Após pressão internacional, integrantes da Global Sumud Flotilla começam a ser libertados
Mobilização internacional, pressão diplomática e denúncias de violações de direitos humanos forçaram Israel a anunciar a deportação dos integrantes da missão humanitária. Entre os sequestrados está Beatriz Moreira, militante do MAB
Publicado 21/05/2026

Após mais de 72 horas sem contato com familiares, advogados e organizações de direitos humanos, os integrantes da Global Sumud Flotilla, sequestrados pelas forças militares de Israel em águas internacionais, devem começar a ser libertados nesta quinta-feira (21). A informação foi confirmada oficialmente pelo grupo Adalah, Centro Jurídico para os Direitos da Minoria Árabe em Israel, responsável pelo acompanhamento jurídico dos detidos.
Segundo comunicado divulgado pela coordenação da flotilha, os tripulantes sequestrados serão deportados em voos com destino a Istambul, na Turquia, ao longo da tarde desta quinta-feira. A libertação ocorre após intensa pressão internacional envolvendo organizações populares, movimentos sociais, autoridades diplomáticas, parlamentares, governos e entidades de direitos humanos de diferentes países.
Entre os sequestrados está a militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Beatriz Moreira, integrante também do Movimiento de Afectados por Represas (MAR). Desde o início da interceptação da missão humanitária, o MAB vinha denunciando a ilegalidade da operação israelense e cobrando do governo brasileiro atuação diplomática contundente pela libertação imediata dos ativistas.
A denúncia foi reforçada pela Coordenação Nacional do MAB, que cobrou do governo brasileiro e da comunidade internacional uma ampliação urgente da pressão diplomática contra Israel. Segundo a nota divulgada pelo movimento, os tripulantes foram levados à força ao porto de Ashdod, na Palestina ocupada, após o sequestro de todas as 52 embarcações da flotilha humanitária.
Nas últimas horas, a pressão internacional aumentou. Governos de países como Itália, França, Países Baixos e Canadá convocaram os embaixadores de Israel, em suas capitais, para expressar indignação diante do tratamento dado aos integrantes da flotilha sequestrados pelas forças israelenses.
O governo brasileiro também endureceu o tom das críticas. Em nota oficial divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty condenou o tratamento degradante imposto aos participantes da Global Sumud Flotilla, e afirmou acompanhar com preocupação as denúncias de violações de direitos humanos cometidas contra os ativistas detidos. O governo brasileiro também reiterou a necessidade de respeito ao direito internacional e às garantias humanitárias básicas dos integrantes da missão.
Israel ameaçou ativistas com prisão marcada por tortura no deserto
A situação dos ativistas gerou preocupação internacional diante das denúncias de violência psicológica, humilhações públicas e ameaça de transferência para o centro de detenção de Ktzi’o, prisão militar localizada no deserto do Neguev e conhecida internacionalmente por denúncias recorrentes de tortura, superlotação, violência física e tratamento degradante contra palestinos e presos políticos.
Organizações de direitos humanos apontam que o complexo se tornou símbolo da política israelense de encarceramento em massa da população palestina. A ameaça de transferência dos integrantes da flotilha para a prisão provocou forte reação de movimentos internacionais e entidades humanitárias.
A escalada de violência ganhou novos contornos após a divulgação, pelo ministro da Segurança Nacional de Israel, o extremista Itamar Ben-Gvir, de vídeos nos quais integrantes da missão aparecem submetidos a humilhações públicas e tratamento vexaminoso. As imagens exibem homens e mulheres desarmados, médicos e ativistas humanitários sendo expostos como troféus políticos após terem sido capturados, fora de terras e águas israelenses, em uma missão civil de solidariedade internacional.
O vídeo reproduz a própria lógica colonial que sustenta o cerco contra Gaza. Não se trata apenas de deter pessoas. Trata-se de transformar a humilhação em espetáculo político, desumanizando aqueles que ousaram romper o silêncio internacional diante do massacre palestino.
A situação dentro do sistema prisional israelense também se agravou nos últimos dias. Segundo informações divulgadas pela rede internacional Al Jazeera, ao menos 87 integrantes da Global Sumud Flotilla iniciaram uma greve de fome em protesto contra as detenções ilegais, as condições de encarceramento e a ausência de garantias básicas de direitos humanos.
O ato extremo denunciou ao mundo a violência empregada pelo Estado israelense contra uma missão civil, pacífica e humanitária, que tinha como objetivo romper o bloqueio imposto a Gaza e levar ajuda ao povo palestino.
Não são terroristas, tampouco carregavam armas
A missão da Global Sumud Flotilla tinha caráter humanitário e pacífico. As embarcações levavam alimentos, medicamentos, materiais de construção e painéis solares para comunidades palestinas submetidas ao bloqueio israelense. Segundo organizadores, mais de 3 mil pessoas participaram da mobilização internacional, distribuída em cerca de 150 embarcações.
Antes de embarcar, Beatriz Moreira explicou os motivos que levaram a missão a seguir rumo a Gaza, mesmo sob ameaça constante de ataques militares. “Nosso objetivo é furar o bloqueio ilegal do regime sionista sobre as terras palestinas e entregar para essas comunidades comida, medicamentos, material de construção e painéis solares para a reconstrução desse povo”, afirmou a militante do MAB.
Em outro vídeo gravado antes da interceptação, Bia descreveu o sentido político e humano da missão.
“Há quase oito décadas, o povo palestino enfrenta o mais perverso regime de dominação do nosso tempo histórico. Pela fome e pelo fogo, massacram comunidades inteiras, mulheres, crianças e civis desarmados. Nós embarcamos nessa missão por convicção, porque acreditamos na libertação do povo palestino, mas também por amor. Enquanto eles têm ódio e as armas, nós temos todo o resto”, disse Beatriz Moreira.
Desde 2007, Israel mantém um bloqueio terrestre, marítimo e aéreo sobre a Faixa de Gaza, restringindo drasticamente a circulação de pessoas, alimentos, medicamentos e combustível. Nos últimos meses, organizações humanitárias internacionais têm alertado para o aprofundamento da fome, da destruição da infraestrutura civil e do colapso completo das condições de vida no território palestino.
A libertação dos ativistas acontece em meio ao crescimento da pressão diplomática internacional e da denúncia global contra as violações de direitos humanos praticadas por Israel. Para o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e demais organizações envolvidas na campanha internacional de solidariedade à Palestina, a mobilização popular e a pressão internacional foram decisivas para impedir o agravamento da situação dos sequestrados.
O MAB segue cobrando a responsabilização internacional do governo israelense pelas violações cometidas contra a missão humanitária.