Atingidos pelas enchentes no RS denunciam a relação direta da crise climática com a expansão do agronegócio

A tragédia vivida pelo Rio Grande do Sul em 2024 não foi um acaso. Por trás das águas que inundaram cidades inteiras, há um modelo agrícola predatório e decisões políticas que desmontaram a proteção ambiental e os direitos das populações atingidas

A soja é a maior vilã do desmatamento no RS: solo erodido, rios assoreados e mais risco de enchentes. Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil
A soja é a maior vilã do desmatamento no RS: solo erodido, rios assoreados e mais risco de enchentes. Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

O avanço da monocultura sobre o território gaúcho atingiu, em 2024, a marca de 6,8 milhões de hectares plantados, o que corresponde a 24% de todo o estado. Segundo a organização Amigas da Terra Brasil, “a soja, hoje, é a maior responsável pela remoção de campos e florestas no Rio Grande do Sul, deixando o solo suscetível à erosão e os rios propensos ao assoreamento, o que aumenta a chance de inundações durante fortes chuvas, cada vez mais frequentes no estado”. A instituição ainda afirma que “o agronegócio é o principal responsável pela emergência climática” no país, sendo responsável por 75% das emissões de gases de efeito estufa oriundas do desmatamento, queimadas e da produção e transporte de insumos. Além dos danos já provocados, o setor promove um intenso lobby no campo político, pressionando por flexibilizações na legislação ambiental.

A soja tomou conta do mapa gaúcho. O preço quem paga são os atingidos frente à crise climática.
A soja tomou conta do mapa gaúcho. O preço quem paga são os atingidos frente à crise climática.

Um estudo conduzido pelo Open Source Global Justice Investigations Lab, uma equipe de pesquisa da Universidade de Utrecht, na Holanda, analisou as bacias do Alto Jacuí, Taquari-Antas e Caí, no Rio Grande do Sul. A investigação identificou que, embora a cobertura vegetal nas zonas ribeirinhas tenha se mantido amplamente estável ao longo de 25 anos, houve “uma mudança significativa em direção ao cultivo de soja, particularmente no Alto Jacuí e Taquari Antas”, justamente as regiões mais atingidas pelas enchentes de 2023 e 2024. O pesquisador Bernardo Phillips ressalta que o objetivo do trabalho foi “demonstrar o potencial do uso de dados provenientes de fontes abertas” para “fundamentar demandas da sociedade civil” baseadas nos padrões que as populações atingidas descrevem há anos.

A pesquisa também revelou uma correlação preocupante entre os eventos extremos e o fenômeno El Niño previsto para este ano. Phillips aponta que “pelo menos os oito maiores eventos de chuva extrema identificados na região de Porto Alegre coincidem com o fenômeno El Niño em outros anos”, e alerta:

“A maioria desses eventos de chuva extrema foi acompanhada de inundações, o que evidencia a necessidade do poder público desenvolver planos de emergência e adaptações estruturais para enfrentar os riscos recorrentes associados ao El Niño, que podem se agravar no contexto mais amplo das mudanças climáticas”.

Contudo, o que os atingidos veem na realidade de seus territórios, e o que também denuncia a organização social Amigas da Terra, é que “muito pouco foi feito de concreto pelo poder público no Rio Grande do Sul e em nossos municípios para que estejamos mais preparados para uma nova enchente”.

Alterações no código ambiental e o fim da política em defesa dos atingidos

A vulnerabilidade atual não é fruto apenas do modelo agrícola, mas também de escolhas políticas deliberadas contra os atingidos. Em seu primeiro mandato, o governador Eduardo Leite alterou quase 500 pontos do Código Ambiental do Rio Grande do Sul, aprovado em apenas 75 dias pela Assembleia Legislativa, sem passar pela Comissão de Saúde e Meio Ambiente e sem consulta aos técnicos da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). A medida instituiu o auto licenciamento, a chamada Licença por Adesão de Compromisso (LAC), que permite ao empreendedor iniciar a instalação e a operação baseadas apenas numa declaração.

Para completar o desmonte, em 4 de novembro de 2019, o governo Leite revogou o Decreto nº 51.595 de 2014, que instituía a Política Estadual dos Atingidos por Empreendimentos Hidrelétricos (PEAEH) e a Política de Desenvolvimento de Regiões Afetadas por Empreendimentos Hidrelétricos (PDRAEH). Essas políticas, conquistadas por décadas de luta do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), garantiam direitos como informação, indenizações justas, criação de conselhos próprios e mecanismos de desenvolvimento para regiões atingidas. Na ocasião, o MAB publicou nota afirmando que “este tipo de atitude agressiva e predadora, patrocinada por um pensamento retrógrado da direita gaúcha, somente aumentará os conflitos, tensões e a perda de qualidade de vida do povo”.

Dois anos depois da enchente que devastou o estado, os atingidos aguardam por reparação e, diante das previsões, têm a certeza de que seguem desprotegidos. Por isso, denuncia Letícia Paranhos, da Amigas da Terra: “A superação do sistema capitalista é uma questão de sobrevivência, principalmente para nós, que somos as pessoas mais vulneráveis aos efeitos da crise climática”. Enquanto isso, R$ 516 bilhões foram destinados ao agronegócio em 2025 no Brasil, e apenas R$ 89 bilhões para a agricultura familiar, quando, segundo ela, o povo “sabe como fazer uma agricultura que respeite o meio ambiente”.

As enchentes de 2024 não foram um desastre natural, foram o desfecho previsível de um modelo que prioriza o lucro em detrimento da vida e do território. Enquanto os atingidos seguem aguardando reparação e políticas de prevenção, as previsões anunciam um El Niño que não perguntará se o Rio Grande do Sul está preparado. A verdade é que a conta da crise climática nunca fecha: o capital provoca a crise, os trabalhadores e os mais pobres que sofrem na pele as consequências de um planeta em colapso.

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