Uma “primavera feminista” no outono: saiba como foi o 2º Encontro Nacional de Mulheres do MAB

Evento reuniu cerca de 400 atingidas de diferentes regiões do país em debate sobre os desafios e as conquistas das lutas das mulheres do movimento

Apesar do outono, o sábado (24) para o MAB teve cara de primavera. Foi realizado, durante a tarde, o Encontro Nacional das Mulheres do MAB. O encontro foi virtual, porque ainda estamos em meio à pandemia, e contou com a presença de mais de 400 atingidas por barragens de todos os recantos desse país onde floresce também a luta, o protagonismo e a organização das mulheres.

Participaram também do encontro representantes de organizações de países que constroem o Movimento dos Afetados por Represas (MAR), mulheres das organizações da Plataforma Operária e Camponesa da Água e da Energia (POCAE), parlamentares nacionais e estaduais e outras parceiras e aliadas do MAB.

Foi um momento simbólico e histórico, no marco da celebração dos 30 anos do movimento e dos dez anos desde o 1º Encontro Nacional das Mulheres do MAB.

Neste sábado (24), celebramos e fortalecemos nossa auto-organização, debatemos o balanço da participação das mulheres na luta e na construção do MAB, analisamos os elementos da política atual com a contribuição da ex-presidenta Dilma e apontamos os desafios para a luta e a construção do feminismo popular.

Foi bonito ver companheiras das regiões norte, nordeste, sul e sudeste em depoimentos sobre a presença efetiva, afetiva, histórica e atual das mulheres nas lutas e com as bandeiras levantadas pelo movimento. Foi emocionante ver duas jovens que, desde o início de suas vidas a partir da Ciranda, estão nas fileiras do MAB ao lado dos pais, e seguem firmes e animadas na construção de um projeto de país mais justo e soberano.

Por meio de um resgate do histórico da construção da organização das mulheres atingidas, Ivanei Farina Dalla Costa, da coordenação nacional do MAB, contou que as mulheres sempre estiveram ativas na construção do movimento, mas sempre enfrentam desafios maiores para se organizarem em uma sociedade que é capitalista, racista e patriarcal.

Ivanei destacou quais são as principais violações de direitos que as mulheres sofrem durante a construção das barragens e apontou como o protagonismo das mulheres no movimento é essencial para enfrentar essa situação.

Participações

O encontro contou com a presença da ex-presidenta Dilma Rousseff. A participação de Dilma é bastante simbólica porque em abril de 2011, no 1º Encontro Nacional das Mulheres Atingidas por Barragens, Dilma recebeu as mulheres atingidas no Palácio do Planalto em Brasília. Naquela ocasião, foi apresentada uma pauta com reivindicações dos atingidos e atingidas. Dilma, então com quatro meses de mandato como presidenta, se comprometeu a continuar com o diálogo.

Na tarde deste sábado (24), Dilma fez uma análise de conjuntura sobre a situação difícil que o Brasil atravessa. Para a presidenta, os governos do PT foram exitosos em distribuir renda por meio de programas sociais. No entanto, enfatiza que isso é diferente de distribuir a riqueza, e que envolve alterar algumas questões estruturais do Brasil, como a questão da terra e do patrimônio, e que quando seu governo tentou tocar nessas questões, contrariou interesses poderosos.

“O que caracteriza o genocídio é o desleixo, omissão, incúria e ignorância de deixar morrer uma parte da população”, afirma Dilma Rousseff ao se referir a Bolsonaro.

Para Rousseff, a aprovação do Teto de Gastos, logo após o golpe que a derrubou, também é um fator que contribui para tornar mais difícil o combate à pandemia.

A presidenta afirmou que o fato de Lula ter voltado à cena política representa uma “luz no fim do túnel” e altera a correlação de forças a favor das forças populares.

“Os neoliberais não querem se livrar de Bolsonaro, porque eles ainda esperam novas reformas”, afirma, e cita como exemplos a privatização dos correios, o fatiamento da Petrobras e a privatização da Eletrobras.

Dilma reconheceu a importância da participação do MAB na luta social do Brasil, além da luta específica dos atingidos, e reafirma alguns desafios que visualiza para a conjuntura: “Nosso caminho é de formação e organização política de um lado e de grandes mobilizações de outro”.

Gleise Hoffmann, deputada federal e presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, em saudação às mulheres, relembrou Paulo Freire ao falar que em 2022 nossa tarefa é “esperançar o Brasil”, referindo-se ao processo eleitoral que está por vir. Ela também agradeceu o movimento pela luta e presença na vigília Lula Livre, que ocorreu por mais de 500 dias, no período da prisão do presidente Lula, em Curitiba.

Soniamara Maranho, da coordenação do MAB, apresentou os desafios do momento histórico das mulheres para o próximo período, entre eles, a manutenção da auto-organização das mulheres para fortalecimento do MAB em todo o Brasil, o monitoramento da conjuntura, a continuação na luta pela construção de um projeto energético popular, onde as tarifas de energia sejam acessíveis à população, e luta contra qualquer tipo de privatização junto com as demais forças de esquerda do país, construindo a unidade nacional, a defesa da soberania e da democracia e o feminismo popular.

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