Submersa na impunidade: crime continuado da UHE Jirau sufoca o Alto Madeira há 12 anos
Contaminação crônica, laudos ignorados e o silenciamento de um distrito inteiro expõe como o lucro da hidrelétrica se sustenta sobre a violação permanente dos direitos dos atingidos do distrito de Abunã, em Porto Velho (RO)
Publicado 09/07/2026

O impacto das grandes hidrelétricas na Amazônia vai além da construção. Ele continua mesmo após o desligamento dos tratores e o início da operação das turbinas. No Distrito de Abunã, localizado em Porto Velho (RO), o término da construção da Usina Hidrelétrica (UHE) Jirau deu início a um segundo capítulo, ainda mais doloroso, para a população local. Atingidos da região denunciam que as violações de direitos humanos tornaram-se diárias, silenciosas e cumulativas.
A manutenção e o aumento das cotas de inundação da usina, especialmente a operação na cota de 90 metros, mantêm a comunidade em uma espécie de exílio em sua própria terra, sob constante ameaça de alagamento e sem o devido remanejamento ou qualquer compensação justa.
Para compreender a gravidade do cenário atual, é preciso voltar no tempo. O divisor de águas na história de Abunã ocorreu em 2014, ano da cheia histórica do Rio Madeira. Ainda em 2016, um relatório técnico decisivo da Agência Nacional de Águas (ANA) constatou oficialmente que o vilarejo foi diretamente afetado pela “cota de remanso” – limite de altura que a água pode atingir rio acima – do reservatório de Jirau. Na ocasião, a ANA determinou que a concessionária da hidrelétrica deveria remover e reassentar todos os moradores do Distrito de Abunã para um novo local ou indenizar as famílias, além de ser obrigada a elevar trechos da rodovia BR-364.


À época, a empresa Energia Sustentável do Brasil esquivou-se da responsabilidade, alegando que suas obrigações não incluíam o remanejamento da população do distrito. Mais de 10 anos após a cheia e uma década depois do relatório da ANA, o que os órgãos públicos chamavam de “processo demorado” converteu-se em abandono crônico. As famílias que não tinham para onde ir continuam no local, herdando a lama e a negligência.
A inundação silenciosa e as ruas submersas em sedimentos
Diferente das cheias sazonais que sobem e descem, a dinâmica imposta pela usina alterou permanentemente a geografia local. As ruas do distrito, que até 2014 eram firmes e cascalhadas, foram tomadas por espessas camadas de sedimentos trazidos pela força represada do rio. Hoje, a cada nova chuva, essas vias se tornam completamente intrafegáveis e alagadas por longos dias.
Abaixo do solo, o lençol freático subiu de forma definitiva e foi contaminado pelos dejetos e pela água represada. Sem saneamento, os quintais mantêm poças permanentes onde proliferam insetos e doenças. Relatos referentes ao cenário em 2014, como o de moradores sofrendo com coceiras e feridas na pele após o contato com a água, persistem até hoje. Os poços artesianos, antes fontes de vida, viraram focos silenciosos de contaminação gastrointestinal.
Além do avanço da água sob as casas, o lago da usina cresce sorrateiramente. A área alagada se expande continuamente sobre a floresta nativa. O crime socioambiental é agravado pela falha da concessionária em realizar a supressão adequada da vegetação antes do enchimento do reservatório.

Milhares de árvores foram afogadas em pé, gerando imensos “paliteiros” de troncos mortos que apodrecem lentamente debaixo d’água. De acordo especialistas, essa decomposição crônica da matéria orgânica emite grandes quantidades de gases nocivos à natureza, como o metano e o gás sulfídrico. O fenômeno agrava o efeito estufa na região amazônica, destrói o que resta da qualidade da água e exala um forte odor de podridão que torna o ar de Abunã quase irrespirável para os moradores das redondezas.
O fim da economia local e o isolamento forçado
A ruína de Abunã também é econômica. Logo após o desastre de 2014, as terras agrícolas tradicionais da região, saturadas pelo lençol freático alto, perderam a capacidade de produzir. O símbolo máximo desse colapso foi o fechamento definitivo de um frigorífico recém-inaugurado no distrito em 2014, que foi engolido pela crise da cheia e desempregou mais de 200 trabalhadores locais de uma só vez.
Esse esvaziamento econômico é retroalimentado pelo isolamento. Alagamentos recorrentes atingem as estradas de acesso à região, interrompendo o fluxo da BR-364 e da BR-425. Sem estradas trafegáveis, os poucos pequenos agricultores e pescadores que restaram não conseguem escoar sua produção. O direito à educação é violado quando os ônibus escolares não passam nas vias inundadas, e o direito à saúde vira uma odisseia arriscada sempre que um morador necessita de socorro médico urgente em Porto Velho.
A flutuação artificial do nível do Rio Madeira, gerada pelas regras de operação da usina, acelerou dramaticamente o fenômeno das “terras caídas”. Quintais e frentes de casas inteiras continuam desmoronando rio adentro, forçando os moradores a abandonarem suas residências às pressas com medo de desabamentos noturnos. Sem indenizações prévias ou assistência, vizinhanças antes povoadas viraram fantasmas de madeira e concreto rachado.
Para as comunidades tradicionais ribeirinhas e de pescadores de Abunã, a dor é também cultural. O Ministério Público Federal (MPF) aponta continuamente a falta de compensações adequadas. A destruição dos ecossistemas locais inviabilizou a pesca artesanal, empurrando as populações tradicionais para uma situação de insegurança alimentar severa e para o apagamento forçado de seus modos de vida.

Diante do cenário de abandono secular, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) segue organizando a resistência dos atingidos de Abunã, exigindo as ações de remanejamento apontadas pelos laudos técnicos desde 2016. Paralelamente, o MPF atua em Rondônia para barrar quaisquer novos aumentos nas cotas de operação da usina, até que as famílias recebam reparações justas e reassentamentos dignos.
Enquanto a burocracia e os anos correm, o povo de Abunã segue retirando a lama de suas casas, lutando para que a sua própria existência não seja permanentemente submersa pelo reservatório de Jirau.