Dois anos sem Dilma Ferreira; conheça a trajetória de luta da defensora do território amazônico

Conheça um pouco da história da militante do MAB brutalmente assassinada em 22 de março de 2019

Neste dia 22 de março faz dois anos que perdemos nossas companheira Dilma Ferreira Silva, militante do MAB no Pará. Em sua homenagem, uma pequena biografia, originalmente publicada na cartilha A nossa luta é pela vida, Chega de impunidade!, editada pelo Movimento dos Atingidos por Barragens em 2019.


Dois anos sem Dilma ferreira

11/02/1972 – 22/03/2019

“As marias somos nós! Nós somos as verdadeiras marias, guerreiras, lutadoras que estão aí no desafio da luta do dia a dia.” (Dilma Ferreira Silva, Encontro Nacional das Mulheres Atingidas por Barragens, Brasília, abril de 2011)

Dilma Ferreira Silva nasceu no dia 11 de fevereiro de 1972. Lutadora incansável, nunca baixou a cabeça perante as injustiças, pois, desde seu leito de nascença, em Esperantinópolis, no Maranhão, cultivou a esperança – não aquela do verbo esperar, mas aquela do verbo esperançar, tal qual nos ensinou Paulo Freire. Mãe de uma filha, teve como uma de suas principais características a empatia com o sofrimento dos mais humildes. Foi uma mulher destemida nos momentos de luta e ao mesmo tempo bastante brincalhona.

Em busca de melhores condições de vida para sua família e movida pelas promessas de emprego advindos da construção das eclusas da hidrelétrica de Tucuruí, Dilma deixou o Maranhão e mudou-se para a cidade de mesmo nome, no Pará. Foi viver no bairro Palmares, uma ocupação na periferia, e passou a enfrentar, na pele, as contradições provocadas pela hidrelétrica no território: de um lado, a riqueza produzida por uma das maiores usinas do país, de outro, a miséria e a negação de direitos sofrida pelos atingidos, muitos dos quais nunca tiveram nenhum direito garantido.

A hidrelétrica de Tucuruí é um dos tantos projetos de infraestrutura iniciados na ditadura militar, em um momento em que pouco ou nada se discutia acerca das problemáticas desse tipo de “desenvolvimento”. A usina, pertencente à estatal Eletronorte, é considerada a segunda maior do país, com 8.370 MWh de potência, e está localizada no Rio Tocantins, cerca de 300 km de distância de Belém, capital do Pará.

Até hoje Tucuruí é um caso emblemático de violação de direitos humanos na construção de barragens, conforme consta no relatório publicado pelo Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana sobre o tema em 2010.

A luta da Dilma

Dilma engajou-se no Movimento dos Atingidos por Barragens e passou a denunciar as violações dos direitos destas populações historicamente negados pelo Estado brasileiro. Em 2005, Dilma foi convidada a integrar a coordenação regional do MAB, em Tucuruí. Por se destacar no trabalho junto às famílias atingidas, em especial com as mulheres, a partir de 2006 passou a integrar também o Coletivo de Mulheres do movimento.

A organização dos atingidos no MAB possibilitou algumas conquistas na região, especialmente projetos para geração de renda. Dilma esteve à frente do processo de formação de uma cooperativa de criação e comercialização de peixes. Também organizava a distribuição das cestas básicas para as famílias que mais necessitavam e colaborou com um projeto de construção de cisternas, conquistas da luta e da organização do MAB na região.

Em 2011, Dilma Ferreira, enquanto integrante da coordenação do movimento, participou do Encontro Nacional das Mulheres Atingidas por Barragens, que reuniu mais de 500 mulheres em Brasília. Foi lá que ela conheceu sua xará, a presidenta Dilma Rousseff. Na ocasião, Dilma Ferreira foi a responsável por entregar à presidenta a pauta de reivindicações do Movimento, que pedia a criação da Política Nacional de Direitos dos Atingidos por Barragens (PNAB) e denunciava os riscos da implantação de mais uma grande hidrelétrica na Amazônia, Belo Monte. Esta pauta segue sem ser atendida pelo governo brasileiro.

No último período, Dilma vivia no assentamento Salvador Allende, na zona rural do município de Baião, também no Pará. O assentamento foi fruto da ocupação da Fazenda Piratininga por famílias organizadas na Via Campesina. A partir de 2013, Dilma participou desse processo na organização das famílias para garantir essa conquista. Após a efetivação do assentamento, Dilma passou a se dedicar ao cultivo da terra e à organização de um grupo de base do MAB no local.

O crime: assassinaram nossa companheira

O Brasil carrega consigo o peso de ser o país onde mais defensores de direitos humanos são assassinados. Neste contexto, o maior índice diz respeito aos militantes que exercem papel fundamental na luta pelo direito à terra, à moradia e ao meio ambiente, sobretudo na Amazônia.

Dilma foi assassinada brutalmente na madrugada do dia 22 de março de 2019, dentro de sua residência, no assentamento Salvador Allende, junto do seu companheiro, Claudionor Costa da Silva, e um amigo do casal, chamado Hilton Lopes.

O suspeito de ser o mandante das mortes é o fazendeiro Fernando Ferreira Rosa Filho, mais conhecido como Fernandinho. Ele também é investigado por mandar matar três caseiros que eram seus empregados e estavam insatisfeitos com a realidade trabalhista a qual Fernandinho os submetia. Esse crime ocorreu na véspera do assassinato de Dilma. Além disso, dois meses antes, camponeses deram entrevista ao portal Amazônia Real e relataram que o acusado teria atirado contra um líder da Frente Nacional de Lutas de Campo e Terra. A vítima sobreviveu ao ataque, mas o caso não foi investigado.

De acordo com as investigações e com os laudos técnicos ainda em andamento, Dilma foi amarrada, amordaçada, torturada e há suspeita de que também tenha sido estuprada antes de ter o seu pescoço cortado. Todas as indicações levam a crer que o crime praticado não foi simplesmente uma execução, mas sim um crime de ódio exercido contra uma mulher militante, que ocupava legitimamente um território de interesse do principal suspeito.

O caso tornou-se um enigma para o Estado e para os movimentos sociais por não haver notícias de conflito agrário atualmente no local, pois o assentamento onde Dilma vivia já era regularizado desde 2011. Embora a terra fosse pública, o INCRA pagou mais de 1 milhão de reais pelos 7.270,44 hectares ao autoproclamado dono. Porém, diversas testemunhas denunciaram que o interesse de Fernando Ferreira Rosa Filho era mais específico: ele tinha como objetivo construir uma pista de pouso clandestina para tráfico de drogas na área do assentamento.

Após repercussão nacional e internacional do caso, o governador do Pará, Helder Barbalho, ordenou a criação de uma força-tarefa da Polícia Civil para investigar o caso. O delegado-geral Alberto Teixeira, a partir do que foi coletado nos boletins de ocorrência, acredita que não era interessante para Fernandinho ter lideranças sociais vivendo nas proximidades de seu “negócio”, assim como queria calar os empregados que ameaçavam processá-lo na Justiça do Trabalho.

A prisão de Fernandinho foi anunciada no dia 26 de março, antes mesmo da captura dos executores do crime, cinco pessoas, dos quais quatro são irmãos. A rápida prisão do mandante mostrou que quando há vontade política dos governantes, é possível elucidar esse tipo de crime. Os pistoleiros contratados foram Valdenir Farias Lima e os irmãos Marlon Alves, Cosme Francisco Alves, Alan Alves e Glaucimar Francisco Alves. Valdenir confessou participação no crime, alegou a participação dos irmãos e confirmou que o mandante das mortes teria sido Fernandinho. Dos executores, dois estão presos, dois foram mortos e um está foragido.

O assassinato de Dilma, Claudionor e Hilton é considerado o primeiro massacre por conflitos agrários no país no ano de 2019. O caso teve repercussão internacional e gerou uma onda de manifestações de solidariedade à família de Dilma e ao MAB. Também jogou luz sobre o aumento da violência contra defensores de direitos humanos, sobretudo na Amazônia, em uma conjuntura na qual o próprio governo brasileiro tem sugerido que os criminosos poderão contar com a impunidade.

Uma vida de luta para que as águas sejam para a vida e não para a morte

O assassinato de Dilma é mais um momento triste na história do MAB, que justamente no dia 22 de março celebra o Dia Mundial da Água. É também mais um caso da violência no campo, autorizada pelo discurso de ódio e pelo descaso do atual governo federal.

Para os militantes do MAB e defensores dos direitos humanos, o assassinato de mais uma companheira significa que fazer a luta popular pelo direito do povo é um convite para a doação da vida pela causa dos trabalhadores.

Reafirmamos nosso compromisso de seguir lutando pelos direitos dos atingidos, em defesa da vida e contra a privatização da água. Não nos calarão, seremos como água, por maior que sejam os muros, jamais conseguirão deter nossa força.

Dilma Ferreira, presente, presente, presente!

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