CRÔNICA | Dos primeiros dias

Quando memória, cotidiano e movimento se misturam nas vidas de quem teve sua história violentamente atravessada pelo crime

Obra de OS GÊMEOS em homenagem às comunidades atingidas pelo crime da Vale em Brumadinho (janeiro de 2019).

Amanheceu em pesadelo. No início, se movimentava por um luto antecipado, que pesava no fundo da sua barriga. Já nem entendia direito a sequência dos fatos e acontecimentos, só foi arrastada por suas próprias pernas a se enlamear. E em meio a destroços e gritos, procurava vizinhos e familiares em meio a um cenário apocalíptico. Submergiu dos esforços de busca ao final da noite, exausta de corpo e alma, quando sem luz lhe pareceu que entucharam numa rapidez de minutos um inferno dentro de seu rio. 

Tinha achado em meio ao rejeito uma coletânea no mínimo curiosa: brinquedos, documentos, peixes, carros e um cachorro, com olhos de tanta confusão que chegou a marejar os seus. Retornou suja, mas com algum conforto na alma de ao menos ter ajudado seus próximos. A sensação da água ao tomar banho foi estranha, quase como que se de repente não reconhecesse mais o que era água limpa depois do que passou, um presságio ruim de tempos que viriam. Foi dormir com sono pesado e sonhos confusos: seu corpo ficou imóvel por horas, quase como se estivesse ainda imersa no fundo do Paraopeba.

Acordou quase sem lembrar do que fora a exceção do dia anterior. Se levantou com calma, sentindo cheiros conhecidos e estranhos juntos, combinados, chegando ao seu quarto. Ao fundo, o radinho de pilha tocava, costume de sua mãe, já idosa, que lhe transmitiu princípios e o riso solto, além da comunhão à comunidade. Lembrou-se pequena, indo com a mãe ao rio, pescar peixes quando a geladeira andava vazia demais, ou às vezes, só pra comemorar o domingo em família.

Aos poucos as notícias do radinho foram juntando cacos de memória e sentiu-se ansiosa lá dentro do seu peito, enquanto um turbilhão de correntes do passado recente tomou-a de assalto: “Rompimento das barragens da Vale em Brumadinho leva milhões de toneladas de rejeitos ao Rio Paraopeba… A lama segue avançando… Operações de Resgate em Andamento… Centenas de desaparecidos… Continue conosco para mais informações em breve”.

Então era verdade e não pesadelo. Levou a mão de forma quase inconsciente ao terço dado a ela por sua avó, quando ainda estava viva. Ficou aflita pensando no paradeiro da filha e disparou pro corredor, só relaxando ao vê-la dormindo, quietinha, no seu quarto.

O cheiro conhecido então foi identificado: sua mãe estava passando café já com açúcar, do jeito que o povo gosta e ela adora, embora esteja tentando reduzir o consumo, mas preferiu racionar o refrigerante a abrir mão de seu energético diário. 

Já o cheiro desconhecido ainda lhe era estranho. Reparou, então, que havia resquícios de lama em suas unhas, com cheiro forte e metálico. Já estava se coçando de onde a lama tinha entrado em contato no dia anterior. 

Pediu bença à sua mãe, a pediu que levasse sua pequena à escola, tomou café e pão com ovo e margarina, e decidiu voltar às buscas. Não sabia direito pra onde ia, mas saiu de casa com uma centelha no coração e preferiu desde então descobrir em (no) movimento.


Artur Freixedas Colito é advogado Popular do Coletivo de Direitos Humanos do MAB, ator que às vezes se arrisca como poeta e dramaturgo.

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