Atingidos denunciam enchente de rejeitos de mineração na Ilha do Rio Doce, em Caratinga (MG)

Em reunião organizada pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e pela Associação de Moradores do Residencial Ilha do Rio Doce com a Defensoria Pública de Minas Gerais foi discutida a situação de abandono de cerca de 450 famílias

Na tarde da última quinta-feira (13), integrantes da comunidade Ilha do Rio Doce, localizada em Caratinga (MG), realizaram uma reunião com a Defensoria Pública de Minas Gerais (DPMG) para denunciar a situação do bairro há seis anos atingido por enchentes que trazem rejeitos da mineração através das águas do Rio Doce. Após o alagamento da comunidade que deixou centenas de famílias desabrigadas nas últimas semanas, o rio voltou a descer, expondo a lama tóxica lançada no Rio Doce após o rompimento da Barragem de Fundão, de propriedade da Samarco (Vale / BHP Billiton) em novembro de 2015. Na ocasião, foram despejados cerca de 60 milhões de metros cúbicos de resíduo da mineração que percorreram mais de 620 km de curso d’água na Bacia do Rio Doce até alcançar o Oceano Atlântico.

Hoje, as mais de 450 famílias que moram na Ilha do Rio Doce ainda amargam os efeitos do assoreamento do rio. “A cada ano, mais uma parte da comunidade é alagada e recebe rejeitos que são despejados nas ruas e nas casas, virando poeira que contamina o ar e prejudica saúde de todos”, explicou Kelvin Kenneddy, estudante de direito e integrante da Associação de Moradores da Ilha, durante a reunião.

Lama com rejeitos de minério trazida pelas inundações na Ilha do Rio Doce, em Caratinga.

Segundo o morador, sua casa – que fica na parte alta da comunidade – foi atingida neste ano de forma mais intensa do que em 2020. “Na última vez, a água veio até a metade da janela. Agora faltaram quatro centímetros para cobrir o primeiro andar”, denuncia.

Kelvin é uma das lideranças atingidas que organizam as iniciativas de solidariedade e acolhimento das centenas de pessoas afetadas em meio às fortes chuvas. A maioria dos desabrigados foram acolhidos nas poucas casas não atingidas, ou em empresas instaladas nas proximidades. Algumas pessoas ainda seguem dormindo em barracas de lonas improvisadas. Não há, entretanto, uma ação organizada de acolhimento dos desabrigados, seja por parte das mineradoras responsáveis pelos rejeitos, ou pela Prefeitura de Caratinga, cuja sede fica a cerca de 100 km da comunidade.

“O prefeito veio aqui, fez algumas promessas, mas não anunciou nenhuma medida efetiva. Enquanto isso, as ações de solidariedade organizadas pela própria comunidade, que tem feito a doação de mantimentos, são anunciadas como se fossem ações do poder público”, denuncia Luiz Silveira, outra liderança da Associação de Moradores.

MAB se articula com defensoria pública para garantir direitos b´ásicos da comunidade

A defensora pública Carolina Morishita, que é integrante do Núcleo Estratégico para a Proteção de Vulneráveis em Situações de Crise, ouviu atentamente as informações e demandas da comunidade durante a reunião e se comprometeu a dialogar com a Defensoria de Caratinga para oficiar o poder público em dois pontos principais. Conforme discutido na reunião, as demandas prioritárias incluem caminhões pipa para a limpeza das casas (nos anos anteriores não houve qualquer auxilio neste sentido, apesar das promessas) e caminhões apropriados para a limpeza das fossas, um grande problema neste contexto, considerando-se que a comunidade não tem acesso ao serviço de saneamento básico.

Thiago Alves, integrante da coordenação do MAB, reforçou a importância destas medidas emergenciais após as inundações. “Nesta fase, muitos problemas se complicam e muitos diretos são violados e a sociedade esquece destes atingidos. O MAB, que é a comunidade organizada no seu protagonismo, vai continuar articulando um acompanhamento sistemático da defensoria e outras instituições para garantir o direito básico a políticas públicas na comunidade”, comentou.

O Movimento também fará uma campanha regional de coleta de materiais de limpeza, fraldas infantis e geriátricas e leite para crianças de até um ano para doação para famílias da Ilha do Rio Doce e outras comunidades atingidas. “Agora vem o momento da limpeza pesada em meio ao rejeito e à poeira. Estamos juntos para ajudar nesta fase e já pensando em como vamos organizar a comunidade para cobrar estudos independentes sobre a qualidade da água, do solo e do ar, também com a ajuda da defensoria”, conclui o coordenador.

Em nível nacional, o MAB está realizando a CAMPANHA DE SOLIDARIEDADE para as famílias atingidas do Brasil com o intuito de amenizar a situação das milhares de famílias atingidas pelas fortes chuvas, rompimentos e abertura das comportas de várias barragens. O objetivo é converter as doações em ajuda humanitária e organizativa para os atingidos e atingidas de forma emergencial.

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