“A Renova é uma grande agência de propaganda, uma empresa que foi criada para enrolar”, afirma membro da coordenação do MAB

Integrante da coordenação nacional do movimento, em Minas Gerais, Joceli Andrioli traz um balanço da situação dos atingidos na bacia do Rio Doce e litoral capixaba após quatro anos do […]

Integrante da coordenação nacional do movimento, em Minas Gerais, Joceli Andrioli traz um balanço da situação dos atingidos na bacia do Rio Doce e litoral capixaba após quatro anos do rompimento da barragem em Mariana. O MAB lança nesta terça-feira (15) a Jornada dos Atingidos – “A Vale destrói, o povo constrói” para marcar a denúncia dos crimes.  



(Foto: Isis Medeiros)


Confira:


Quase quatro anos depois do rompimento da barragem de Fundão em Mariana, Minas Gerais, qual o balanço que o MAB faz sobre a situação atual dos atingidos na bacia do Rio Doce e litoral capixaba, regiões atingidas pela lama?


É importante ressaltar que o crime de Mariana começou no dia 5 de novembro de 2015, no entanto, ele continua até hoje se prolongando. Cada chuva que dá é uma nova enxurrada de lama que escorre para o mar, para o litoral, o Oceano Atlântico, não só o Rio Doce, mas todo o litoral capixaba. Então o crime está se repetindo. Até o momento, é lamentável não ter ainda o reassentamento das famílias nem em Bento Rodrigues, nem em Paracatu de Baixo. Está lento o processo de reparação e toda a bacia, milhares de famílias estão fora do cadastro e a grande maioria não tem assessoria técnica independente. A Justiça continua do lado dos criminosos, tanto na área cível como criminal, suspendeu inclusive a responsabilização dos diretores da empresa como homicídio doloso, e, portanto, isso é muito complicado já que libera a empresa a estar livre para cometer os crimes, como é o caso que acabou se repetindo em Brumadinho. Então Mariana, quatro anos depois, tem uma situação em que as famílias estão contaminadas com metal pesado, a questão da saúde é muito séria em toda bacia do Rio Doce e litoral capixaba. Então, o balanço é bastante negativo nesses quatro anos do crime da Vale e da BHP em Mariana.


 


No Rio Doce, a estratégia adotada pelas mineradoras responsáveis, foi a criação de uma fundação, a Fundação Renova, para fazer o trabalho de reparação. Como tem sido a atuação desse órgão junto aos atingidos?


A Fundação Renova foi uma estratégia que a Vale e a BHP montaram para se livrar do crime, criando uma agência de propaganda, de falsidade ideológica, como tem sido comprovado. Inclusive, várias denúncias têm sido feitas, tem uma CPI, no Espírito Santo, aberta sobre a Fundação Renova porque ela tem implantado a indústria das indenizações. Formas de cooptar entidades e empresas para agir em torno de controlar os territórios e não resolver a situação dos atingidos. A Renova é uma grande agência de propaganda e uma empresa que foi criada pra enrolar, para não reparar integralmente as pessoas na bacia do Rio Doce.


 


Qual a diferença da atuação dessas empresas, do poder público e da própria organização dos atingidos nos casos de Mariana e Brumadinho?


Então, quando ocorreu em Brumadinho, a Vale era reincidente e a partir do dia 25 de janeiro desse ano com o crime na barragem do Córrego do Feijão e ela está muito mais preparada em Brumadinho porque já tem experiência na construção da sua estratégia na bacia do Rio Doce. A diferença é que em Brumadinho teve uma coesão maior entre a organização popular dos atingidos, através do MAB, e as instituições de justiça, o que possibilitou a gente construir um roteiro de como fazer o processo mais organizado. A Vale tem tentado burlar essa força-tarefa através de acordos individuais, implantando escritórios em toda a bacia do Paraopeba para ter o controle direto da população, no entanto, o jogo ainda está sendo jogado. O fato é que a empresa vem construindo a armadilha das reparações individuais, enrola nas questões emergenciais, tem muitos lugares que estão com água contaminada, sem acesso à água. Nas comunidades do Córrego do Feijão e do Parque da Cachoeira, a empresa tem retirado várias famílias, através de acordos individuais, para enfraquecer a organização da comunidade e ela tem enrolado um direito que já foi conquistado, que é o da assessoria técnica, tem protelado para ganhar tempo no território e conseguir firmar os acordos individuais. Nós temos agido, o debate está sendo feito no âmbito da 6ª Vara da Fazenda Pública de Minas Gerais, onde temos logrado alcançar alguns acordos favoráveis aos atingidos, como o pagamento emergencial a mais de 100 mil pessoas na bacia do Rio Paraopeba. Outras coisas emergenciais como em relação à saúde da população. No entanto, ainda falta muita coisa.


Faltam as assessorias técnicas, falta garantir uma perícia independente sobre a situação atual de contaminação do Rio Paraopeba e também da saúde das pessoas, bem como a construção de programas para a resolução integral, para ter uma reparação de fato integral das famílias. Isso é o que a gente pretende construir agora com as assessorias técnicas em campo para, finalmente, ter uma reparação justa e integral. A Vale tem tentando burlar esse processo criando inclusive acordos com o governo na esfera estadual e municipal. Ela formula desde o início toda uma estratégia de cooptação. No início, com as doações, para se mostrar boazinha à sociedade. Agora, oferecendo dinheiro aos municípios e ao próprio governo do estado que apresenta uma proposta governança que não foi discutida com os atingidos, que não teve participação popular e toda vez que isso acontece é contra as populações atingidas.


 


O MAB está iniciando uma jornada de lutas. Qual o sentido dela e quais ações estão previstas?


É importante dizer que a nossa estratégia de fazer uma jornada e lutas, marcando quatro anos do crime da Vale e da BHP em Mariana e um ano do crime de Brumadinho, faz parte de não deixar a sociedade esquecer que ocorreram esses crimes e que eles precisam ser punidos, os atingidos reparados e meio ambiente restaurado. Então, nos dias 25 e 26 de outubro, vai ter um encontro das mulheres atingidas aqui na região metropolitana de Belo Horizonte, entre os dias 3 e 5 de novembro vamos fazer um grande encontro lá em Mariana. É importante dizer que o MAB, agora no dia 16, começa a construção de uma casa lá em Barra Longa, local atingido pelo rompimento de Fundão em Mariana, como símbolo de que é possível que as famílias auto-organizadas construírem uma casa muito antes do que a empresa, que já está há quatro anos sem ter construído uma casa ainda. Então nós vamos construir uma casa com a solidariedade das organizações e da sociedade, através de um mutirão, através da participação dos atingidos, para simbolizar que é possível. Como diz o lema, “a Vale destrói, mas o povo constrói”. É através da organização que a gente vai construir as verdadeiras reparações na bacia do Rio Doce.


Também tem ainda, no dia 5 de novembro, um ato em Brasília, uma audiência pública na Comissão de Direitos Humanos, onde vai ser levantada a situação da bacia do Rio Doce. E, por fim, entre os dias 20 e 25 de janeiro, a marcha de Pompéu a Brumadinho. Vamos fazer uma marcha passando em várias cidades, de Pompéu a Brumadinho, dialogando, denunciando o um ano do crime da Vale em Brumadinho e esperamos que a sociedade toda participe. E também estamos planejando, para março do ano que vem, um festival cultural sobre a água. Nós estamos vivendo uma situação de caos, de grande insegurança na região metropolitana de Belo Horizonte, visto que foi comprometida, com o rompimento da barragem de Fundão, a captação da água da região metropolitana e se acontecer qualquer rompimento na bacia do Rio das Velhas, como tem várias barragens em risco, pode ter um grande caos na região metropolitana. Então, nós vamos fazer um festival para chamar a atenção para a importância de o povo se mobilizar porque poderá ficar sem acesso à água nessa região metropolitana.

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