Pesquisa revela como a organização coletiva fortalece a esperança de mulheres atingidas
Levantamento feito pela SOF mostra que a ação coletiva, além de enfrentar a sobrecarga e as violações de direitos, constrói redes de cuidado e alimenta a esperança de transformar a realidade
Publicado 22/07/2026 - Actualizado 23/07/2026

Foi lançada nesta terça-feira (21), a cartilha “Mulheres Atingidas: trabalho, cuidado e resistência”. O conteúdo é resultado da pesquisa “Sem Parar 2025: o trabalho e a vida das mulheres cinco anos depois da pandemia”, realizada pela Sempreviva Organização Feminista (SOF) e pela Gênero e Número, com apoio do Ministério das Mulheres, cinco anos após o início da pandemia de Covid-19.
De acordo com Bia Schwenck, socióloga, militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), da Sempreviva Organização Feminista (SOF) e coordenadora do projeto, o objetivo era compreender a dinâmica do trabalho remunerado, do trabalho doméstico e de cuidado não remunerado e a vida comunitária cinco anos após a pandemia. A iniciativa retoma o levantamento realizado em 2020 e atualiza o diagnóstico. A pesquisa possibilitou compreender os impactos desse período sobre o trabalho e a vida das mulheres organizadas no Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).
A construção do levantamento ocorreu em parceria com movimentos sociais, como forma de ampliar a participação de mulheres de diferentes regiões do país e fortalecer a produção coletiva de conhecimento sobre a realidade vivida pelas trabalhadoras. Também participam da iniciativa a Marcha Mundial das Mulheres, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (FENATRAD) e o Centro da Mulher Imigrante e Refugiada (CEMIR), que atua em São Paulo.
Realizada entre julho e agosto de 2025, a pesquisa ouviu 2.131 mulheres atingidas das cinco regiões do Brasil. Ao todo, 499 mulheres do MAB participaram do levantamento por meio de respostas virtuais e de entrevistas realizadas por militantes com companheiras dos grupos de atingidos. De acordo com Bia, o objetivo era compreender a dinâmica do trabalho remunerado, do trabalho doméstico e de cuidado não remunerado e a vida comunitária cinco anos após a pandemia.
Os dados referentes às mulheres do MAB podem ser acessados aqui.
O resultado da pesquisa também ajuda a compreender as condições específicas vivenciadas pelas mulheres atingidas. Em comparação com o conjunto geral das entrevistadas, as mulheres atingidas apresentam índices mais elevados de desemprego e uma presença significativa no trabalho informal, sem acesso pleno aos direitos trabalhistas.

Para Dani Höhn, da coordenação nacional do MAB, a pesquisa “Sem Parar 2025” ajuda a evidenciar uma realidade já identificada pelo Movimento: as mulheres estão entre as mais afetadas pela crise climática, pelo modelo energético e pelos crimes decorrentes desse modelo, que aprofundam desigualdades históricas de classe, raça e gênero. Os dados também expõem a sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidados, ainda majoritariamente assumido pelas mulheres, e impulsionam o fortalecimento da auto-organização das atingidas em diferentes níveis do movimento, além da ampliação do debate sobre trabalho produtivo e reprodutivo nos espaços mistos.
Para as mulheres atingidas, os impactos provocados por barragens, crimes socioambientais e eventos extremos causados pela crise climática alteram profundamente as dinâmicas familiares e comunitárias. O deslocamento forçado, a necessidade de reconstruir a vida após uma violação de direitos ou o enfrentamento de situações de trauma e violência ampliam as demandas de cuidado dentro de casa e na comunidade.
Esse cenário evidencia que ser uma mulher atingida significa enfrentar dificuldades tanto para ingressar e permanecer no mercado de trabalho, quanto para conciliar a geração de renda com as responsabilidades de cuidado. A sobrecarga com o trabalho doméstico e o cuidado de outras pessoas reduz o tempo e as possibilidades de inserção no mercado formal, aprofundando as condições de vulnerabilidade.
A pesquisa também aponta que a maioria das mulheres atingidas que foram entrevistadas são negras, trabalham no setor informal, possuem renda de até dois salários mínimos e exercem papel central na composição da renda familiar. Ao mesmo tempo, muitas são responsáveis pelo cuidado de outras pessoas, inclusive adultos saudáveis e sem deficiência.
Organização coletiva fortalece redes de cuidado e amplia a capacidade de transformação das mulheres
A pesquisa “Sem Parar 2025” também evidencia a força da organização coletiva na vida das mulheres e na construção de respostas para os desafios enfrentados no cotidiano. Para Bia Schwenck, uma das principais lições do levantamento está justamente na potência de uma produção de conhecimento construída em diálogo com os movimentos sociais, as comunidades e as universidades.
A elaboração coletiva da pesquisa demonstra que os movimentos populares também produzem conhecimento e constroem interpretações sobre a própria realidade. Com rigor científico e a partir das experiências concretas das mulheres, essa produção contribui não apenas para compreender as desigualdades, mas também para reunir elementos capazes de transformá-las.

Essa perspectiva esteve presente no Encontro “Mulheres Atingidas trocando experiências para fortalecer o acesso a políticas públicas”, realizado em maio de 2026, em Brasília (DF), quando os resultados da pesquisa foram apresentados. A reflexão construída a partir da atividade reforçou que as mulheres, organizadas coletivamente, produzem teoria e conhecimento sobre suas próprias experiências e fortalecem a capacidade de elaborar estratégias políticas para enfrentar as desigualdades e as violações de direitos.
Entre os principais aprendizados da pesquisa está também a necessidade de politizar o cuidado e reconhecer que ele não se limita às necessidades de crianças, pessoas idosas ou pessoas com deficiência. O cuidado atravessa a vida de todas as pessoas e envolve também adultos saudáveis e sem deficiência, incluindo dimensões como o carinho, o suporte emocional e a atenção cotidiana.
“Estar organizada, de fato, tem uma dimensão da política que a gente constrói, da agenda dos movimentos sociais, da reivindicação por direitos e da denúncia da violação de direitos, mas também representa, na vida das mulheres, respostas concretas”, afirma Bia Schwenck.
Um dos dados que mais chamou a atenção na pesquisa foi a relação entre organização coletiva, esperança e confiança. Embora as mulheres atingidas estejam submetidas a uma intensa sobrecarga e apresentem sinais de cansaço e adoecimento físico e emocional, elas demonstram níveis de esperança e confiança superiores à média das mulheres entrevistadas. Para Dani Höhn, o resultado revela a importância do movimento como espaço de escuta, apoio mútuo e construção coletiva de horizontes comuns, além de reafirmar a organização como instrumento de luta pela garantia de direitos e pela emancipação das mulheres.
“49% das mulheres do MAB indicam que têm muita esperança, muita confiança na organização. Isso, para nós, revela a importância da organização, e a gente fica muito feliz de saber que o MAB é essa possibilidade de escuta, é essa possibilidade do suporte mútuo, é essa possibilidade da construção coletiva, de horizontes comuns e da busca pelos direitos”, ressalta Dani.
Para Bia Schwenck, esse resultado está relacionado às redes de amizade, vizinhança e solidariedade construídas a partir da organização coletiva. Mais do que um espaço de reivindicação de direitos e denúncia de violações, os movimentos também criam espaços onde as mulheres podem dividir responsabilidades, compartilhar o cuidado e se reconhecer umas nas outras. “A gente se reconhece no coletivo e, no coletivo, constrói esse horizonte compartilhado de como pode ser uma vida melhor, uma vida menos desigual, uma vida livre de violência e de violação de direitos”, afirma.

A organização coletiva, nesse sentido, não representa apenas um espaço de reivindicação de direitos e denúncia de violações. Ela também produz respostas concretas para a vida das mulheres, fortalece redes de solidariedade e cria espaços de cuidado compartilhado. Ao se reconhecerem no coletivo, as mulheres constroem juntas um horizonte de uma vida menos desigual e livre de violências.
A pesquisa evidencia que o cuidado precisa ser melhor distribuído dentro das famílias, mas também compartilhado com o Estado, por meio de políticas públicas, e com as comunidades. Nesse sentido, os Grupos de Atingidos do MAB representam uma importante experiência de organização coletiva e um potencial para a construção de redes de corresponsabilização do cuidado.
“O cuidado precisa ser melhor dividido dentro das famílias, mas também com o Estado, por meio da oferta de políticas públicas, e com a comunidade. E esses grupos de atingidos territorialmente organizados do MAB são uma possível resposta para isso”, ressalta Bia.
Mais do que produzir um diagnóstico sobre a realidade das mulheres, a pesquisa “Sem Parar 2025” mostra que a organização popular é parte fundamental da construção de respostas para as desigualdades. Ao fortalecer vínculos, compartilhar responsabilidades e construir coletivamente conhecimento e estratégias de luta, as mulheres atingidas demonstram que a transformação da realidade também se constrói a partir dos territórios, da solidariedade e da ação coletiva.