Prisão ilegal e denúncias de tortura contra Thiago e Saif ampliam pressão internacional sobre Israel

Ativistas da Flotilha Global Sumud seguem detidos após serem sequestrados em águas internacionais; integrante do MAB denuncia cumplicidade internacional diante da ofensiva israelense

Thiago Ávila e Saif Abu Keshek. Foto: Global Sumud Flotilla
Thiago Ávila e Saif Abu Keshek. Foto: Global Sumud Flotilla

Os ativistas Thiago Ávila e Saif Abu Keshek seguem presos ilegalmente por Israel após serem sequestrados em águas internacionais do Mar Mediterrâneo durante a interceptação militar contra a Flotilha Global Sumud, missão internacional que buscava romper o bloqueio imposto à Faixa de Gaza e levar ajuda humanitária ao povo palestino.

A captura ocorreu no último dia 30 de abril, quando embarcações da flotilha foram cercadas e interceptadas por forças militares israelenses entre a Grécia e a Itália, em águas internacionais. Desde então, denúncias de tortura física e psicológica, isolamento, agressões e violações de direitos humanos contra os ativistas vêm sendo denunciadas por integrantes da missão, familiares, organizações de direitos humanos e governos.

Thiago Ávila permanece preso sem que haja qualquer acusação formal apresentada contra ele pelo Estado de Israel. Mesmo assim, uma corte israelense prorrogou sua detenção, junto à de Saif Abu Keshek, até o dia 10 de maio. Os dois seguem em greve de fome em protesto contra a prisão e as violações sofridas dentro do sistema prisional israelense.

A situação ganhou contornos ainda mais dolorosos nesta semana com a morte de Teresa Regina de Ávila e Silva, mãe de Thiago Ávila, aos 63 anos, no Distrito Federal. A notícia provocou forte comoção entre movimentos sociais, familiares e apoiadores da Flotilha Global Sumud. Preso ilegalmente em Israel e mantido sob custódia sem acusação formal apresentada pelas autoridades israelenses, Thiago sequer pôde acompanhar os últimos momentos da mãe ou retornar ao Brasil para participar do velório.

Nas redes sociais, a irmã do ativista, Luana de Ávila, fez um apelo público pela libertação imediata do irmão. “Libertem o Thiago para que possa velar nossa mãe. Eu não consigo sem ele”, escreveu. 

A integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Beatriz Moreira, que integra a flotilha e segue na Grécia preparando uma nova tentativa de navegação rumo a Gaza, denunciou a gravidade das violações cometidas pelo Estado de Israel.

“O que Thiago e Saif sofrem hoje, assim como o que nós sofremos na noite dos ataques, não se compara nem a um terço do que vive todo o povo palestino. São mais de nove mil pessoas palestinas vivendo sob custódia do Estado de ocupação de Israel, submetidas a toda sorte de tortura e violação”, afirmou.

Beatriz também denunciou que os dois ativistas vêm sendo submetidos a torturas físicas e psicológicas dentro das prisões israelenses. “Recebemos novas atualizações sobre Saif e Thiago, atualizações muito preocupantes. Os dois permanecem sob custódia do Estado de Israel. Eles estão sendo submetidos a todo tipo de tortura, seja ela física, psicológica e emocional”, disse.

Segundo ela, uma das situações mais graves denunciadas ocorreu durante os interrogatórios contra Thiago Ávila. “Mostraram fotos da Lara e da Helena para tentar dissuadi-lo, quebrar o espírito do Thiago utilizando imagens da sua esposa e da sua filha”. 

A militante do MAB reforçou que a interceptação das embarcações aconteceu em águas internacionais e classificou a ação como mais uma demonstração do desrespeito de Israel ao direito internacional. Ela também criticou o silêncio de países europeus diante da captura dos ativistas.

“O silêncio dos Estados europeus neste momento demonstra não só a cumplicidade deles em relação a Israel, mas a pouca consideração com seus próprios nacionais. Porque as pessoas sequestradas eram companheiros e companheiras de diversos países, inclusive da União Europeia”, disse.

Mesmo após os ataques e detenções, a flotilha seguirá na tentativa de chegar a Gaza. Segundo Beatriz, novas embarcações já se organizam para retomar a navegação no Mediterrâneo. “Muito em breve, nós vamos voltar às águas internacionais. Vamos voltar a navegar pelo Mediterrâneo, e o nosso objetivo ainda é chegar a Gaza”, afirmou. O indicativo é que a Flotilha Global Sumud volte a navegar a partir da Turquia nesta sexta-feira (08). Ela também reafirmou o posicionamento político do MAB e da articulação internacional dos atingidos diante do genocídio palestino.

“Para o Movimento dos Atingidos por Barragens e o Movimento Internacional dos Atingidos por Barragens não existe outra alternativa senão a solidariedade internacionalista. Nós manifestamos o nosso apoio incondicional ao povo palestino e seguimos lutando junto nas mesmas trincheiras pela libertação da Palestina”, declarou.

Governo brasileiro cobra libertação

A prisão dos ativistas provocou reação do governo brasileiro e ampliou a pressão diplomática internacional contra Israel. Em nota conjunta divulgada pelos governos do Brasil e da Espanha, os dois países condenaram “nos termos mais enérgicos” o sequestro de cidadãos em águas internacionais e exigiram a libertação imediata dos ativistas.

O Itamaraty afirmou que a interceptação da flotilha representa violação do direito internacional e acompanha o caso junto às autoridades israelenses. O governo brasileiro também confirmou que presta assistência consular a Thiago Ávila.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também se posicionou publicamente pela libertação dos ativistas. Em publicação nas redes sociais, Lula afirmou que a prisão de Thiago Ávila e Abu Keshek “é uma ação injustificável do governo israelense”, e classificou a interceptação da flotilha em águas internacionais como “grave afronta ao direito internacional”.

Brasil e Espanha sustentam que Israel não possui jurisdição sobre águas internacionais e denunciam que a captura dos ativistas ocorreu fora de qualquer legalidade reconhecida pelo direito internacional.

Enquanto cresce a mobilização internacional pela libertação dos ativistas, Thiago Ávila e Abu Keshek seguem presos em Israel, em greve de fome e denunciando torturas, sem qualquer acusação formal apresentada pelas autoridades israelenses, enquanto a ofensiva militar e o bloqueio contra Gaza continuam aprofundando a crise humanitária no território palestino.