Atingidos por enchentes e deslizamentos em São Paulo cobram proteção perante o El Niño
Entre as comportas fechadas na periferia da capital e o abandono nas encostas do Litoral Norte, moradores da Zona Leste e de São Sebastião denunciam a ausência de políticas públicas e a insegurança frente à crise climática
Publicado 23/06/2026

A crise climática no estado de São Paulo tem CEP e cor, escancarando que os impactos dos eventos extremos não são meramente naturais, mas sim o resultado de escolhas políticas, falta de planejamento urbano e omissão histórica do Estado diante dos eventos climáticos. Tanto na periferia da capital paulista quanto nas encostas do Litoral Norte, as populações sofrem as consequências diretas da crise climática, que intensifica as chuvas e as secas e reforça a insegurança dos atingidos.
Na Zona Leste da capital paulista as enchentes são uma realidade recorrente. No local, bastam poucos minutos de chuva para que a água invada as casas, destruindo móveis, eletrodomésticos, alimentos e roupas, obrigando as famílias a recomeçarem do zero. Sob a influência de fenômenos como o El Niño — que altera a circulação dos ventos e o transporte de umidade em escala global, provocando chuvas torrenciais mais frequentes e intensas na região —, o desespero e a insegurança tomam conta da população a cada sinal de tempestade.
Maria Duarte de Souza partilha a angústia que passam centenas de pessoas moradoras do Jardim Pantanal quando as chuvas chegam: “Todo ano é a mesma coisa, enche a casa de água. Cansei de ver aquela água podre entrando e levando tudo que eu tinha em casa. Por isso, já não compro mais nada”.

No local, os atingidos denunciam que as inundações são causadas pelo fechamento das comportas da barragem da Penha, localizada no Rio Tietê. A operação da barragem fecha as comportas para evitar alagamentos na Marginal e proteger as regiões centrais e mais ricas da cidade, inundando propositalmente os bairros periféricos, como denuncia Josiane Neres de Oliveira:
“A gente nunca está preparado para passar pela enchente. A gente perde tudo, não tem nenhum apoio do governo e passa por momentos em que somos ainda mais excluídos”. Para ela, as enchentes são consequências de vários fatores: “Não temos locais para descarte correto do lixo e a mudança climática agrava ainda mais a situação. Mas o pior é a barragem, que eles fecham quando o rio está cheio e a água volta e alaga nosso bairro para preservar a Marginal Tietê e os bairros mais ricos”.
São Sebastião: a marca da lama, o abandono e as desigualdades frente à crise climática

A tragédia que chocou o país em 19 de fevereiro de 2023, no Litoral Norte paulista, evidenciou os limites da vulnerabilidade climática diante dos eventos extremos. Naquela data, São Sebastião registrou o maior volume de chuva em 24 horas da história do Brasil (626 mm), resultando em deslizamentos de terra e enchentes devastadoras que mataram mais de 60 pessoas e destruíram bairros inteiros na Costa Sul — como a Vila Sahy, Juquehy e Boiçucanga.
Passados três anos do desastre, a realidade pouco mudou. Políticas estruturais continuam insuficientes e centenas de famílias seguem vivendo em áreas de alto risco, sob permanente tensão. Entre janeiro e fevereiro de 2026, novas chuvas intensas voltaram a castigar Boiçucanga e Juquehy, provocando novas enchentes e desalojando dezenas de famílias que, novamente, perderam seus pertences para a lama, sem que houvesse alertas adequados por parte da Defesa Civil.

Moradora de Boiçucanga há décadas, Josefa Maria da Silva, de 64 anos, vive hoje apenas com a neta em um terreno onde já enfrentou sucessivas enchentes. O desastre de 2023 e as novas chuvas recentes marcaram sua vida de forma permanente. “A enchente daquele dia foi terrível. Foi uma tromba d’água que veio de repente. A gente ficou louco aqui na estrada, tentando se salvar, e a água entrando nas casas”, conta.
Ela lembra que perdeu praticamente tudo. “Na minha casa entrou muita água, muita lama. Eu perdi cama, guarda-roupa, sapateira e roupas também. No desespero, a gente tenta salvar, mas uma coisa cai, outra se perde. No outro dia era só lama no quintal.”
A tragédia em São Sebastião escancara o racismo ambiental e as profundas desigualdades sociais e de gênero, que se tornam ainda mais nítidas nos eventos extremos da crise climática, que também atinge desproporcionalmente as mulheres.
Para as famílias que resistem no Litoral Norte, a verdadeira reparação só acontecerá quando houver justiça e voz ativa nas decisões. Mobilizados pelo MAB, os atingidos continuam em luta por habitação digna e definitiva, acompanhamento psicossocial contínuo e planos de prevenção que deem conta da urgência climática. Esse cenário de violações foi mapeado em um estudo recente do movimento, que expõe as marcas deixadas nos atingidos, como o isolamento nos novos reassentamentos, a perda de vínculos comunitários e a diminuição da renda e da saúde mental dos moradores.
Seminário em São Paulo discutirá impactos do El Niño e da crise climática

Nesta quarta-feira (24) acontece o “Seminário Nacional El Niño e crise climática: Somos todos atingidos”, no auditório do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP): Praça da República, 282 – Centro Histórico de São Paulo. Organizado pelo MAB, o seminário reunirá populações atingidas de diferentes partes do estado e de outras regiões do país, além de cientistas, movimentos sociais e sindicais.
A iniciativa tem como objetivo central definir a atuação perante o El Niño, tendo como base os dados científicos e meteorológicos das previsões e a experiência dos movimentos, buscando a garantia da proteção e preparação para eventos climáticos extremos como esse que se aproxima.
O seminário contará com a participação do Governo Federal, a partir da Secretaria-Geral da Presidência da República (SGPR) e do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), para apresentação das medidas em construção.