Forças israelenses atacam flotilha humanitária em águas internacionais e deixam mais de 180 civis desaparecidos
Operação destruiu embarcações civis, sequestrou participantes e expôs militantes a risco de morte. Ação é denunciada como pirataria e escalada do cerco contra Gaza
Publicado 30/04/2026

Na madrugada desta quinta-feira (30), forças navais de Israel realizaram um ataque armado contra a flotilha humanitária internacional Global Sumud, que se dirigia à Faixa de Gaza com ajuda civil. A operação ocorreu em águas internacionais do Mar Mediterrâneo, entre a Itália e a Grécia, há centenas de milhas do território palestino, e resultou no desaparecimento de mais de 180 pessoas e na destruição sistemática de embarcações.
De acordo com o comunicado oficial da flotilha, a ação envolveu a abordagem forçada de barcos civis; sabotagem de motores e sistemas de navegação; bloqueio de comunicações, inclusive canais de emergência; e o abandono deliberado das embarcações à deriva, em rota de uma tempestade iminente.
Ao todo, 22 embarcações foram atingidas. Em muitos casos, os navios foram deixados sem propulsão, sem comunicação e sem capacidade de sinalização de socorro, uma situação que, segundo os organizadores, configura uma operação planejada de exposição à morte. Entre os sequestrados estão três brasileiros: Amanda Coelho Marzall, Leandro Lanfredi de Andrade e Thiago de Ávila e Silva Oliveira, capturados em alto-mar, nas proximidades da ilha de Creta .
A operação, segundo juristas e organizações envolvidas, viola diretamente a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM). A abordagem de embarcações civis em águas internacionais, sem autorização do Estado de bandeira e sem mandato internacional, é considerada ilegal e enquadrada como pirataria.
“As embarcações ostentavam bandeiras europeias. Israel não tinha jurisdição, autoridade ou base legal para qualquer aspecto desta operação. “O que ocorreu não foi uma operação defensiva. Não havia qualquer ameaça. Eram civis desarmados em missão humanitária”, afirma o comunicado.
Relato direto do mar: “sequestraram nossos companheiros e atacaram a coordenação da missão”
A militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Beatriz Moreira de Oliveira, que está a bordo do barco Amazona, uma das embarcações que conseguiu escapar da interceptação inicial, relatou a intensidade do ataque e o clima de perseguição no mar.
“Ontem à noite, entre 22h e 6h da manhã, nós percebemos a intensificação da atividade de drones e a presença de embarcações israelenses sem identificação. Foram essas forças que sequestraram nossos companheiros”, afirma. Segundo Bia, a operação teve como alvo específico desarticular politicamente a flotilha. “Ficou evidente que havia uma intencionalidade de minar a coordenação do processo. O objetivo central deles foi atingir os coordenadores e desmobilizar a flotilha”, disse.
Ela reforça que a missão é civil, pacífica e não representa qualquer ameaça militar. “Nós estamos em uma flotilha não violenta, formada por movimentos de base. Estamos desarmados. No nosso barco somos sete tripulantes, seis mulheres, e levamos apenas alimentos, medicamentos e materiais humanitários. Não há nada que represente ameaça”.
Mesmo diante do ataque, a militante afirma que a missão segue. “Eles tentam impedir que a gente sequer chegue às zonas mais próximas de Gaza, porque representamos uma denúncia. Mas seguimos firmes. Essa missão é um compromisso com a solidariedade internacional”.
Para os organizadores da flotilha, o ataque revela uma ampliação da lógica de guerra aplicada por Israel contra Gaza, agora projetada para além de suas fronteiras. Isso porque a operação não ocorreu nas proximidades do território palestino, mas em um corredor marítimo europeu, o que levanta questionamentos sobre soberania e impunidade. “A capacidade de realizar um ataque militar dentro da zona marítima de outra potência, contra civis, e não sofrer consequências, é a expressão concreta do imperialismo”, aponta o comunicado da Global Sumud.
Até o momento, nenhum governo europeu anunciou medidas concretas em resposta ao ataque. Países cujas bandeiras estavam nas embarcações não exigiram publicamente a devolução dos barcos nem a localização dos civis sequestrados. Para os organizadores, esse silêncio é parte do problema.
“Não é só sobre a flotilha”: MAB denuncia continuidade da violência contra o povo palestino
Para a integrante da coordenação nacional do MAB, Sôniamara Maranho, o ataque deve ser entendido como parte de um processo mais amplo de violência sistemática contra o povo palestino.
“O que estamos vivendo com a flotilha, uma missão não violenta e pacífica, não representa nem 1% das violações que o povo palestino sofre diariamente sob o jugo colonial de Israel”, afirma. Ela destaca que a ação militar busca impedir não apenas a chegada de ajuda, mas também a visibilidade internacional da crise. “Esse ataque tem um objetivo direto de obstruir e desmobilizar a flotilha, impedir que a solidariedade internacional chegue e denuncie o que está acontecendo em Gaza”, completou.
Sôniamara também faz um apelo às autoridades brasileiras e à comunidade internacional. “Nesse momento, apelamos ao Estado brasileiro, ao Ministério das Relações Exteriores e a todos os governos para que garantam a passagem segura da flotilha em águas internacionais e a proteção dos seus participantes”.
Para ela, a continuidade da missão é uma resposta política necessária. “Diante do genocídio e da destruição em curso, não existe outra alternativa que não seja a solidariedade internacional. É por isso que seguimos. Porque essa luta não é sobre a flotilha, é sobre a vida do povo palestino”.
Apelo urgente por busca e resgate
Diante da gravidade da situação, a flotilha fez um chamado emergencial para operações de busca e resgate no Mediterrâneo, especialmente às guardas costeiras da Grécia, Itália, Malta e Chipre. Também foi feito um apelo a embarcações comerciais e privadas que estejam na região, para que desviem suas rotas e prestem assistência às embarcações danificadas.
Para o MAB e demais organizações envolvidas, o ataque à flotilha não é um episódio isolado, mas parte de um processo mais amplo de intensificação da violência contra o povo palestino e de erosão das normas internacionais.
A lógica denunciada pelos organizadores é clara: destruir as condições de sobrevivência e impedir qualquer forma de socorro. “O que está em jogo não é apenas o destino da flotilha, mas o próprio sentido do direito internacional”, aponta a coordenação da Global Sumud.