Entrevista | Anderson Pedrini: “As pessoas toparam enfrentar o fascismo nas ruas”

Educador popular analisa como a mobilização orgânica garantiu a virada no segundo turno e aponta os caminhos para organizar a classe trabalhadora no próximo período

Muitas pessoas caminham e balançam bandeiras vermelhas com o nome de Lula durante ato no Espírito Santo. Foto: Comunicação MAB ES
Manifestação durante a campanha eleitoral de 2026, no Espírito Santo. Foto: Comunicação MAB ES

As mobilizações pró-Lula, que tomaram as redes e ruas do país no segundo turno das eleições presidenciais de 2026, foram o fator determinante para reverter o cenário político e assegurar uma vitória histórica das forças populares. 

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva estimou a presença de mais de 1 milhão de pessoas na manifestação realizada na Avenida Paulista, São Paulo, no dia 11 de outubro, e de mais de 2 milhões de pessoas no ato de encerramento da campanha, em 24 de outubro, quando a caminhada ocupou 14 quarteirões. 

Diante de um primeiro turno marcado pelo avanço da extrema-direita e por articulações alinhadas a interesses conservadores e internacionais, a virada só se tornou possível quando a militância, a juventude e a diversidade do povo brasileiro assumiram o protagonismo da campanha nas ruas.

Para compreender a dimensão desse engajamento orgânico, os desafios de sustentação dessa base e as exigências colocadas ao novo governo, conversamos com Anderson Pedrini, educador popular no Centro de Educação Popular do Instituto Sedes Sapientiae. Pedrini acumula vasta experiência na articulação junto a organizações populares, sindicais e pastorais no Brasil e na América Latina.

Confira a entrevista na íntegra:

Anderson Pedrini: O engajamento orgânico e popular foi a questão central nesse processo das eleições, especialmente no segundo turno da eleição presidencial de 2026. Vemos uma diferença gigantesca entre o que representou o primeiro turno e o segundo turno; na prática, foram duas eleições distintas.

A militância e o povo brasileiro despertaram frente às ameaças colocadas pela extrema-direita e pelo fascismo ligado aos interesses imperialistas, encabeçados pela figura de Donald Trump, que fez uma articulação direta e centralizou energias na candidatura de Flávio Bolsonaro. Enfrentamos um inimigo articulado com a questão econômica, ideológica, midiática e militar, que utilizou a violência e o medo para tentar derrotar a candidatura de Lula.

Foto de rosto de Anderson Pedrini. Foto: Arquivo Pessoal
Anderson Pedrini, educador popular no Centro de Educação Popular do Instituto Sedes Sapientiae. Foto: Arquivo Pessoal

Eles obtiveram êxito no primeiro turno. No entanto, a mobilização e a ocupação das ruas, das redes e das urnas colocaram as forças populares em um patamar de vitória histórica. Foi um passo importantíssimo para assegurar as liberdades democráticas e os direitos conquistados, garantindo o tempo necessário para nos reorganizarmos em torno da soberania e da nossa democracia e organização popular.

Anderson Pedrini: Certamente, essa questão do que poderíamos perder é um componente fundamental para que as pessoas se mobilizem. Partimos, inclusive, da concepção de que nos movimentamos em vida ou pelo que podemos ganhar, ou pela possibilidade do que podemos perder.

Se nesse segundo turno ficou muito evidente que um grande engajamento, especialmente da juventude brasileira, que protagonizou especialmente os primeiros atos, que depois se massificaram com a diversidade desse nosso povo nos diversos cantos do país, colocou uma pauta muito concreta que seria a interrupção dos seus sonhos e da sua esperança para com o futuro. Então, esse medo, logicamente, foi um certo combustível de mobilização e de organização concreta das ruas no Brasil. É um componente fundamental.

Isso, logicamente, pode ser um terreno muito possível para que as organizações populares incentivem concretamente a diversidade de movimentos e a diversidade de organização para um próximo período. Mas um recado ficou muito claro: as redes hoje ocupam um espaço essencial dentro da discussão das nossas organizações populares. Precisamos entender como nos relacionamos com as mesmas, como nos engajamos e como percebemos o quanto isso já faz parte há alguns anos da vida cotidiana do povo brasileiro.

Multidão de pessoas durante ato em apoio à reeleição do presidente Lula na Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Ricardo Stuckert
Multidão de pessoas durante ato em apoio à reeleição do presidente Lula na Avenida Paulista, em São Paulo. Foto: Ricardo Stuckert

Ao mesmo tempo, é necessário combinar um debate que tem uma necessidade de se aprofundar, que é a questão de nos reinventarmos enquanto organizações, percebendo os anseios, percebendo os desejos, percebendo as vontades e percebendo como hoje a classe trabalhadora se mobiliza e se organiza para estar presente constantemente dentro do movimento popular.

É importante ocuparmos esse espaço da reinvenção e do diálogo com uma palavra essencial dentro da mobilização humana, que se chama futuro.

Anderson Pedrini: Acho que está colocado um desafio pleno para as organizações populares hoje no Brasil. Como retomar o seu protagonismo orgânico dentro das ruas e aproveitar esse recado que a sociedade brasileira nos deu de luta frente ao fascismo, de luta contra o retrocesso, de luta contra os conservadores? É entender os gritos que foram colocados nas ruas da sociedade brasileira e todo o empenho colocado, toda a energia, todo o processo de mobilização para que possamos nós, dentro desse processo, nos reinventarmos e pensarmos concretamente em nossos movimentos daqui para frente.

Entendemos que temos um importante e histórico trabalho de construção, temos referências importantíssimas de trabalho já realizado, de construções já feitas, mas como diria aquela música de Milton Nascimento: “se muito vale o já feito, mais vale o que será”.

Então, é mais do que necessário a gente ter disposição e abertura para entender o clamor das ruas e pensar concretamente como vai ser a organização popular do próximo período. Sem dogmas, sem vetos, mas colocando, escutando, se relacionando, vivendo, se inserindo, praticando, aprendendo e não esquecendo de se organizar para a gente seguir no rumo das mudanças, aproveitando esse momento histórico.

Anderson Pedrini: Penso que conseguimos avançar concretamente através da luta concreta, da mobilização intensa, realizada especialmente nesse segundo turno, uma construção ampla de uma mensagem do povo brasileiro. A grande mensagem, muito provavelmente, foi a palavra democracia.

Só que não foi uma democracia apenas ligada com a questão do voto eleitoral, do momento eleitoral, das urnas. Dentro dessa palavra democracia, apareceram palavras fundamentais dentro do processo do protagonismo popular, como direitos humanos, como mobilização, como não ao retrocesso, como não ao fascismo.

Acredito que isso sim, se demonstrou como um amadurecimento da luta nesse último período dentro da nossa história. Foram aí um pouco mais de 15, perto de 20 dias, que valeram por anos dentro da sociedade brasileira.

Por isso, mostra para nós uma primeira questão, acreditar concretamente na capacidade do povo brasileiro, que já deixa um recado muito explícito para os resultados eleitorais do primeiro turno, de que não vamos aceitar retrocesso; de que sim, é possível construir um forte programa de luta popular, dando o recado das ruas, dando o recado das redes, dando o recado das organizações frente a qualquer ameaça de retrocesso nesse período histórico. E coloca para nós também um entendimento fundamental de que existe uma política que podemos aproveitar dentro desse período histórico, que as pessoas toparam enfrentar concretamente o fascismo nas ruas.

Pessoas em caminhada durante ato nas ruas de Brasília. Algumas bandeiras do MAB aparecem na imagem. Foto: Comunicação MAB DF
População nas ruas durante campanha eleitoral em Brasília (DF). Foto: Comunicação MAB DF

É uma vitória para o Brasil, mas também no que tange aos ventos que são colocados do império na América Latina, que conseguiu resultados eleitorais em diversos países que flertam muito mais com um programa imperialista nesse momento da história.

O Brasil representa essa vitória que conseguimos construir por aqui, um importante espaço de freio, um importante espaço de defesa de uma ideologia mais progressista, à esquerda, que coloca a gente numa posição muito melhor para resistir e pensar um novo programa para a sociedade brasileira e latino-americana, um ponto de articulação, um ponto de referência, um ponto de unidade.

Então, nossa vitória representou uma questão fundamental dentro desse último período histórico.

Anderson Pedrini: Existem diversos riscos. Primeiro, que é de se lembrar: o candidato ligado ao imperialismo, ligado ao fascismo, conseguiu muitos votos. Conseguiu uma margem muito expressiva e que sempre vai ressaltar isso dentro do seu processo de mobilização.

Uma segunda questão importante é que eles conseguiram eleger diversos deputados e diversos senadores, o que nos coloca sempre em estado de alerta. É importante também lembrar que as relações que eles possuem, do ponto de vista internacional e nacional, possuem muita força. Têm diversos governadores e presidentes aliados em outros países.

Então, o nosso estágio de monitoramento, observação, cuidado e mobilização é constante e permanente. A nossa tarefa segue, inclusive a opinião concreta que estamos formulando e discutindo é que ou esse governo está nas ruas com as mobilizações, acenando para esse processo concreto, ou não há governo.

Mobilização de ribeirinhos durante a campanha eleitoral, no Amazonas. Foto: Jordana Ayres / MAB
Mobilização de ribeirinhos durante a campanha eleitoral, no Amazonas. Foto: Jordana Ayres / MAB

Se o governo Lula 4 representar algo fechado dentro do palácio, sem um diálogo e uma escuta permanente, sem uma relação concreta com os movimentos populares do Brasil e uma forte aliança de unidade mundial com outros países, o golpe é iminente e praticamente efetivo.

Então, é importantíssimo seguirmos monitorando o calor das ruas, produzindo e nos relacionando com esse calor, com esse processo de mobilização, para que possamos pensar concretamente em um governo ligado às forças populares, à escuta do povo brasileiro, e mais, pensar como é que a gente transforma esse Brasil.

É necessário pensarmos em um programa efetivo para que a gente, junto com o povo brasileiro, possa estimular uma unidade ampla, diversa e geral, para que construamos um Brasil do nosso povo.