El Niño intensifica crise climática com alerta de temporais no Sul e seca no Norte

Enquanto estados do Sul enfrentam volumes históricos de chuva e risco de desastres, comunidade de Rondônia sofre com a escassez de água e depende de ações estruturais

No Rio Grande do Sul, os bairros mais atingidos pelas enchentes em 2024 foram aqueles historicamente periféricos, habitados majoritariamente por famílias de baixa renda. Foto: Francisco Proner / MAB
No Rio Grande do Sul, os bairros mais atingidos pelas enchentes em 2024 foram aqueles historicamente periféricos, habitados majoritariamente por famílias de baixa renda. Foto: Francisco Proner / MAB

As previsões climáticas para a segunda quinzena de julho acenderam um alerta na Região Sul do Brasil. Sob a forte influência do fenômeno El Niño, os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina devem registrar chuvas fortes e ventos intensos nos próximos dias, segundo dados da empresa de meteorologia Climatempo.

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o transporte de umidade do interior do continente em direção ao território gaúcho favorecerá a formação de nuvens carregadas. Além das precipitações volumosas, a atuação de ventos intensos em diferentes níveis da atmosfera pode propiciar a ocorrência de fenômenos severos, como tornados isolados.

O período mais crítico será entre sábado (18) e domingo (19). A previsão aponta para tempestades severas, com risco de tornados e rajadas de vento acima de 90 km/h. Há também previsão de granizo e acumulados de chuva, que podem passar dos 250 milímetros nas regiões Oeste e Centro do estado. 

Diante do risco iminente de novos eventos climáticos extremos, a Defesa Civil emitiu um alerta para o risco de cheias e alagamentos urbanos devido à intensidade das chuvas previstas para o estado. Rios como Quaraí, Ibirapuitã, Rosário do Sul, Ibicuí, Jaguari, Vacacaí e Jacuí devem registrar elevações significativas. 

O órgão deu início a ações preventivas de emergência, reforçando a estrutura logística com o envio de ajuda humanitária. Além disso, equipes do Departamento de Gestão de Desastres estão sendo reposicionadas estrategicamente nas regiões Sul, Campanha e Fronteira Oeste.

Até o final de semana, a principal ameaça para a região se concentra na forma de vendavais e temporais rigorosos. O cenário, no entanto, tende a se agravar a partir de segunda-feira (20), quando o volume acumulado de água passa a ser a principal preocupação. As projeções indicam que, entre os dias 16 e 25 de julho, diversas áreas gaúchas devem registrar marcas acumuladas de 200 a 400 milímetros, elevando drasticamente o risco de deslizamentos, enxurradas e transbordamento de rios.

Para Alexania Rossato, integrante da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), as previsões atuais trazem à memória a tragédia vivida pelos moradores do Rio Grande do Sul em 2024, quando as grandes enchentes resultaram na morte de mais de 180 pessoas e deixaram outras 25 desaparecidas.

“A lembrança das grandes enchentes de 2023 e 2024 ainda é muito forte em todos nós, e o trauma volta à tona toda vez que aparecem essas previsões do tempo. Nas comunidades e bairros onde o MAB tem organização, os atingidos estão em alerta e muito preocupados, pois não há garantias das prefeituras e da defesa civil para o resgate das famílias, de seus pertences e onde seriam abrigados, caso venha ocorrer nova enchente ou destruição das moradias pelo vendaval e granizo”.

Ela pontua ainda que a vivência dos últimos anos preparou a população um pouco melhor e o próprio movimento popular para enfrentar os eventos extremos da crise climática. “Mas cabe ao Estado fazer os alertas mais precisos e com mais antecedência, organizar estruturas de recolhimento e transporte dos pertences das famílias, fazer o salvamento das pessoas e animais domésticos e prever e manter estruturas de abrigamento, com segurança a todas as famílias.”

Segundo Alexania, depois de mais de dois anos da grande enchente de 2024, e depois de muito investimento público do Governo Federal no estado do Rio Grande do Sul, as comunidades ainda não estão protegidas e seguras o suficiente. “Cabe a pergunta: o que será da população do estado, especialmente os trabalhadores pobres, depois deste super El Niño?”, questiona.

Moradora de Roca Sales, uma das cidades mais afetadas pelas enchentes do Rio Grande do Sul em 2023 e 2024, Jaqueline Oliveira compartilha do sentimento de Alexania.

“Então, sempre quando dão essas notícias de chuva, de cheia, de vento, a gente fica sem dormir. A gente fica meio perdida, se sente meio confusa com essa situação, porque você não sabe se de noite, se de dia, como é que vai ser, a preocupação com os filhos e com as outras pessoas. Então, é bem triste, bem confuso para a gente que já passou por tudo isso, e cada vez vem mais”, lamenta.

Cidade de Roca Sales (RS) atingida pelas enchentes em 2024. Foto: Prefeitura de Roca Sales
Cidade de Roca Sales (RS) atingida pelas enchentes em 2024. Foto: Prefeitura de Roca Sales

Com a possibilidade de ser afetada novamente pelo clima extremo, ela já se prepara para o pior. “Estou com caixas, sacos, tudo já mais ou menos arrumado, documentos, as minhas crianças. Porque se precisar sair com emergência, vou levar o que eu conseguir; primeiro meus filhos, que são pequenos, e aí o que eu conseguir levar de roupa, se eu conseguir levar mais alguma coisa, porque eu moro em área de risco”, afirma Jaqueline.

Para acompanhar os alertas da Defesa Civil do Rio Grande do Sul, basta acessar os links abaixo:

https://www.defesacivil.rs.gov.br/inicial

https://www.instagram.com/defesacivilrs

Bloqueio atmosférico concentra umidade

Essa condição crítica no Sul será alimentada por um corredor de umidade vindo da Região Norte do país. Como o Centro-Oeste e o Sudeste estarão sob a influência de um bloqueio na atmosfera, o mau tempo não conseguirá avançar e ficará concentrado na porção meridional do país. 

Devido a esse bloqueio, o sol deve continuar predominando no Paraná e em Santa Catarina, impedindo o avanço de instabilidades mais intensas e provocando uma elevação gradual das temperaturas à tarde, especialmente no Oeste de ambos os estados.

Nas demais regiões do país, o cenário se desenha de forma diversa. No Nordeste, as instabilidades se intensificam no litoral devido à entrada de umidade na Região Leste, potencializada por uma frente fria posicionada sobre o Oceano Atlântico.

No Sudeste e Centro-Oeste, o clima segue majoritariamente firme e seco. Enquanto que no Norte, o tempo abafado e a alta umidade mantêm condições propícias para pancadas de chuva constantes no Amazonas, Roraima e Pará. Já no Acre, Rondônia, Amapá e Extremo Norte de Tocantins, a previsão é de precipitações rápidas e dispersas.

O impacto da seca e a luta por estrutura em Rondônia

No Norte do país, os efeitos do El Niño e o avanço da crise climática têm impactado de forma severa a rotina em Rondônia, estado que enfrentou secas em 2023 e 2024. Klézi Martins, da coordenação nacional do MAB em Rondônia, relata que a comunidade Brasileira, localizada na zona rural do distrito de São Carlos, em Porto Velho, sofre diretamente com as consequências da estiagem.

Rio Madeira registra queda no nível da água, cenário que preocupa comunidades ribeirinhas e aumenta os impactos da crise climática. Foto: Klézi Martins / MAB
Rio Madeira registra queda no nível da água, cenário que preocupa comunidades ribeirinhas e aumenta os impactos da crise climática. Foto: Klézi Martins / MAB

“Aqui em Rondônia, já estamos sentindo o efeito da crise climática, agravada agora pelo El Niño”. Martins explica que, no início do ano, a região enfrentou enchentes que atingiram a comunidade Brasileira e, principalmente, a vizinha Boca do Jamari. 

A situação geográfica da comunidade Brasileira, situada no encontro dos rios Jamari e Madeira, agrava a instabilidade. “No Rio Jamari, há a usina de Samuel; e no Rio Madeira há duas usinas, que são a Santo Antônio e a Jirau. Então, é uma comunidade fortemente atingida e que vive nessa instabilidade climática causada também pela abertura das comportas das usinas”, detalha.

Durante o período de estiagem, o problema se inverte. A maior parte das moradias da comunidade fica no braço direito do Rio Madeira, trecho que seca com maior rapidez. “Isso causa o isolamento e a falta de água, pois é uma comunidade que não tem acesso fácil à água por não ter poços artesianos lá. E os poços que existem sofrem contaminação por conta da instabilidade da própria comunidade, que em um período está cheia e alagada e depois está seca de novo”, aponta Martins. A falta de água afeta o consumo humano, a produção agrícola e a pesca de subsistência, principal atividade econômica local.

Cobrança por medidas definitivas

Enquanto as soluções definitivas não são implementadas, o movimento mantém canais de diálogo com a Defesa Civil e a prefeitura de Porto Velho, além de ter solicitado cestas de alimentos ao Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar.

Diante da seca prevista para 2026, o MAB tem atuado na cobrança de medidas estruturais junto ao poder público. O movimento acompanha o andamento de uma Ação Civil Pública que condenou as esferas municipal, estadual e federal a criarem um plano de longo prazo para as comunidades atingidas. “Para que não haja apenas entrega de água e cesta de alimentos nessas situações de emergência. É preciso um plano estruturante para que as comunidades tenham uma estrutura para lidar com essas situações de maneira mais efetiva”, reforça Martins.

Com o avanço decorrente das mobilizações após a seca de 2024, a comunidade Brasileira será uma das contempladas pelo projeto Saneando Amazônia. A iniciativa busca viabilizar a instalação de banheiros com fossas, filtros e sistemas de captação de água da chuva e do rio. “Isso já surge como uma ação concreta por meio da luta e da organização do movimento, como um fruto do trabalho para os atingidos, e representa um passo importante que estamos dando”, conclui o coordenador.