Plataformas públicas monitoram riscos e fortalecem a organização dos territórios

Ferramentas digitais gratuitas aproximam a ciência da realidade das comunidades atingidas e servem de base para planos de contingência populares

As enchentes e enxurradas no RS alcançaram mais de 2,4 milhões de habitantes em 478 municípios. Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil
As enchentes e enxurradas no RS alcançaram mais de 2,4 milhões de habitantes em 478 municípios. Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil

A iminência de um novo episódio do fenômeno El Niño, no segundo semestre deste ano, acendeu um alerta entre pesquisadores, movimentos populares e comunidades. O risco da repetição dos eventos climáticos extremos recentes, como no caso das enchentes no Rio Grande do Sul – que vitimaram mais de 180 pessoas – e da seca severa na Amazônia, ambos em 2024, expuseram a necessidade de medidas de reparação e até mesmo de prevenção a novos desastres anunciados.

Diante da infraestrutura precária, em bairros muitas vezes em situação de alta vulnerabilidade, mecanismos de mapeamento e diagnóstico ambiental desenvolvidos por instituições governamentais e entidades científicas tornam-se cada vez mais importantes. Essas ferramentas ajudam a fortalecer a organização popular e a pressão por políticas de adaptação, além de auxiliarem movimentos sociais para monitorar riscos e planejar a defesa dos territórios.

Nesse cenário de um provável novo El Niño, que é caracterizado pelo aquecimento anômalo do oceano Pacífico, o uso estratégico da informação digital se torna um mecanismo essencial de proteção e resistência comunitária. A avaliação foi dada pelo físico e climatologista Paulo Artaxo, um dos principais pesquisadores brasileiros sobre mudanças climáticas e integrante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em entrevista recente ao Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

“O Brasil é uma das maiores economias do planeta. Nós temos capacidade técnica, temos universidades, temos centros de pesquisa. Temos instituições públicas, temos recursos financeiros. Por isso, considero intolerável que continuemos respondendo a muitos desastres da forma como respondemos”, relatou. 

O cientista ainda advertiu que é preciso encarar a recorrência desses eventos como a nova norma. “Nós vamos continuar enfrentando secas, enchentes, ondas de calor, queimadas e outros eventos extremos. A questão não é se eles vão acontecer; a questão é quando vão acontecer. Por isso, precisamos construir sistemas permanentes de prevenção e adaptação. Não podemos continuar tratando cada desastre como se fosse uma surpresa”.

Artaxo destacou que o Brasil possui excelentes planos de adaptação climática. “O Plano Adapta Brasil é um exemplo importante. Mas esses planos continuam, em grande medida, no papel. E para que eles saiam do papel, a sociedade civil é essencial, não é acessória.” 

Para fortalecer a organização popular e a pressão por políticas de adaptação, apresentamos a seguir as principais plataformas públicas que podem ser utilizadas pela sociedade civil para monitorar riscos e planejar a defesa dos territórios. 

AdaptaBrasil

A plataforma AdaptaBrasil consolida indicadores de vulnerabilidade climática para os 5.547 municípios do país. Foto: Reprodução / AdaptaBrasil
A plataforma AdaptaBrasil consolida indicadores de vulnerabilidade climática para os 5.547 municípios do país. Foto: Reprodução / AdaptaBrasil

Produzida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e a Rede Nacional de Pesquisa e Ensino (RNP), a plataforma AdaptaBrasil consolida indicadores de vulnerabilidade climática para os 5.547 municípios do país. 

A ferramenta serve para analisar o nível de exposição e a capacidade de resposta das cidades a ameaças como secas, inundações e ondas de calor. Para os movimentos sociais, o sistema ajuda a fundamentar denúncias e formular propostas de infraestrutura resiliente, uma vez que expõe quais setores econômicos e quais fatias da população sofrerão os maiores danos em cenários de estresse climático.

MapBiomas

O MapBiomas processa imagens de satélite para mapear as transformações na cobertura e no uso da terra no território brasileiro. Foto: Reprodução / MapBiomas
O MapBiomas processa imagens de satélite para mapear as transformações na cobertura e no uso da terra no território brasileiro. Foto: Reprodução / MapBiomas

Iniciativa do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima, executada por uma rede de universidades, ONGs e empresas de tecnologia, o MapBiomas processa imagens de satélite para mapear as transformações na cobertura e no uso da terra no território brasileiro. Três módulos específicos são fundamentais para o acompanhamento da crise climática: o MapBiomas Água, o MapBiomas Fogo e o MapBiomas Atmosfera.

Essas plataformas monitoram a perda de superfície de água doce, o histórico e a recorrência de incêndios florestais e as emissões de gases poluentes ao longo das últimas décadas. Comunidades tradicionais, pescadores e agricultores familiares usam esses recortes para comprovar o estresse hídrico de rios locais e identificar padrões de avanço do fogo nas proximidades de seus territórios.

MapBiomas Alerta

Também desenvolvido pela rede MapBiomas, o MapBiomas Alerta é um sistema focado especificamente na validação e no refinamento de alertas de desmatamento gerados por satélites em todos os biomas brasileiros. A ferramenta cruza os dados de supressão de vegetação nativa com os registros do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e com as delimitações de Terras Indígenas e Unidades de Conservação.

Movimentos populares que atuam na defesa de florestas e territórios tradicionais utilizam esses relatórios personalizados para identificar focos ilegais de derrubada de mata, gerando evidências técnicas robustas para subsidiar representações ao Ministério Público e frear a degradação ambiental que intensifica as mudanças climáticas locais.

Cemaden

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, monitora continuamente as condições volumétricas de chuva e os riscos de desastres em áreas urbanas adensadas e encostas. Ele emite alertas antecipados sobre enchentes, enxurradas, secas e deslizamentos de terra.

Associações de moradores de vilas, favelas e periferias encontram no site e nas redes do centro um subsídio técnico crucial para estruturar sistemas próprios de aviso prévio e planos de evacuação autônomos. A ferramenta informa com antecedência quais encostas ou bacias hidrográficas atingiram o limiar crítico de saturação hídrica.

Como lembrou Paulo Artaxo na entrevista ao MAB, as assimetrias sociais determinam a geografia dos danos provocados pelos eventos extremos. “Porque as mudanças climáticas atingem principalmente as populações mais pobres. Você não vê mansões sendo arrastadas por deslizamentos na Serra do Mar; você não vê os bairros mais ricos sendo os mais atingidos pelas enchentes. Esses impactos recaem principalmente sobre a população trabalhadora. Por isso, é necessário pressionar os poderes públicos para que as estratégias de adaptação sejam construídas com base nos interesses da população e não nos interesses econômicos de determinados setores.”

AdaptaSUS – Ministério da Saúde

Desenvolvida pelo Ministério da Saúde, a plataforma AdaptaSUS monitora e projeta os impactos diretos e indiretos das mudanças climáticas sobre a saúde pública e os perfis epidemiológicos da população brasileira. O sistema cruza variáveis meteorológicas com indicadores de incidência de doenças transmitidas por vetores, problemas respiratórios decorrentes de fumaça de queimadas e agravos causados pela contaminação da água após inundações.

Conselhos municipais de saúde e movimentos populares de saúde coletiva usam esses indicadores para exigir o reforço no atendimento básico de saúde em períodos sazonais críticos, antecipando-se ao aumento de surtos infecciosos após episódios climáticos agudos.

Plano Clima

Disponibilizado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o Plano Clima funciona como a central da estratégia nacional de adaptação e mitigação climática do governo federal. O portal reúne os planos setoriais voltados para áreas como agricultura, infraestrutura, cidades e oceanos, além de detalhar as diretrizes de financiamento e as metas de redução de emissões do país.

Organizações populares acompanham a plataforma para fiscalizar o cumprimento das metas estatais e para disputar a destinação dos fundos públicos de transição ecológica, garantindo que as verbas federais cheguem efetivamente às frentes comunitárias mais expostas ao risco.

INMET

O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), vinculado ao Ministério da Agricultura e Pecuária, fornece previsões do tempo cotidianas, análises agrometeorológicas e avisos meteorológicos especiais de severidade. Seus canais oficiais comunicam a iminência de tempestades, granizos, geadas, estiagens severas e ondas de calor extremo.

Lideranças da agricultura familiar e assentados da reforma agrária utilizam as atualizações constantes do instituto para planejar os ciclos de plantio, proteger criações de animais e salvaguardar a subsistência rural diante de flutuações severas na umidade do ar e nas temperaturas.

SINGED Lab Desastres

Criado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Sistema Integrado de Gerenciamento de Dados (SINGED) mantém o Laboratório de Desastres, que espacializa dados demográficos censitários sobre as áreas suscetíveis a desastres em municípios mapeados. A ferramenta permite cruzar o relevo geográfico com o perfil socioeconômico dos moradores, discriminando faixas etárias, renda e condições de saneamento das habitações situadas em áreas de risco.

Os movimentos populares utilizam esse detalhamento para embasar o planejamento municipal e exigir orçamentos habitacionais justos, apontando com precisão científica quais bairros necessitam de obras prioritárias de drenagem e contenção.

Esforço conjunto e acesso democrático à informação

A existência dessas ferramentas demonstra que o acesso democrático e a tradução pedagógica dessas plataformas são etapas indispensáveis para que os movimentos populares não fiquem restritos ao papel de socorristas, atuando apenas após as tragédias. Ainda assim, é necessário que os governos e o Estado avancem na criação, apropriação e utilização de plataformas de controle público, capazes de facilitar o monitoramento antecipado dos eventos extremos da crise climática e subsidiar a adoção de medidas de proteção à população. É o que aponta Ivanei Farina Dalla Costa, da coordenação nacional do MAB.

“Estamos vivendo a era digital, com avanços enormes na ciência, e isso deve ser base para as ações do Estado na aplicação de tecnologias e políticas públicas. O Brasil tem todas as condições para melhorar e avançar. O MAB entende que as plataformas são necessárias, que podem ajudar muito, devem ser públicas, de fácil acesso, a serviço do conjunto da população brasileira”, afirma.

Para Ivanei, ainda existem vários desafios a serem superados. Tanto as plataformas como as políticas públicas que estão sendo criadas para atuar junto aos eventos extremos da crise climática precisam chegar na ponta, ou seja, nas pessoas que vivem em áreas de risco, que são atingidas de forma mais brutal. “Para isso, necessariamente precisa-se de investimentos em informações, capacitação de como usar as ferramentas, além de pensar na proposta de capacitação junto às populações de como agir mediante o acionamento dos alertas, e nos momentos dos desastres”.

O MAB defende a atuação do Estado nas ações em conjunto com os movimentos populares, uma vez que assim podem de forma organizada ajudar no avanço de medidas de proteção e adaptação. “Não estamos mais em tempos de agir só caos. As condições permitem prevenir, dependem de decisões políticas dos governos”, conclui.