.

O senhor acredita que o país ainda trata os eventos extremos como exceções?
Paulo Artaxo: Sim. E esse é um erro grave. Esses eventos deixaram de ser exceções. Eles estão se tornando parte da nova realidade climática.
Nós vamos continuar enfrentando secas, enchentes, ondas de calor, queimadas e outros eventos extremos. A questão não é se eles vão acontecer. A questão é quando vão acontecer. Por isso, precisamos construir sistemas permanentes de prevenção e adaptação. Não podemos continuar tratando cada desastre como se fosse uma surpresa.
O Brasil é uma das maiores economias do planeta. Nós temos capacidade técnica, temos universidades, temos centros de pesquisa. Temos instituições públicas, temos recursos financeiros. Por isso, considero intolerável que continuemos respondendo a muitos desastres da forma como respondemos.
Não é aceitável que comunidades inteiras dependam apenas de iniciativas voluntárias quando ocorrem eventos extremos. Não é aceitável que sistemas de proteção permaneçam inacabados depois de tragédias dessa magnitude. Nós precisamos construir uma capacidade permanente de proteção da população. Esse é um dos grandes desafios dos próximos anos.
O Brasil é uma das economias mais dependentes de setores vulneráveis às mudanças climáticas, especialmente o agronegócio. Ao mesmo tempo, parte desses setores atua para desmontar mecanismos de proteção ambiental e climática. Como o senhor interpreta essa contradição?
Paulo Artaxo: Eu não vejo isso exatamente como uma contradição. O que existe são interesses econômicos diferentes disputando o futuro desse setor. Eu costumo dizer que existem dois agronegócios.
Existe uma parcela que está preocupada com a sustentabilidade e com a sobrevivência do próprio negócio. São pessoas que estão pensando no que vai acontecer daqui a cinco, dez ou quinze anos. Esse setor faz perguntas importantes: Vai existir água suficiente para irrigação? O clima continuará permitindo os atuais padrões de produção? Como alimentar mais de duzentos milhões de brasileiros em um ambiente cada vez mais hostil? Como manter a competitividade econômica do país? Essas são preocupações legítimas.
Mas existe outro setor. É aquele que pensa exclusivamente no curtíssimo prazo, que quer ganhar o máximo possível hoje. Mesmo sabendo que daqui a alguns anos seu próprio negócio pode estar ameaçado. Essa disputa existe dentro do próprio agronegócio.
O senhor dialoga com esses setores?
Paulo Artaxo: Sim, e faço questão de dialogar. Eu dou palestras para grandes empresas do setor. Porque essas pessoas também precisam enxergar a realidade. Em algum momento elas vão perceber que o próprio negócio está em risco.
A crise climática não é um problema apenas para movimentos sociais ou para ambientalistas. Ela é um problema econômico. E cada vez mais os próprios agentes econômicos estão começando a perceber isso. O próprio capitalismo está diante de um limite

O MAB tem debatido a relação entre crise climática e modelo de produção. Na sua avaliação, é possível enfrentar a emergência climática sem transformar profundamente a forma como a economia funciona hoje?
Paulo Artaxo: Eu tenho uma posição bastante clara sobre isso. O modelo econômico que nós temos hoje não é sustentável, nem sequer no curto prazo. Ele vai mudar. Eu não tenho a menor dúvida disso. A grande questão não é se ele vai mudar. A questão é para onde ele vai mudar. Como será feita essa transição. Esse é o debate central do nosso tempo. O modelo econômico que nós temos hoje não é sustentável nem sequer no curto prazo.
Nós já temos uma espécie de roteiro. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) apontam caminhos importantes: acabar com a fome; garantir acesso à água; reduzir desigualdades; combater as mudanças climáticas. Tudo isso já está formulado. Mas existe um detalhe fundamental: sem estabilidade climática, muitos dos outros objetivos se tornam impossíveis. Sem clima, estável não haverá segurança alimentar; sem clima estável, não haverá segurança hídrica; sem clima estável, não haverá desenvolvimento sustentável. Por isso, a questão climática se tornou central. Ela atravessa todas as demais.
Existe um problema nessa transição: ela não será igual para todos. Talvez dois ou três bilhões de pessoas no mundo não consigam fazer essa transição para uma economia mais sustentável. Estamos falando principalmente de populações da África, da América Latina e de partes da Ásia. Esse processo já começou. Não é uma previsão distante. Ele já está acontecendo. E isso torna ainda mais importante a luta por justiça social. Porque a transição climática também será uma disputa sobre quem terá acesso aos seus benefícios.
Ninguém tem uma solução pronta. Ninguém tem uma fórmula mágica para essa transição. Nós vamos precisar construir isso coletivamente, e os movimentos sociais têm um papel central nesse processo. O desafio não é apenas correr atrás dos prejuízos provocados pelos desastres, é participar da construção de uma sociedade melhor, mais justa, mais resiliente, mais preparada para enfrentar as mudanças climáticas. Porque elas continuarão impactando a humanidade por séculos, e nós precisamos começar essa construção agora.
Colaboraram para esta entrevista Elisa Estronioli, Missay Nobre, Beatriz Moreira, Arthur Macfadem , Alexania Rossato e Francisco Kelvim do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).