Flotilha internacional retoma travessia rumo a Gaza após sequestros

Militante do MAB e MAR integra missão internacional que tenta romper o bloqueio israelense a Gaza enquanto cresce a denúncia global contra o genocídio do povo palestino

Foto: Global Sumud Flotilla
Foto: Global Sumud Flotilla

A missão internacional da Global Sumud Flotilla retomou, nesta quinta-feira (14), sua travessia rumo à Faixa de Gaza, na Palestina, mantendo uma posição firme mesmo após ataques, detenções ilegais e denúncias de tortura cometidos pelas forças militares israelenses contra ativistas em águas internacionais. Rearticulada a partir do porto de Marmaris, na Turquia, a nova etapa da missão reúne 54 embarações, cerca de 500 participantes de 45 países e ocorre às vésperas do Dia da Nakba, marco da expulsão e dispersão do povo palestino, iniciada em 1948.

A flotilha, organizada por uma coalizão internacional de movimentos e organizações civis, busca romper o bloqueio imposto por Israel à Gaza e entregar ajuda humanitária à população palestina, submetida há meses a um cenário extremo de fome, destruição da infraestrutura civil e colapso do sistema de saúde. Os organizadores afirmam que a continuidade da missão responde ao agravamento da crise humanitária e ao fracasso da comunidade internacional em interromper os ataques israelenses.

Entre os participantes da missão está a militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e do Movimiento de Afectados por Represas (MAR), Beatriz Moreira de Oliveira, que enviou novos relatos diretamente do Mediterrâneo. Ela descreve o avanço da flotilha mesmo diante das tentativas de sabotagem e intimidação.

“Estamos há poucos dias de Gaza, prontos para romper o cerco ilegal da entidade sionista sobre a Palestina histórica. Nesse momento, a Global Sumud reúne mais de 50 embarcações na última perna da missão. Seguimos apesar das inúmeras tentativas de minar a continuidade desse processo, e de um sequestro em águas internacionais patrulhadas pela Grécia”, afirmou.

Beatriz também relaciona a travessia ao conceito palestino de sumud, palavra árabe associada à resistência e à perseverança diante da ocupação. “Gaza hoje é o farol que chama a política do internacionalismo dos povos e nos chama à ação. Nós, do MAB, não temos outra alternativa: Palestina livre nos chama. Todos os olhos precisam estar em Gaza e na Global Sumud”, disse.

A retomada da missão ocorre poucas semanas após uma operação israelense que sequestrou parte da coordenação da flotilha em águas internacionais, próximas à Grécia. Segundo os organizadores, ao menos 22 embarcações foram interceptadas e cerca de 175 ativistas foram detidos. Entre eles, estavam o brasileiro Thiago Ávila e o coordenador palestino-espanhol, Saif Abukeshek, que permaneceram presos em Israel por 10 dias e denunciaram agressões, isolamento, privação de água e tortura durante o período de detenção.

O comunicado oficial da Global Sumud afirma que a ofensiva militar de Israel violou o direito internacional e denuncia a cumplicidade de governos europeus e da União Europeia diante das ações israelenses no Mediterrâneo.

A missão sustenta que “embarcações civis em missão humanitária estão protegidas pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, e que Israel atua sob um regime de impunidade garantido por potências ocidentais”, diz o comunicado oficial. 

Além da flotilha marítima, um comboio terrestre internacional também se organiza no Norte da África para avançar em direção à passagem de Rafah, na fronteira sul de Gaza. Segundo a coordenação da missão, as duas iniciativas fazem parte de uma mobilização global que tenta furar o bloqueio israelense e denunciar o genocídio em curso contra o povo palestino.

A nova etapa da travessia também ampliou sua dimensão política internacional. Representantes de outros povos submetidos a processos de perseguição e violência estatal, como integrantes da comunidade Rohingya, passaram a integrar a missão. Para os organizadores, Gaza tornou-se símbolo global da luta contra o colonialismo, o apartheid e as políticas contemporâneas de extermínio.

Guerra de limpeza étnica e genocídio 

Enquanto a flotilha avança, a situação humanitária em Gaza se agrava. Organizações internacionais denunciam escassez extrema de alimentos, água potável, medicamentos e combustível. Hospitais operam parcialmente ou foram destruídos pelos bombardeios israelenses, enquanto milhões de palestinos seguem deslocados internamente em condições precárias. Dados citados por entidades internacionais apontam dezenas de milhares de mortos desde o início da ofensiva israelense, incluindo grande número de crianças.

Nos últimos meses, Israel intensificou ataques contra áreas civis, campos de refugiados, escolas, hospitais e comboios humanitários. Diversas organizações de direitos humanos, especialistas da ONU e governos passaram a utilizar abertamente os termos limpeza étnica e genocídio para caracterizar a ofensiva contra a população palestina. Ao mesmo tempo, o bloqueio imposto à entrada de ajuda humanitária transforma a fome em instrumento de guerra e amplia o sofrimento cotidiano da população encurralada na Faixa de Gaza.