NOTA | A contratação de Fábio Schvartsman para CEO da CSN é um escárnio à segurança de barragens
Decisão reacende críticas sobre a responsabilização pelo crime de Brumadinho e amplia a preocupação diante dos riscos envolvendo a Mina Casa de Pedra, em Congonhas
Publicado 09/09/2026 - Actualizado 10/09/2026

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) repudia o completo desrespeito na escolha de Fábio Schvartsman para assumir a presidência executiva da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).
Fábio Schvartsman era presidente da empresa Vale S/A quando houve rompimento da barragem da empresa no município de Brumadinho (MG) que matou 272 pessoas. Ele é réu na ação penal que responsabiliza os diretores da empresa pelo crime. A decisão reconheceu que a denúncia descreve informações suficientes para que ele seja julgado.
A postura de Schvartsman diante do crime também carrega marcas que não podem ser apagadas. Em fevereiro de 2019, durante audiência pública na Câmara dos Deputados para tratar do rompimento de Brumadinho, foi realizado um minuto de silêncio em memória às vítimas. Enquanto os demais participantes se levantaram, Schvartsman permaneceu sentado, de cabeça baixa. O episódio tornou-se um dos símbolos da postura da direção da Vale diante do sofrimento das famílias atingidas.
É preciso perguntar: que mensagem a CSN pretende transmitir ao escolher para seu comando um executivo que está novamente submetido à Justiça em um processo relacionado à maior tragédia da mineração brasileira? As vítimas pelo rompimento da barragem de Brumadinho e o povo mineiro merecem respeito!
E a preocupação não é abstrata.
A CSN é responsável pela Mina Casa de Pedra, em Congonhas (MG), onde está localizada uma estrutura que armazena cerca de 65 milhões de metros cúbicos de rejeitos. A barragem está situada acima de áreas urbanas e bairros como Cristo Rei, Eldorado e Residencial Gualter Monteiro. Segundo informações apresentadas em audiência na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, estima-se que cerca de 20 mil pessoas poderiam ser atingidas imediatamente em caso de rompimento.
É inadmissível que uma pessoa com esse histórico esteja mais uma vez à frente de decisões sobre estruturas que atingem a vida de centenas de milhares de pessoas. Quando assumiu a empresa Vale, Fábio chegou a afirmar que o lema da empresa seria “Mariana nunca mais”, o que se mostrou uma mentira anos depois com a morte de 272 pessoas, depois dele ter ignorado emails que afirmavam a insegurança da estrutura em Brumadinho.
A situação se torna ainda mais grave diante do avanço da expansão da Mina Casa de Pedra, decidida pelo governador Romeu Zema em mais de 261,97 hectares, incluindo a implantação da Pilha de Rejeito Filtrado Sul Maranhão 1. O próprio decreto autoriza a desapropriação dos terrenos necessários ao empreendimento.
Para as comunidades, a expansão de um empreendimento minerário dessa dimensão não significa apenas números, investimentos e produção. Significa território, casas, vínculos comunitários, modos de vida e o direito de viver sem medo.
Os crimes do rompimento das barragens de Brumadinho e Mariana não podem ser esquecidos. O que está em jogo não é apenas a escolha de um executivo. É o modelo de mineração que coloca o lucro acima da vida.
A escolha da CSN reafirma uma lógica que nós, atingidos e atingidas por barragens, conhecemos bem: primeiro o lucro, depois a vida; primeiro a expansão, depois as pessoas; primeiro o minério, depois o território.
ÁGUA E ENERGIA NÃO SÃO MERCADORIA!