Aneel “tira o corpo fora” em ajudar consumidores pobres durante a crise do COVID-19

Para o MAB, a Aneel vem sendo omissa às necessidades do povo trabalhador, inclusive em um momento de emergência global em que diversos governos do mundo vem adotando medidas para garantir os serviços básicos à população sem custos

Por Leonardo Fernandes/MAB

Durante a Reunião Pública Ordinária da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB – fez uma intervenção para levar ao colegiado da agência algumas propostas de medidas que podem ser tomadas para mitigar os efeitos econômicos gerados pela crise sanitária do COVID-19.

Na 10ª reunião realizada em 2020, os diretores da Aneel receberam um documento, no qual a Anab – Associação Nacional dos Atingidos por Barragens – propõe ajustes em relação à Tarifa Social de Energia Elétrica (TSEE). Uma das medidas é a isenção durante três meses para todas as famílias enquadradas na modalidade Tarifa Social de Energia Elétrica (TSEE), que não tenham excedido o consumo mensal de 170 kWh/mês, média de energia elétrica consumida pelas famílias brasileiras.

A segunda proposta é o enquadramento automático das famílias cadastradas no CadÚnico como beneficiários do TSEE. Membro da Anab, Tchenna Maso explica porque essas medidas foram levadas à agência e como elas podem ajudar as famílias mais pobres.

“Conforme recomendações da Organização Mundial da Saúde no contexto da pandemia e da necessidade isolamento social, torna-se importantíssimo falar da energia elétrica como um direito fundamental. A própria Aneel reconhece esse direito como fundamental para as famílias enfrentarem a crise”, destacou.

O documento ainda faz críticas em relação ao cadastro existente da Tarifa Social. “Os dados a Aneel revelam que a TSEE beneficiou no mês de janeiro apenas 9.404.427 famílias brasileiras com renda familiar mensal per capita menor ou igual a meio salário-mínimo nacional […] Isto revela que estão sendo excluídas do benefício da TSEE de 12 a 17 milhões de famílias, mais que o dobro das que atualmente são beneficiadas. A Aneel necessita tomar medidas efetivas, a partir dos dados disponíveis no site do Ministério da Cidadania para garantir os direitos destas famílias, estabelecido pela Lei nº 12.212/2010”, pontuou.

“Não é só o gasto com energia, mas com água, e mesmo com a saúde. Muitos trabalhadores informais vão enfrentar um período difícil e nós, da Anab, entendemos que frente a situação, é preciso intervir e permitir que as famílias sigam tendo acesso ao serviço de energia elétrica sem que isso seja um peso para o orçamento familiar”, conclui Maso.

Em relação à primeira proposta, os diretores da Aneel afirmaram que a medida depende de aprovação do Congresso Nacional e da disponibilização de recursos por parte do governo federal. Já sobre a segunda medida proposta não houve resposta. Durante a apreciação dos pedidos feitos pela Anab, um dos diretores chegou a afirmar que “pagar a conta de energia é um ato de cidadania, de civilidade e de solidariedade”.

Para Gilberto Cervinski, a resposta dos diretores demonstra como a Aneel vem sendo omissa às necessidades do povo trabalhador, inclusive em um momento de emergência global em que diversos governos do mundo vem adotando medidas para garantir os serviços básicos à população sem custos.

“Eles tiraram o corpo fora, jogam o problema para o Congresso, afirmando que deve passar por uma mudança de legislação, jogam para o governo federal a questão do recurso e ainda ameaçam. Afirmam que a redução das tarifas atualmente, pode significar um aumento futuro. Tudo isso foi para dizer que não vão anunciar nada diante dessa crise. Nós do MAB lamentamos que a Aneel vire as costas para o povo nesse momento em que o mundo inteiro está ajudando a população. A Aneel está mais preocupada em proteger as empresas donas do setor elétrica, do que o povo que está sofrendo com a pandemia”, criticou.

A ajuda deve ser integral

Diante da situação de emergência em todo o país por conta da pandemia do Coronavírus, o MAB publicou no último dia 23 de março um documento intitulado “Água, luz e gás de cozinha – não pagar e não cortar”, no qual defende uma série de medidas para minimizar os impactos econômicos sobre os mais pobres e proteger a vida dos trabalhadores brasileiros.

A respeito do fornecimento de luz elétrica, o movimento defende “a isenção do pagamento das contas por quatro meses a todos” os consumidores residenciais e rurais; “a isenção do pagamento da energia elétrica a todos os consumidores de baixa renda” enquanto durar a Declaração do Estado de Calamidade Pública; a “anistia das dívidas e multas de contas atrasadas de consumidores das classes Residencial (B1) e Rural (B2); a proibição de aplicação de novos cortes de energia e multas de energia elétrica aos consumidores das classes Residencial e Rural, durante a vigência da Declaração do Estado de Calamidade Pública”; e a revogação do Decreto Presidencial nº 9.642, de dezembro de 2018, que acaba com o subsídio a pequenos agricultores, aumentando em 40% a conta de luz desta classe.

Ainda em relação ao serviço de energia elétrica o movimento propõe “a proibição de qualquer aumento das contas de luz do ano 2020” e a aplicação a todos os consumidores residenciais e rurais do padrão de tarifas ofertado às grandes indústrias, bancos, shoppings centers e agronegócio, que pagam em média 55% a menos nas contas de luz.

O movimento ainda propõe medidas relacionadas ao fornecimento dos serviços de água e gás.

Veja aqui o documento completo: https://www.mabnacional.org.br/noticia/mab-prop-e-medidas-emergenciais-n-cortar-e-n-pagar-gua-luz-e-g-s

Conteúdos relacionados
| Publicado 21/12/2023 por Coletivo de Comunicação MAB PI

Desenvolvimento para quem? Piauí, um território atingido pela ganância do capital

Coletivo de comunicação Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no Piauí, assina artigo sobre a implementação de grandes empreendimentos que visam somente o lucro no território nordestino brasileiro

| Publicado 25/03/2020

MAB denuncia que medidas anunciadas pela Aneel são insuficientes para enfrentar a crise

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) anunciou na última terça-feira (24) a suspensão dos cortes de energia motivados por falta de pagamento das contas durante o período de 90 dias, no contexto da crise sanitária do COVID-19. Tais medidas são consideradas insuficientes pelo Movimento de Atingidos por Barragens – MAB, que já havia publicado documento no último dia 23, no qual defendia uma série de ações para mitigar os efeitos econômicos provocados pela crise aos mais pobres

| Publicado 14/03/2020

“O preço da luz é um roubo”: aumentos na conta de energia prejudicam população rural

Os trabalhadores rurais estão sofrendo, desde o ano passado, um duro ataque. Trata-se da política de retirada dos subsídios nas contas de energia elétrica no setor rural. Em um contexto de economia estagnada e intensificação da crise econômica global e nacional, é o povo que sempre acaba sofrendo com as consequências, nesse caso, pagando muito mais caro pela eletricidade

| Publicado 17/06/2020 por Leonardo Fernandes / Comunicação MAB

Após pressão, estados aderem a benefícios nas tarifas de água e energia durante pandemia

População de baixa renda cadastrada em programas sociais não terá serviços cortados e vai receber isenção no pagamento, em alguns casos. Conquista do MAB com outras entidades surgiu com o objetivo de estimular quarentena