PERFIL | Moñeka Dioro: uma voz das águas do pacífico
Do coração do Pacífico à Amazônia, Moñeka Dioro carrega a voz do povo Chamorro na defesa da água, da vida e da soberania das ilhas ameaçadas pela crise climática e pela ocupação militar
Publicado 11/11/2025 - Actualizado 11/11/2025

Foram dois dias de viagem das Ilhas Marianas até Belém do Pará, no Brasil. Moñeka Dioro chegou com o filho de um ano nos braços para participar do IV Encontro Internacional de Comunidades Atingidas por Barragens e Crise Climática, realizado entre os dias 07 e 12 de novembro, na região amazônica, em paralelo à Cúpula dos Povos e à COP 30.
Logo no início da conversa, Moñeka cantou um cântico tradicional de seu povo – os Chamorro -, das Ilhas Marianas, na Micronésia, que pede aos ancestrais proteção e sabedoria. “Sou uma mulher do povo Chamorro, antes de tudo. Nós somos o povo indígena das Ilhas Marianas, um pequeno arquipélago no meio do Pacífico, ocupado hoje pelo Império Americano”, contou.
Ela é educadora, mãe e organizadora comunitária. Desde 2019, atua na Aliança para as Mudanças Climáticas da Micronésia (MCCA), que integra a Global Grassroots Justice Alliance (GGJ). “É uma grande honra me conectar com as pessoas do Movimiento de Afectados por Represas (MAR), aqui no Brasil, e ser a primeira mulher da Oceania a participar deste Encontro Internacional”, disse.
As ilhas de onde vem Moñeka são pequenas – a maior tem cerca de 100 km² – e, segundo ela, a água é um bem sagrado. “Somos um povo do oceano. A água doce que temos é tão importante e preciosa porque precisamos dela para viver. Por isso, proteger nossos pequenos rios e nosso aquífero é essencial”, afirmou.
Mas a tarefa não é simples. As Ilhas Marianas foram palco de guerras, ocupações e treinamentos militares que deixaram marcas profundas. “Nossas terras e águas estão contaminadas. Sofremos com níveis altos de toxicidade devido às armas e às atividades militares dos EUA. Nossa população está doente, é uma violência colonial que persiste”, denunciou.
Para enfrentar essa realidade, Moñeka e sua organização desenvolvem projetos de educação e autossustentação. “Temos feito exposições de arte, campanhas de conscientização e instalado sistemas de captação e filtragem de água para que nossas comunidades não dependam das concessionárias”, explicou.
Sua militância começou há quase 20 anos, impulsionada pela maternidade e pelas histórias de sua própria família. “Venho de uma linhagem de curandeiros e líderes políticos. Quero dar continuidade a essa tradição de servir ao meu povo; luto pela desmilitarização, pela paz e pela soberania indígena do povo Chamorro”, afirma Moñeka.

Moñeka também é professora de história, estudou arqueologia, medicina tradicional e aprendeu com navegadores ancestrais. Para ela, o conhecimento dos antepassados é um guia essencial diante da crise climática. “Nossa cultura se baseia em inafa maolek ou harmonia. Meus ancestrais sabiam viver em equilíbrio com a natureza, e é esse equilíbrio que precisamos recuperar.”
No encontro em Belém, ela encontrou afinidades com as lutas de povos atingidos por barragens em todo o mundo. “Ouvir as experiências da África, da América Latina e da Ásia me ajudou a entender que a energia hidrelétrica, muitas vezes apresentada como solução, também destrói vidas e territórios”, refletiu. Apesar da longa viagem e das dificuldades de estar com um bebê pequeno, Moñeka diz ter se sentido acolhida no evento. “Foi muito bonito ver o cuidado das pessoas, a comida, o espaço da Ciranda para as crianças. Tudo isso me deu força”, contou.
De volta ao Pacífico, ela carrega o desejo de seguir conectada à luta global pela justiça climática e pela paz. “Nossas comunidades enfrentam a contaminação nuclear, a elevação do nível do mar e a militarização crescente da Ásia-Pacífico. Precisamos ser vigilantes e pedir paz ao mundo. Se a guerra se tornar inevitável, será impossível proteger a Mãe Terra”, alertou.
Para Moñeka, a força dos povos está em manter a esperança e o amor pela vida. “Venho de um povo que aprendeu a cuidar uns dos outros. Em ilhas pequenas, onde a água e a comida são escassas, conseguimos garantir que todos sejam alimentados e que haja abundância para as próximas gerações. Essa é a verdadeira segurança”, disse.
Ao final da entrevista, ela relembrou o significado do cântico com que iniciou a conversa: “Ele pede aos nossos ancestrais que nos guiem e nos protejam. Espero que possamos ser os bons ancestrais que nossos filhos precisam que sejamos.”
