Quando memória, cotidiano e movimento se misturam nas vidas de quem teve sua história violentamente atravessada pelo crime
Publicado 19/01/2026 - Actualizado 19/01/2026

Amanheceu em pesadelo. No início, se movimentava por um luto antecipado, que pesava no fundo da sua barriga. Já nem entendia direito a sequência dos fatos e acontecimentos, só foi arrastada por suas próprias pernas a se enlamear. E em meio a destroços e gritos, procurava vizinhos e familiares em meio a um cenário apocalíptico. Submergiu dos esforços de busca ao final da noite, exausta de corpo e alma, quando sem luz lhe pareceu que entucharam numa rapidez de minutos um inferno dentro de seu rio.
Tinha achado em meio ao rejeito uma coletânea no mínimo curiosa: brinquedos, documentos, peixes, carros e um cachorro, com olhos de tanta confusão que chegou a marejar os seus. Retornou suja, mas com algum conforto na alma de ao menos ter ajudado seus próximos. A sensação da água ao tomar banho foi estranha, quase como que se de repente não reconhecesse mais o que era água limpa depois do que passou, um presságio ruim de tempos que viriam. Foi dormir com sono pesado e sonhos confusos: seu corpo ficou imóvel por horas, quase como se estivesse ainda imersa no fundo do Paraopeba.
Acordou quase sem lembrar do que fora a exceção do dia anterior. Se levantou com calma, sentindo cheiros conhecidos e estranhos juntos, combinados, chegando ao seu quarto. Ao fundo, o radinho de pilha tocava, costume de sua mãe, já idosa, que lhe transmitiu princípios e o riso solto, além da comunhão à comunidade. Lembrou-se pequena, indo com a mãe ao rio, pescar peixes quando a geladeira andava vazia demais, ou às vezes, só pra comemorar o domingo em família.
Aos poucos as notícias do radinho foram juntando cacos de memória e sentiu-se ansiosa lá dentro do seu peito, enquanto um turbilhão de correntes do passado recente tomou-a de assalto: “Rompimento das barragens da Vale em Brumadinho leva milhões de toneladas de rejeitos ao Rio Paraopeba… A lama segue avançando… Operações de Resgate em Andamento… Centenas de desaparecidos… Continue conosco para mais informações em breve”.
Então era verdade e não pesadelo. Levou a mão de forma quase inconsciente ao terço dado a ela por sua avó, quando ainda estava viva. Ficou aflita pensando no paradeiro da filha e disparou pro corredor, só relaxando ao vê-la dormindo, quietinha, no seu quarto.
O cheiro conhecido então foi identificado: sua mãe estava passando café já com açúcar, do jeito que o povo gosta e ela adora, embora esteja tentando reduzir o consumo, mas preferiu racionar o refrigerante a abrir mão de seu energético diário.
Já o cheiro desconhecido ainda lhe era estranho. Reparou, então, que havia resquícios de lama em suas unhas, com cheiro forte e metálico. Já estava se coçando de onde a lama tinha entrado em contato no dia anterior.
Pediu bença à sua mãe, a pediu que levasse sua pequena à escola, tomou café e pão com ovo e margarina, e decidiu voltar às buscas. Não sabia direito pra onde ia, mas saiu de casa com uma centelha no coração e preferiu desde então descobrir em (no) movimento.
Artur Freixedas Colito é advogado Popular do Coletivo de Direitos Humanos do MAB, ator que às vezes se arrisca como poeta e dramaturgo.
