Arpilleras denunciam a realidade das mulheres atingidas em exposição no Sesc Tijuca
A exposição “Tecendo Histórias – arte têxtil latino-americana” é gratuita e pode ser visitada até o dia 14 de junho no Rio de Janeiro
Publicado 20/04/2026

O bordado foi, por séculos, tido na sociedade como uma espécie de ofício menor, superficial ou sem importância, ‘coisa de mulher’. Desde 2013, ele se tornou ferramenta importante para a organização das mulheres atingidas por barragens ou desastres socioambientais no Brasil e meio essencial para apresentarem suas realidades. Nas Arpilleras, a juta acolhe as denúncias bordadas fio a fio por mãos que têm seus direitos sistematicamente violados e fazem de cada peça um retrato de suas lutas.
A exposição Tecendo Histórias – arte têxtil latino-americana, no Sesc Tijuca, no Rio de Janeiro (RJ), explora os bordados, costuras e tecidos como meios de construção de narrativas, de memória coletiva e de resistência na América Latina. A mostra apresenta seis arpilleras produzidas pelas mulheres atingidas do Brasil: Direitos Já! e Tratores Famintos, produzidas pelo Coletivo Nacional de Mulheres do MAB; Mulheres Atingidas por Barragens em Luta pelo Projeto Popular, das mulheres de Belo Horizonte (MG); e Construir Barragens não é a solução, Luta e Resistência e A Paz que Nós Lutamos, que foram bordadas pelas mulheres atingidas de São Paulo.
A iniciativa é promovida pelo Instituto Artistas Latinas e propõe uma imersão nas várias tramas que a arte têxtil desenvolve nos territórios latinoamericanos, com participação direta de representantes da Argentina, Brasil, Chile, Guatemala e Peru. Segundo Francela Carrera, curadora da exposição, a arte têxtil vive hoje um momento de destaque nas artes visuais e é uma ferramenta poderosa de expressão política.
“Antes considerada uma arte menor, agora ganha força não apenas pela dimensão estética, mas também pelo sentido político que incorporou”, afirma ela. “Por isso, quis reunir mulheres latino-americanas que, em suas pesquisas artísticas, utilizam tecidos, fios, teares e bordados como meios de reflexão crítica também”, explica a curadora.
Ferramentas de organização e luta

Foto: Victória Holzbach / MAB

Foto: Victória Holzbach / MAB
Entre as seis arpilleras expostas, estão duas produzidas por mulheres atingidas por barragens no Vale do Ribeira, uma extensa área de Mata Atlântica que abrange o sul de São Paulo e norte do Paraná. Nas peças A Paz que Nós Lutamos e Construir Barragens não é a solução, as mulheres organizadas no MAB denunciam a falta de acesso às políticas públicas e direitos básicos, destacando a ausência de luz elétrica de qualidade, além de equipamentos e serviços públicos adequados na área da saúde e da educação. As peças também destacam o direito dos atingidos e atingidas em dizerem não às obras de barragens planejadas na região e a diferença entre a realidade sonhada e a realidade temida, a partir da construção e operação das barragens.
Historicamente, as mulheres atingidas por barragens e por eventos extremos da crise climática sofrem impactos particularmente mais graves, enfrentando maiores dificuldades para recompor seus meios e modos de vida, enquanto suas necessidades específicas seguem sistematicamente ignoradas. No entanto, inseridas no MAB, essas mulheres desempenham um papel ativo e fundamental na organização da luta das populações atingidas. Por meio das Arpilleras, elas não apenas registram e denunciam o padrão de violações que vivenciam, mas também transformam essa ferramenta de denúncia em um convite e em uma possibilidade concreta de tecer, coletivamente, a organização e a força política das mulheres.
Suelen da Silva Sousa, da coordenação do MAB no Rio de Janeiro, acredita que ocupar espaços como este da exposição é fundamental como forma de apresentar a realidade das mulheres em todo o Brasil.
“Nessa exposição estamos ao lado de outras artistas da América Latina, mostrando a produção coletiva das mulheres atingidas e denunciando as violações provocadas pelo modelo de desenvolvimento, que integram um padrão de atingir as periferias e os corpos femininos.” Para Suelen, “a exposição internacionaliza a luta do MAB e fortalece o protagonismo feminino, visibilizando quem historicamente foi invisibilizada. Além disso, é uma conquista política que sensibiliza o público sobre as denúncias e os anúncios que as mulheres atingidas colocam em cada peça”, pontua.
Além de visitar a exposição na capital fluminense, você também pode conhecer as Arpilleras que compõem a mostra no acervo virtual do MAB, que hoje conta com cerca de 200 peças produzidas desde 2013 em todo o Brasil.