Mulheres atingidas integram performance de Carolina Caycedo em exposição no MASP

Atividade reuniu pescadoras do Espírito Santo para denunciar os impactos da crise hídrica e da privatização dos rios sobre as populações atingidas

Integrantes do MAB participaram da exposição "Confluências". A mostra reúne obras produzidas em diálogo com comunidades atingidas por barragens e destaca a defesa da água, dos territórios e dos direitos das populações atingidas. Foto: Tamires Pinheiro / MAB
Integrantes do MAB participaram da exposição “Confluências”. A mostra reúne obras produzidas em diálogo com comunidades atingidas por barragens e destaca a defesa da água, dos territórios e dos direitos das populações atingidas. Foto: Tamires Pinheiro / MAB

No último sábado (04), mulheres do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) do Espírito Santo participaram da performance “Atarraya”, da artista Carolina Caycedo, que estreou a exposição “Confluências” na sexta-feira (03) no MASP, em São Paulo. A obra reúne vozes atingidas por barragens e projetos de canalização. 

Durante a performance, militantes do MAB retrataram as situações de crimes ambientais e dos desastres causados pela crise climática em diferentes regiões do país. Enquanto pescadoras do Espírito Santo lançavam uma rede de pesca, as narrativas evidenciavam as violações de direitos enfrentadas pelas comunidades, mas também sua resistência, organização e luta por reparação e justiça.

Para Clara Olblack, militante do MAB do estado de São Paulo, a participação na intervenção artística fortalece a denúncia das violações enfrentadas cotidianamente pelas populações atingidas e amplia a visibilidade da luta por direitos. 

“Enquanto as companheiras do Espírito Santo lançavam a rede de pesca, nós compartilhávamos relatos de mulheres atingidas por barragens, crimes ambientais e pela crise climática. Participar dessa performance é mais uma forma de denunciar as violações que sofremos cotidianamente, mas também de reivindicar nossos direitos e reafirmar que seguimos resistindo e lutando por eles”, afirmou. 

A indígena e pescadora Denny, do território do Rio Cricaré, em São Mateus (ES), destacou que participar da performance representou mais um passo na luta para romper o silêncio imposto às populações atingidas. “Foi a realização de um sonho. É mais uma forma de fazer nossa voz chegar ao Brasil e ao mundo, para que não calem as vozes das mulheres guerreiras que seguem defendendo seus territórios e seus direitos”, afirmou.

“Confluências” e sua conexão com comunidades atingidas por barragens

Na exposição, a artista visual Carolina Caycedo compartilha suas experiências e a profunda relação construída com o Movimento Rios Vivos da Colômbia. Desde 2016, Carolina tem se engajado com comunidades atingidas por barragens no Brasil, incluindo as de Mariana, Belo Monte e Itaipu. A artista destaca a importância de sua vivência nesses locais, onde teve a oportunidade de ver de perto os impactos socioambientais causados por essas obras. “Construímos uma relação de diálogo que se manifesta através de Arpilleras, vídeos documentais e performances”, explica Carolina. 

“Confluências” foi desenvolvida em diálogo com atingidos e atingidas de diversos países durante o 4º Encontro Internacional de Comunidades Atingidas por Barragens, Crimes Ambientais e Crise Climática, realizado em Belém, no ano passado. Carolina recolheu materiais como camisetas, bonés e bandeiras de diversas organizações que participaram do evento. “Esta obra é uma memória visual desse encontro histórico, que lançou um movimento internacional e simboliza a luta pela defesa dos territórios e da vida”, afirma.

A exposição destaca a água como um elemento central, explorando sua importância em diversas dimensões socioambientais. Dividida em três partes, a mostra aborda a relação da humanidade com esse recurso vital, refletindo sobre suas implicações sociais e culturais.

Na primeira seção, “Águas e Fluxos”, a água é apresentada como uma entidade que deve existir sem ser mercantilizada. Carolina Caycedo aborda os crimes da Vale, especialmente os desastres de Mariana e Brumadinho, enfatizando a luta de comunidades atingidas. A obra central, também chamada “Confluências”, reúne bandeiras, camisetas e cartazes de movimentos sociais, dispostos em espiral, simbolizando esperança e resistência na defesa dos direitos relacionados à água.

A segunda parte, “Minerais e Sementes”, amplia a discussão ao explorar a relação entre o capital, os minerais e a transição energética. A artista destaca a apropriação da água e de minerais como parte de um controle territorial. Durante a visita a este setor, encontramos a Arpillera “Semeadura”, produzida em parceria com Carolina Caycedo durante uma atividade na Pinacoteca, uma homenagem às mulheres que foram assassinadas ou criminalizadas por defender seus territórios e seus direitos.

Cada folha bordada na obra representa uma militante ou ativista, enquanto uma parede reúne desenhos com os rostos de algumas dessas mulheres. Entre elas, estão integrantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) vítimas de feminicídio e de outras formas de violência, além de lideranças de diferentes movimentos populares. A instalação reforça a denúncia da violência contra defensoras dos direitos humanos e preserva a memória de mulheres que transformaram a luta coletiva em instrumento de resistência.

A seção final da exposição reúne vídeos e performances que conectam a água à ancestralidade e ao conhecimento coletivo. A tarrafa, utilizada na performance “Atarraya”, aparece como símbolo da transmissão de saberes entre gerações, ressaltando a urgência de ações de proteção em relação à água e aos recursos naturais. Os relatos de pessoas atingidas por desastres socioambientais aparecem nos vídeos, refletindo sobre suas perdas e a luta por justiça.

Para a visitante Hilda Souto, a exposição provoca uma experiência intensa ao abordar os impactos da crise climática e da exploração dos recursos naturais. Segundo ela, Carolina Caycedo não apenas retrata esses temas, mas também se coloca como parte das realidades apresentadas em suas obras, evidenciando como as transformações ambientais afetam toda a sociedade. 

“É impressionante a transição que ela consegue fazer, as análises que ela consegue fazer entre, por exemplo, a matéria e o que acontece no mundo atualmente. Então, ela transformou isso quase em amuletos, em joias, onde a gente pode rever ali um significado. Ela nos convida a rever um significado em tudo isso que está acontecendo no planeta por meio da obra dela”. 

Luiza Faresin, militante do MAB do distrito de Itaúnas, em Conceição da Barra (ES) destacou que a exposição de Carolina Caycedo dialoga diretamente com a realidade das mulheres atingidas ao denunciar a permanência das violações e a invisibilização de seus territórios e modos de vida. Segundo ela, a aproximação entre arte, performance e organização popular fortalece a memória coletiva e amplia a denúncia sobre a ausência de justiça para as comunidades atingidas.

“A exposição traz a denúncia do crime socioambiental do rompimento da barragem de Mariana e dialoga diretamente com a luta das mulheres invisibilizadas em todo esse processo. Ela denuncia a perda da identidade das mulheres e a destruição de seus modos de vida”, ressaltou.

“Confluências” segue em cartaz no MASP até 04 de outubro. A exposição convida o público a refletir sobre a importância da água, não apenas como um recurso, mas como um símbolo de resistência e luta pela vida, destacando a necessidade urgente de defendê-la em um contexto de exploração e mercantilização.