Militante do MAB relata experiência em missão interceptada por Israel rumo a Gaza
Beatriz Moreira foi recebida por familiares, amigos e apoiadores da causa palestina em Belém (PA) e reafirmou que a luta por uma Palestina livre segue viva
Publicado 29/05/2026 - Actualizado 29/05/2026

“Volto para Belém em segurança, com a minha família para me acolher, mas certa de que o trabalho só começa agora”. A frase foi uma das primeiras ditas por Beatriz Moreira ao desembarcar em Belém, sua cidade natal, após integrar a missão de solidariedade internacional da Flotilha Global Sumud rumo à Faixa de Gaza. Recebida por familiares, amigos, militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e apoiadores da causa palestina, a paraense retornou ao Brasil trazendo na bagagem os relatos de uma das maiores ações civis internacionais organizadas nos últimos anos para romper o bloqueio imposto por Israel ao povo palestino.
Dias antes, Beatriz havia deixado para trás os navios-prisão, as ameaças, as detenções e as cenas de violência que testemunhou após a interceptação da flotilha em águas internacionais. Agora, de volta à Amazônia, fala da experiência como quem retorna de uma missão concluída, mas não encerrada.
“O objetivo central da missão ainda é um horizonte. Mas consideramos que ela foi vitoriosa porque trouxe novamente para o centro do debate internacional a questão palestina”, afirmou.
Ao reencontrar sua terra natal, Belém, Bia falou sobre a missão, as violências vividas durante a interceptação da flotilha e o significado político do retorno. Em ato político na tarde desta quinta-feira (28) a militante descreveu a experiência como uma das expressões mais concretas da solidariedade internacional que já viveu.
“Nós carregávamos ajuda humanitária. Medicamentos, alimentos, água, materiais escolares. Mas carregávamos também pessoas preparadas para ajudar na reconstrução de Gaza quando conseguíssemos alcançar nosso objetivo”, contou.

A missão partiu de Barcelona e navegava rumo ao território palestino quando foi interceptada por forças israelenses em águas internacionais. Segundo a militante, o objetivo principal da flotilha, que era construir um corredor humanitário permanente para Gaza, ainda não foi plenamente alcançado. Mas ela avalia que a iniciativa cumpriu um papel fundamental.
“O objetivo central da missão ainda é um horizonte. Mas consideramos que ela foi vitoriosa, porque trouxe novamente para o centro do debate internacional a questão palestina”, disse. Ao longo do depoimento, Bia descreveu Gaza como o retrato de um projeto colonial sustentado pela violência, pelo bloqueio e pela desumanização de um povo inteiro.
“Hoje Gaza vive um sufocamento intencional. Um sufocamento político pautado na superioridade racial de um povo sobre outro”, afirmou. Segundo ela, a experiência permitiu compreender, ainda que por um curto período, parte do que milhares de palestinos enfrentam há décadas. “O que nós vivemos foi muito pouco perto do que passa cada cidadão e cidadã palestina nos territórios ocupados”.
Durante o relato, Beatriz também denunciou as condições enfrentadas pelos participantes da missão após a interceptação dos barcos. Ela afirmou que centenas de ativistas foram transferidos para embarcações utilizadas como centros de detenção improvisados e, posteriormente, levados para instalações israelenses. “Havia fome, frio, humilhação, privação de higiene. Estávamos amontoados. Fazia muito frio. Dormíamos uns sobre os outros”, contou.

Segundo a militante, alguns dos episódios mais graves ocorreram em uma das embarcações utilizadas para deter participantes da missão. “Existiram casos de violência muito graves. Pessoas ficaram extremamente debilitadas”.
Mas foi nos centros de detenção que uma cena passou a sintetizar o significado humano da experiência. “Nas paredes havia inscrições em árabe. As companheiras que conseguiam ler diziam que eram mensagens de mães para suas filhas, de filhas para suas mães. Mensagens de amor e resistência”.
Ali, segundo Beatriz, compreendeu com mais profundidade o sentido da missão. “Foi a primeira vez que chorei na prisão. Porque percebi que o que estávamos fazendo não era por nós”.
A militante lembrou que, atualmente, milhares de palestinos seguem encarcerados em prisões israelenses e denunciou o que classificou como um sistema permanente de violência e perseguição contra o povo palestino. “Pouco importa o que aconteceu conosco, quando existem milhares de presos políticos palestinos sofrendo todo tipo de tortura”.
A solidariedade que volta para os territórios
Ao retornar ao Brasil, Beatriz afirmou que a missão não termina com a chegada dos ativistas aos seus países de origem. Para ela, o desafio agora é transformar a experiência da flotilha em organização popular, formação política e solidariedade concreta nos territórios. “A gente precisa voltar para os nossos territórios e construir solidariedade de baixo para cima, das raízes.”
Integrante da coordenação nacional do MAB e atuante na Amazônia, a militante relacionou a luta do povo palestino às violações enfrentadas por comunidades atingidas por barragens, povos tradicionais e populações que convivem com diferentes formas de expropriação e violência. “É impossível falar sobre a libertação de um povo sem falar sobre a libertação dos povos aqui do nosso lado. Cada uma das nossas lutas está conectada por um fio invisível.”
Segundo ela, a experiência reforçou a importância das ações diretas não violentas e da mobilização internacional diante do que considera ser o maior genocídio do nosso tempo. “O que mais me preocupa é quando o sofrimento vira rotina. Quando ver imagens de pessoas morrendo se transforma apenas em mais um vídeo passando na tela”.
Ato em São Paulo reuniu integrantes da flotilha
Antes de retornar ao Pará, Beatriz participou de um ato realizado em São Paulo, ao lado de outros integrantes da delegação brasileira da Global Sumud Flotilla. A atividade reuniu movimentos populares, organizações internacionalistas, apoiadores da causa palestina e participantes da missão recém-libertados.
Durante o encontro, os ativistas compartilharam relatos da travessia, denunciaram as violações cometidas durante a interceptação das embarcações e reafirmaram o compromisso de seguir denunciando o bloqueio imposto à Faixa de Gaza. Registros divulgados pelas organizações que acompanharam a missão destacaram que a mobilização internacional foi decisiva para pressionar pela libertação dos participantes sequestrados por Israel.
A atividade também marcou o reencontro público de parte da delegação brasileira após os dias de prisão e incomunicabilidade. Entre abraços, bandeiras palestinas e palavras de ordem, o sentimento compartilhado era de que a missão segue viva para além do Mediterrâneo.
“Os palestinos não precisam ser salvos por alguém. Eles ensinam a todos nós o que é resistência. Foi por isso que navegamos. Para construir resistência e solidariedade ao povo palestino, que segue resistindo bravamente ao maior genocídio do nosso tempo”, reforçou a militante do MAB durante a atividade em São Paulo.