É possível não misturar política e futebol?

Após reprovação a Neymar, torcedores questionam se as pessoas devem criticar o jogador na copa por causa do seu posicionamento nas eleições

Com sede no Catar, a vigésima segunda edição da Copa do Mundo teve início no dia 20 de novembro de 2022, após apenas duas semanas de uma das eleições mais importantes da história brasileira, que resultou na vitória de Lula (PT) sobre o atual presidente Jair Bolsonaro (PL). Sendo assim, é natural que as emoções populares diante do período eleitoral respinguem sobre o campeonato mundial de futebol, o que se reflete nas críticas sofridas por Neymar Jr., craque da seleção, em consequência do seu controverso posicionamento político.

Conhecido como “país do futebol”, o Brasil carrega o maior número de vitórias no campeonato: 5 no total, sendo o único país participante de todas as copas do mundo na história. Não tem como falar de Copa sem falar de Brasil e não tem como falar do Brasil sem falar de futebol. Com todas as suas contradições, o esporte está enraizado no cotidiano dos brasileiros. Somos ensinados desde cedo que devemos amar o futebol e a Copa faz com que até os menos entusiasmados pelo esporte parem para acompanhar os clássicos. Dessa forma, a competição se tornou um evento que, sobretudo, une as pessoas e motiva desconhecidos a entoarem juntos o hino nacional e a colorirem as ruas com o verde e amarelo. Que faz vizinhos pintarem a bandeira nas calçadas, que reúne a família e os amigos na sala de casa para acompanharem juntos os jogos e se emocionarem com os resultados da seleção.

Foto: Chung Sung / Getty Image

 Aos 30 anos de idade, Neymar já construiu uma carreira de excelência e coleciona inúmeras vitórias por todo o mundo, sendo considerado o melhor jogador do Brasil em atividade. Não à toa, o menino Ney – como costuma ser chamado por seus admiradores – já apareceu duas vezes como o 3º melhor jogador do planeta no ranking da FIFA. Revelado no Santos Futebol Clube e ovacionado pela sua “ousadia e alegria” no time brasileiro, Neymar joga atualmente no Paris Saint German, na França, após uma gloriosa passagem pelo Barcelona, na Espanha, com diversos títulos importantes e uma vida de astro.

Apesar do fim do Ministério do Esporte em 2019, dos cortes de mais de 36% de verba previstos no Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) de 2023 para o segmento esportivo, a redução do Bolsa Atleta, os mais de 700 mil mortos em decorrência da pandemia da Covid-19, os mais de 33 milhões de famintos no país e diversos outros fatores que marcam o Governo Bolsonaro, Neymar fez questão de declarar seu voto e apoio ao atual presidente. Não suficiente, o menino da vila se engajou na campanha para reeleição de Bolsonaro e chegou a prometer que festejaria gols na copa com símbolos que representam os números do presidente. Sendo Neymar a personalidade mais midiática da seleção, é justo dizer que ele também carrega a culpa pela dificuldade de se despolitizar o uniforme do Brasil, que segue sendo alvo de repulsa de parte da população.

 Imagem: Reprodução/Instagram/Jair Bolsonaro

Não é necessário ser um expert em futebol para afirmar que Neymar é um dos maiores jogadores da atualidade. Seu voto não atravessa seu desempenho maestral em campo, mas vale lembrar que eleição não é a única razão para o jogador carregar esse asco vindo dos torcedores, aliás, o menino Ney não gera antipatia somente de torcedores brasileiros. Comportamento egoísta ou agressivo com técnicos, árbitros, outros jogadores e até torcedores marcaram a sua carreira. Sem falar de todas as polêmicas fora de campo, incluindo a sonegação de impostos.

Com isso, entendo que entre as opções: 1. ser ovacionado na Copa por causa do seu talento, apesar das eleições, e 2. ser criticado na Copa, por causa das eleições, apesar do seu talento; a segunda opção me parece mais justa. Se Neymar Jr. prefere homenagear Jair Bolsonaro após um gol durante um jogo na Copa, é natural que parte dos torcedores prefira ver somente um jogador como Richarlison, defensor de pautas científicas, sociais e ambientais, brilhando em campo. É inegável a importância de Neymar para a seleção, porém é fundamental que o povo tenha memória, mesmo que isso incomode aos muitos que o amam.

Então, nada melhor para o Brasil que o menino Ney se recupere bem, volte a jogar o mais rápido possível, nos ajude a conquistar o hexa e continue sendo duramente criticado pelos seus posicionamentos irresponsáveis nas eleições.

*Marcos Souza é estudante de jornalismo e militante do MAB na Bahia.

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