Venezuela enfrenta desafios para reconstruir o país três semanas após os terremotos

Com quase 5 mil mortos e milhares de famílias desabrigadas, organizações populares destacam os desafios da reconstrução, os impactos das sanções econômicas e a importância da solidariedade internacional

Vista aérea da cidade de La Guaira. Foto: Cem Tekkesinoglu /Agência Anadolu Via AFP
Vista aérea da cidade de La Guaira. Foto: Cem Tekkesinoglu /Agência Anadolu Via AFP

A Venezuela ainda enfrenta as consequências da maior tragédia socioambiental de sua história recente, após os terremotos que atingiram o país em 24 de junho. O balanço oficial, divulgado pelo governo venezuelano em 14 de julho, contabiliza 4.734 mortos, 16.740 feridos e 17.907 pessoas desabrigadas. Mesmo após semanas de trabalho, as equipes de resgate continuam atuando na busca por desaparecidos e na identificação das vítimas, enquanto milhares de famílias seguem impossibilitadas de retornar às suas moradias.

Os dois terremotos, de magnitudes 7,5 e 7,2, atingiram a região norte do país, próxima à capital Caracas, provocando o colapso de edifícios e danos à infraestrutura pública, incluindo hospitais, escolas e outros equipamentos essenciais. Mais de 20 mil pessoas permanecem acolhidas em acampamentos temporários organizados pelo governo venezuelano; outras milhares enfrentam dificuldades de acesso à alimentação, água potável, produtos de higiene e serviços básicos.

Enquanto o governo mantém as operações de resgate e inicia o planejamento da reconstrução, organizações populares seguem mobilizadas para atender as comunidades atingidas e apoiar a recuperação do país. Em entrevista ao MAB, representantes de movimentos populares da Venezuela e da América Latina descrevem a gravidade da crise humanitária, os desafios da reconstrução, os impactos das sanções econômicas e o papel da solidariedade internacional na resposta ao desastre.

Reconstrução mobiliza organizações populares e solidariedade internacional 

Apesar do avanço das operações de resgate, a situação nas áreas atingidas ainda é considerada crítica por organizações populares que acompanham a resposta ao desastre. Integrante da Secretaria Executiva do Movimiento de Afectados por Represas (MAR), o cubano Juan Francisco Estevam afirma que a Venezuela vive uma emergência humanitária complexa, marcada pela destruição de moradias, pelas dificuldades sanitárias e pelo desafio de reconstruir a vida de milhares de famílias.

“A situação que vive o povo venezuelano hoje é trágica. É uma situação de emergência total. Ainda há corpos sob os escombros, milhares de pessoas seguem feridas e mais de 20 mil vivem em acampamentos temporários. A situação sanitária também é muito difícil, e uma das prioridades é remover os escombros para que as famílias possam encontrar seus familiares e para que seja possível realizar o saneamento das áreas afetadas.”

Segundo ele, além da continuidade das buscas, o momento exige garantir água, alimentação, atendimento à saúde e moradia para as famílias que perderam tudo. Outro desafio será definir quais áreas poderão ser reconstruídas com segurança após os estudos geológicos e sismológicos.

“O Estado venezuelano definiu como uma das principais prioridades resolver o problema da moradia. São muitas as pessoas que perderam suas casas e centenas de edifícios sofreram danos estruturais. Também será necessário garantir atendimento físico e psicológico às famílias e criar condições para que elas possam reconstruir seus projetos de vida.”

Para Guiomar Elena Rodríguez Malavé, integrante da Frente Nacional Ecossocialista por la Vida, a mobilização popular tem sido fundamental tanto na resposta imediata à tragédia quanto no início do processo de reconstrução. Segundo ela, desde os primeiros momentos após os terremotos, cidadãos organizados e voluntários organizaram centros de arrecadação e brigadas de resgate para atender as comunidades atingidas. Com a interrupção do transporte público, o deslocamento passou a depender de motocicletas e carros particulares, e os motociclistas desempenharam um papel decisivo ao transportar as equipes de resgate e o maior número possível de pessoas feridas.

No entanto, ela afirma que esse esforço coletivo enfrenta obstáculos que vão além da destruição provocada pelos terremotos. Na avaliação de Guiomar, as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos continuam limitando a capacidade do Estado venezuelano de firmar acordos e acessar recursos para responder à emergência, o que dificulta a reconstrução das áreas afetadas e o atendimento às necessidades da população.

“Neste contexto pós-terremoto, as medidas coercitivas unilaterais continuam afetando a capacidade do Estado venezuelano de firmar acordos e acessar recursos para responder à emergência. Isso limita as possibilidades de reconstrução e de atendimento às necessidades da população atingida.”

Além das dificuldades materiais, Guiomar afirma que os movimentos populares também precisaram enfrentar uma disputa em torno da informação durante os primeiros dias da tragédia. Segundo ela, a circulação de notícias falsas colocou em dúvida a atuação do governo venezuelano e dificultou o trabalho das equipes de resgate.

“Uma das tarefas mais importantes foi combater a desinformação. Circularam informações de que o governo não estava respondendo à tragédia, de que haveria um tsunami e até de que centenas de crianças estavam abandonadas em um abrigo. Essas notícias eram falsas e provocaram medo e confusão justamente no momento em que as equipes trabalhavam para salvar vidas”.

Para o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a reconstrução da Venezuela também passa pelo fortalecimento da solidariedade internacional entre os povos. A integrante da coordenação nacional do Movimento, Tatiana Bezerra, explica que o MAB acompanha de perto a situação por meio do diálogo permanente com organizações venezuelanas e mantém sua militância à disposição para contribuir com as demandas que surgirem durante o processo de recuperação do país.

“A solidariedade internacional é um pilar central da constituição do nosso Movimento. Nesse sentido, fortalecer processos em redes, campanhas e brigadas de trabalho voluntário pode ser um dos caminhos nesse processo de reconstrução. Ou seja, a solidariedade se traduz em apoio prático para a reconstrução das áreas afetadas, colocando nossa militância à disposição do governo e das organizações venezuelanas no que for necessário”, afirma.

Tatiana também reforça que apoiar a Venezuela significa defender a soberania e a autodeterminação dos povos. Nesse sentido, o MAB reafirma seu compromisso em contribuir com as iniciativas de reconstrução, seja por meio de campanhas de arrecadação de recursos, seja colocando grupos organizados à disposição para atuar nas tarefas necessárias junto às organizações venezuelanas.