Encontros de mulheres debatem violações de direitos e crise climática em todo o Brasil

Com o apoio da Fiocruz, MAB pesquisa como as inúmeras violações afetam a saúde das mulheres atingidas por barragens, megaprojetos e eventos extremos

Mulheres atingidas do Pará expressam solidariedade internacional à Cuba, Venezuela e Palestina no encontro estadual. Foto: Jordana Ayres / MAB
Mulheres atingidas do Pará expressam solidariedade internacional à Cuba, Venezuela e Palestina no encontro estadual. Foto: Jordana Ayres / MAB

Os primeiros meses de 2026 não trouxeram apenas o anúncio de um novo ano, mas a efervescência da articulação das mulheres organizadas no Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Entre dezembro de 2025 e março deste ano, 10 estados realizaram encontros estaduais de mulheres, com o objetivo de intensificar a organização, promover a troca de experiências entre diferentes regiões e elaborar um diagnóstico coletivo sobre as violações de direitos que enfrentam em seus territórios.

No Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul e Pará, as atividades são frutos de uma parceria do MAB com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que visa promover o trabalho cooperado entre o Movimento e a Fundação. Clara Oblack integra o Coletivo Nacional de Mulheres do MAB e explica que a parceria vem sendo construída há alguns anos. Ela aponta que “o projeto contribui no acesso aos mecanismos e políticas públicas, especialmente quando se trata de temas como proteção e saúde das mulheres atingidas”.

Segundo Clara, a iniciativa é um avanço importante para o MAB, porque através dela “conseguimos garantir processos de formação e diálogo sobre as violações de direitos que nós, enquanto mulheres atingidas, sofremos. Além disso, esses espaços têm sido fundamentais no fortalecimento da Política Nacional dos Atingidos por Barragens (PNAB) e na construção de territórios mais seguros e saudáveis”, destaca.  

De acordo com Roseli Rocha, do Instituto Fernandes Figueira, da Fiocruz, a cooperação tem como objetivo construir, de forma participativa, junto às mulheres organizadas no MAB, a compreensão de que a saúde das mulheres está diretamente relacionada às violações de direitos provocadas por megaprojetos, pelas mudanças climáticas e pelo sistema de exploração vigente. “A relação entre capitalismo, patriarcado e racismo é amplamente debatida nos coletivos de mulheres, que refletem sobre como essas estruturas influenciam na Determinação Social da Saúde das mulheres atingidas e pela crise climática”, afirma.

A pesquisadora da Fiocruz, Roseli Rocha, promoveu o debate em alguns encontros. Foto: Marcos Souza / MAB
A pesquisadora da Fiocruz, Roseli Rocha, promoveu o debate em alguns encontros. Foto: Marcos Souza / MAB

Roseli é uma das pesquisadoras do projeto que percorreu estes estados, conhecendo as mulheres atingidas. “A experiência de ir aos territórios, nos encontros de mulheres, têm revelado alguns elementos comuns, e dentre eles destacamos o sofrimento compartilhado em virtude das múltiplas expressões da violência contra as mulheres. Temos entendido a importância de fortalecer o conhecimento e os coletivos organizados de mulheres na luta por direitos e reparação”, declara.

Para ela, são espaços como estes encontros que fortalecem a compreensão de que a saúde das mulheres e a justiça social só podem ser pensadas de forma coletiva. “O sofrimento vivido é social e se manifesta, entre outras formas, na violência contra as mulheres, impactando sua saúde mental, vínculos e participação social. Ainda assim, é na organização coletiva que surgem caminhos para enfrentar essas realidades.”

Na Bahia, atingidas abrem exposição de Arpilleras e lançam livro de Flávia Amboss

Em Salvador, o encontro foi realizado no dia 11 de março e incluiu na programação a abertura da exposição Arpilleras: Mulheres Atingidas Bordando Direitos, na Biblioteca Central da Universidade Federal da Bahia (UFBA). A exposição reuniu 22 peças produzidas por mulheres atingidas por barragens de diversas regiões do estado, e a abertura contou com a presença de atingidas que participaram de uma visita guiada, compartilhando os significados de seus bordados. As obras permaneceram em exibição na Biblioteca até o dia 18 de março.

Abertura da exposição de arpilleras na Universidade Federal da Bahia e lançamento do livro de Flavia Amboss. Foto: Marcos Souza / MAB
Abertura da exposição de Arpilleras na UFBA e lançamento do livro de Flavia Amboss. Foto: Marcos Souza / MAB

Durante o encontro das atingidas da Bahia, também foi realizado o lançamento do livro Imprensados no tempo da crise: a gestão das afetações no desastre da Samarco (Vale e BHP Billiton), da pesquisadora e militante do MAB, Flávia Amboss. A obra analisa os processos de gestão das consequências sociais e humanas do rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em Mariana (MG), em 2015. Flávia era professora e foi uma das vítimas fatais do atentado neonazista em uma escola na cidade de Aracruz (ES). 

Camilla Brito, membro da Coordenação Nacional do MAB, avalia: “Para nós, mulheres atingidas da Bahia, é extremamente significativo lançar o livro de Flávia durante uma exposição de Arpilleras. A própria autora escreveu sobre essa técnica e sempre contribuiu ativamente para a construção da luta das mulheres atingidas. Por isso, esse lançamento é tão simbólico e nos permite refletir sobre memória, reconhecimento e a importância de seu legado em um espaço que também expressa esses valores”, destaca.

Mulheres gaúchas em luta por segurança alimentar

As atingidas do Rio Grande do Sul se encontraram nos dias 11 e 12 de março para o encontro estadual que reuniu cerca de 30 mulheres. Durante os dois dias, as participantes debateram sobre patriarcado, gênero e violência, e como estes temas se relacionam à crise climática e à Determinação Social da Saúde das mulheres.

O encontro também foi ocasião para debater as pautas prioritárias das mulheres no Estado e elencar as principais denúncias das violações sofridas pelas atingidas no estado. A pesquisadora Martha Moreira contribuiu na assessoria do encontro, pautando a saúde das mulheres atingidas e provocando para a ampliação do conceito de saúde, a partir da determinação social.

“A saúde precisa ser pensada de forma ampla, na perspectiva coletiva, como processo social que localiza as pessoas na sociedade, como distribuição – quem pode viver, quem pode comer, quem pode morrer e quem pode esperar – e a partir das desigualdades produzidas pelo sistema capitalista, patriarcal e fascista”, alertou a pesquisadora.

No Rio Grande do Sul, o encontro incluiu a assembleia dos atingidos, que teve como pauta central a garantia da segurança alimentar, e foi concluído com uma marcha ao Palácio do Piratini, sede do governo do estado, para cobrar do governador ações em relação às outras pautas das populações atingidas pelas enchentes de 2024.

Em Minas, atingidas participaram da Marcha das Mulheres

Mulheres atingidas de Minas Gerais foram às ruas no 8 de março, em Belo Horizonte. Foto: Nívea Magno / MAB
Mulheres atingidas de Minas Gerais foram às ruas no 8 de março, em Belo Horizonte. Foto: Nívea Magno / MAB

Em Minas Gerais, cerca de 80 mulheres, de diferentes regiões do estado, se reuniram entre os dias 6 e 8 de março de 2026, em Itatiaiuçu, para o Encontro Estadual de Mulheres Atingidas. A atividade contou com debates sobre conjuntura, mudanças climáticas e seus impactos na vida das mulheres, além de temas como patriarcado, violência e relações de poder. A programação incluiu ainda momentos de formação e trabalhos em grupo, com destaque para a participação da deputada estadual Beatriz Cerqueira (PT) e de pesquisadoras da Fiocruz. Também houve atividades culturais, como a oficina de Arpilleras, prática que articula memória, denúncia e resistência.

Como parte da programação, as participantes se deslocaram para Belo Horizonte, onde participaram da Marcha das Mulheres, no dia 8 de março, com concentração na Praça Raul Soares. O ato reuniu movimentos sociais, organizações e a população em geral em defesa dos direitos das mulheres. A presença das mulheres atingidas reforçou a denúncia das violações vividas nos territórios e a reivindicação por direitos, evidenciando a articulação entre organização popular e mobilização nas ruas.

Atingidas da Amazônia contra a crise climática

Abaetetuba acolheu o encontro de mulheres do Pará, no último fim de semana. Foto: Jordana Ayres / MAB
Abaetetuba acolheu o encontro de mulheres do Pará. Foto: Jordana Ayres / MAB

Reunidas nos dias 28 e 29 de março, as atingidas do Pará debateram os efeitos da crise climática no território amazônico e o impacto sobre suas vidas, aprofundando as discussões sobre feminismo popular, os impactos do patriarcado e a determinação social da saúde das mulheres atingidas.

A programação também incluiu momentos dedicados às Arpilleras como ferramenta histórica de denúncia e luta das atingidas. O evento reuniu companheiras das regiões do Baixo Tocantins, Tocantins-Araguaia, Tapajós, Xingu e Região Metropolitana de Belém, contando também com a participação das pesquisadoras Roseli Rocha e Martha Moreira, da Fiocruz. O encontro também foi ocasião para avançar na construção do Plano do Coletivo Estadual de Mulheres, reafirmando o compromisso com a vida das mulheres atingidas e com a Amazônia.