Navios de guerra de Israel cercam Flotilha e ampliam ofensiva contra ajuda humanitária a Gaza
Em mais um ataque em águas internacionais, embarcações israelenses bloquearam missão civil a 250 milhas náuticas de Gaza; quatro brasileiros estão a bordo, entre eles Beatriz Oliveira, militante do MAB
Publicado 18/05/2026 - Actualizado 18/05/2026

A ofensiva militar de Israel contra a Flotilha Global Sumud chegou ao seu ponto mais grave na manhã desta segunda-feira (18). Após cercarem as embarcações civis da missão humanitária em águas internacionais do Mediterrâneo, forças militares israelenses bloquearam a passagem da flotilha e sequestraram seus tripulantes, entre eles a militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Beatriz Moreira de Oliveira. A missão internacional seguia rumo à Faixa de Gaza levando alimentos, medicamentos e outros itens básicos para a população palestina submetida ao bloqueio imposto por Israel ao território.
Entre os sequestrados estão quatro brasileiros: Ariadne Teles, coordenadora da Global Sumud Brasil; Beatriz Moreira de Oliveira, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e do Movimiento de Afectados por Represas (MAR); Thainara Rogério; e Cássio Guedes Pelegrini Júnior, médico pediatra. Segundo informações divulgadas pela própria missão, os ativistas devem ser levados inicialmente para uma prisão flutuante antes de serem transferidos ao porto israelense de Ashdod.
Em nota divulgada nesta segunda, o MAB condenou de forma veemente a ação israelense e denunciou o caráter ilegal da operação militar. “A ação violenta, ilegal e desproporcional das forças israelenses, mais uma vez demonstra ao mundo o desrespeito sistemático a qualquer regra”, afirma o texto da coordenação nacional do Movimento. A nota também denuncia que as forças militares israelenses “abordaram, sabotaram e sequestraram ilegalmente centenas de defensores pacíficos dos direitos humanos de 45 países”, submetendo os participantes à detenção injustificada e à violência física.
O Movimento também cobra a libertação imediata de Beatriz e dos demais integrantes da missão humanitária. “A Palestina vive sob ocupação, genocídio e um cerco ilegal que dura anos e se aprofunda a cada dia. Agora, Beatriz, junto a outros ativistas, está sequestrada por tentar fazer com que ajuda humanitária contendo alimentos, remédios e água chegasse a Gaza”, afirma a nota.
Em um vídeo enviado antes de ser sequestrada pelas forças militares israelenses, a militante do MAB denunciou a ilegalidade da ação contra a flotilha e fez um apelo público pela libertação dos ativistas. “Segundo a Convenção de Genebra, civis e ações humanitárias têm livre passagem em águas internacionais. Então eu exijo, e faço com que vocês também exijam, a minha libertação e a libertação de toda a minha tripulação. Peçam ao Itamaraty, ao governo federal, basta da ocupação israelense sobre o território palestino. Palestina livre!”, afirmou Beatriz no registro enviado ainda durante a missão.
O ataque é uma continuidade direta à operação realizada há duas semanas nas proximidades da ilha de Creta, quando forças militares israelenses avançaram sobre 21 embarcações civis da flotilha em uma área pertencente à zona de Busca e Salvamento da Grécia. Segundo os organizadores da missão, 181 ativistas foram sequestrados e submetidos a tortura física e psicológica.



A nova ofensiva reforça o padrão de atuação denunciado por organizações de direitos humanos e juristas internacionais. Ao avançar militarmente sobre embarcações civis em águas internacionais, Israel ignora princípios estabelecidos pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, e amplia um regime de perseguição contra ações humanitárias e redes internacionais de solidariedade à Palestina.
Uma campanha de criminalização contra a solidariedade internacional
A coordenação da Global Sumud também denuncia que a ofensiva militar foi precedida por uma intensa campanha de propaganda conduzida por veículos alinhados ao governo israelense. Segundo a missão, a narrativa construída ao longo da última semana buscou fabricar justificativas políticas para o ataque contra uma flotilha composta por médicos, jornalistas, defensores de direitos humanos e trabalhadores humanitários desarmados.
Os organizadores afirmam ainda que toda a comunidade internacional foi formalmente notificada de que as embarcações não transportam armamentos e não representam qualquer ameaça militar. A equipe jurídica da missão declarou que qualquer ato de violência praticado contra os participantes recai sob responsabilidade direta do Estado israelense e de suas autoridades políticas e militares.
Segundo o comunicado, investigações criminais relacionadas às ações de Israel já estão em andamento em cerca de vinte países, além de iniciativas voltadas à responsabilização internacional de agentes envolvidos na manutenção do cerco a Gaza.
O cerco se expande por terra e mar
A repressão à flotilha ocorre simultaneamente ao bloqueio imposto ao Comboio Terrestre Global Sumud, missão humanitária formada por mais de 30 veículos, incluindo ambulâncias e casas móveis, que tentam alcançar Rafah por vias terrestres. O comboio está parado nas proximidades de Sirte, na Líbia, após forças ligadas ao leste líbio, sob pressão política do Egito, impedirem a continuidade da rota humanitária.
Para os organizadores da missão, o bloqueio simultâneo das iniciativas marítima e terrestre revela uma política coordenada de isolamento total da Faixa de Gaza e de perseguição internacional às redes de apoio ao povo palestino. O comunicado afirma que o cerco extrapolou as fronteiras palestinas e passou a operar como uma “arquitetura global de violência, ocupação e impunidade ampliada”.
A denúncia também aponta que Israel vem ampliando sua influência militar e diplomática para além do território palestino, utilizando alianças regionais e mecanismos de pressão política para impedir ações internacionais de solidariedade.
A trajetória da Flotilha e a presença do MAB
A nova ofensiva ocorre após semanas de perseguição contra a Flotilha Global Sumud. No início de maio, embarcações da missão já haviam sido alvo de ataques militares israelenses nas proximidades de Creta, em uma ação denunciada internacionalmente como sequestro coletivo de ativistas civis. Integrantes da missão relataram sabotagens, detenções arbitrárias e violência contra participantes da campanha humanitária.
Mesmo após os ataques, a flotilha reorganizou sua travessia e retomou a missão rumo a Gaza. A presença da integrante do MAB, Beatriz Moreira de Oliveira, na iniciativa também marca a participação do movimento brasileiro na articulação internacional de solidariedade ao povo palestino e de denúncia contra crimes socioambientais, guerras e ataque aos direitos humanos.
Nas últimas semanas, organismos internacionais e entidades humanitárias intensificaram alertas sobre o agravamento da crise em Gaza, marcada pela destruição de hospitais, escassez de alimentos, ataques contra civis e impedimento sistemático da entrada de ajuda humanitária. É nesse cenário que a flotilha se converteu em símbolo internacional de resistência e solidariedade diante do isolamento que encurrala os palestinos.