Em Rondônia, “greve do leite” denuncia prejuízos de pequenos agricultores

Segundo movimentos populares do campo, o preço sugerido pelo governo do estado não paga os custos de produção

A “greve do leite” no estado de Rondônia já dura 40 dias. Desencadeada inicialmente em alguns municípios como Machadinho do Oeste, distritos de Porto Velho e União Bandeirantes, a motivação são os baixíssimos preços pagos pelos laticínios aos produtores no litro do leite.

Em vários municípios, as manifestações organizadas pelos movimentos (MPA, MST e MAB) aconteceram por meio da doação da produção de leite, que não foi entregue às grandes empresas e, sim, diretamente às famílias urbanas.

As entregas ocorreram nos municípios de Nova União, Ouro Preto do Oeste, Ji-Paraná, além de Machadinho do Oeste, Teixeirópolis, Alta Floresta, Mirante da Serra, Alto Paraíso, Tarilândia, Vale do Anari, Ariquemes, Cabixi, Colorado, Alto Alegre dos Parecis.

A pequena produtora Leila Denise, que mora em Ariquemes e é da direção do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e da Via Campesina, comenta que “sem o fim do monopólio das grandes empresas e sem políticas públicas de incentivo à produção de alimentos que melhorem a distribuição de renda, a crise do preço dos alimentos e, especialmente do leite, seguirá à mercê do mercado”.

A paralisação ganhou força por todo o estado nos últimos 10 dias, mas a luta dos camponeses pelo preço justo pago na produção do leite e pela produção é antiga.

Para a Via Campesina Rondônia, o “desfecho proposto pela Assembleia Legislativa e governo do estado em exigir somente que o laticínio traga no rodapé da nota o preço mínimo a ser praticado no próximo mês não resolve a questão. É preciso garantir a compra institucional dos alimentos produzidos pela agricultura camponesa familiar, incluindo o leite e seus derivados, inclusive priorizando as pequenas agroindústrias, como PAA e PNAE, criar linhas de crédito rural no âmbito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), além de instituir o Programa de Atendimento Emergencial a Agricultura Familiar (PAE-AF), entre outras medidas que estão propostas no PL 823/21 a fim de amparar as famílias camponesas e mitigar os impactos socioeconômicos advindos da crise”.

Trabalhadoras e trabalhadores do campo e da cidade aderiram e manifestaram apoio à greve em um cenário de crise atual que se aprofunda, com a má gestão do governo federal em relação à pandemia da Covid-19, desemprego crescente, desvalorização do salário mínimo, corte no auxílio emergencial, inflação no preço dos alimentos nos mercados, a situação de insegurança alimentar, além da fome, e a morte.

Além disso, outros fatores de agravamento da situação: aumento da conta de energia, da gasolina, do gás, de insumos veterinários e agrícolas, ao mesmo tempo que ocorre uma total desvalorização do preço da produção e o abandono da agricultura camponesa familiar pelos governos federal e do estado de Rondônia, que deixaram de fora das políticas públicas o pequeno e médio trabalhador rural, encarecendo a produção e a vida das famílias no campo, trazendo prejuízos, enquanto a fome no país avança a cada dia.

Um exemplo do descaso é a Lei Assis de Carvalho (antigo PL 735) com medidas emergenciais para subsidiar a agricultura camponesa familiar e que foi vetada por Bolsonaro no ano passado e voltou à Câmara novamente como o PL 823/21, uma alternativa para desacelerar o agravo dessa crise social, sanitária e econômica, fortalecendo a produção de alimentos para mesa dos nossos povos.

Em razão de todo o exposto, os movimentos sociais do campo e entidades que compõem a Via Campesina em Rondônia manifestaram apoio à greve do leite em nota publicada na semana passada, e com a adesão de camponeses e camponesas de sua base em todo o estado.

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