MAB lança acervo virtual das Arpilleras

Acervo do Movimento dos Atingidos por Barragens reúne trabalhos bordados de mulheres que transformam retalhos de tecidos em narrativas para expressar suas ideias, denunciar violações e anunciar proposições

O MAB lançou nesse sábado, 30, o acervo virtual de arpilleras, com uma seleção de peças têxteis sobre a luta das mulheres atingidas em defesa da vida. Composto por quase 300 arpilleras, o acervo é resultado de um longo trabalho e produção criativa das mulheres atingidas por barragens através da técnica têxtil popular chilena, que incorpora elementos tridimensionais e retalhos de tecido aplicados em juta.

As peças são elaboradas pelo Coletivo de Mulheres do MAB de todo o Brasil durante encontros em que as atingidas discutem sobre os impactos causados pelas barragens em seus territórios e suas vidas pessoais. O acervo físico do MAB que está sendo sistematizado e digitalizado inclui peças de autoria de atingidas que vivem desde a Floresta Amazônica até os pampas gaúchos, incluindo todas as regiões brasileiras.


A técnica surgiu originalmente em Isla Negra, no Chile, na época da ditadura Pinochet, quando mães e esposas de presos políticos criavam telas para subverter a censura e denunciar as violações praticadas durante o regime. No MAB, as mulheres atingidas também exploram a mesma linguagem das arpilleras para denunciar experiências de violência sofridas, assim como transformações das paisagens onde vivem durante o processo de construção de barragens. A ideia de um portal para divulgar virtualmente esses trabalhos surgiu com a proposta de fazer a mensagem das mulheres chegar mais longe e ser ouvida por mais pessoas.

Veja algumas peças da exposição Atingidas em Defesa da Vida” disponível:

Lucielle Sousa, que é militante do MAB em Itaituba (PA), explica que a iniciativa do trabalho com as arpilleras foi inspirada em uma exposição na Argentina, quando algumas mulheres do MAB tiveram o primeiro contato com a técnica. A partir de então, o bordado se transformou em uma ferramenta de educação popular e passou a fazer parte da dinâmica de acolhimento e organização das atingidas em todo o país. “O importante quando a gente reproduz a técnica é manter o sentido político dela, denunciando as violações. Ai dentro dessa temática da violação de direitos, existem vários eixos, tem a violência contra a mulher, tem o patriarcado, tem a mulher em busca por direitos, moradia, água, saneamento, energia, tem várias questões”, explica a militante.

Quando se reúnem para bordar, as mulheres têm a oportunidade de elaborar o trauma da perda e deslocamento forçado, refletir sobre sua nova condição de vida em áreas de reassentamentos coletivos, fortalecer sua união enquanto grupo, falar sobre seus projetos e sonhos e pensar questões de gênero. Enquanto isso, aprendem sobre a técnica têxtil, desenham coletivamente e transpõem para o tecido suas ideias.

Oficina com as mulheres no Vale do Ribeira em São Paulo.

“A arpillera é uma forma de dar voz pra essas mulheres que muitas vezes não são ouvidas pelos governos, não ouvidas pelas empresas, não são ouvidas pela justiça. Através delas, expressamos aquilo que não conseguimos falar”, afirma Daiane Hohn, coordenadora nacional do MAB e integrante do Coletivo de Mulheres.

Segundo ela, a técnica possibilita não apenas que as mulheres expressem denúncias, mas também ideias e formas de ver o mundo. “A gente denuncia e anuncia, as proposições pra um projeto energético popular, para um feminismo popular, para um modelo de desenvolvimento”, explica.  Daiane conta que as peças criadas pelas atingidas do MAB já foram expostas em várias exposições locais, nacionais e até internacionais, na França e na Espanha. Através do acervo digital, os trabalhos vão poder ganhar o mundo todo.

ASSISTA O ATO VIRTUAL DE LANÇAMENTO DO ACERVO

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