Extração de Lítio ameaça água e famílias da região do Vale do Jequitinhonha, em MG

Região do nordeste de Minas Gerais, tem sido cada vez mais alvo de empreendimentos minerários. Segundo estudos do projeto Avaliação do Potencial de Lítio no Brasil, que corresponde a um estudo detalhado da região do médio rio Jequitinhonha, há indicativos de que lá se encontram 85% das reservas de lítio do Brasil

Marcha do FAMA. Foto: Guilherme Cavalli/Cimi

O Lítio é um elemento mineral da natureza e é considerado como o petróleo do futuro. Ele pode ser utilizado na produção de baterias de carros e ônibus elétricos, além de baterias para telefones celulares e tablets. O mineral que se concentra na região do Vale do Jequitinhonha é considerado suficiente para abastecer o Brasil nos próximos 20 anos com potencial máximo. No entanto, o país não possui tecnologia ou interessados para dar prosseguimento na sua cadeia produtiva. Hoje as empresas retiram a Rocha Bruta da região e transformada em Concentrado de Lítio, para ser exportado e transformado nos demais processos em outros países, principalmente a China.

Cadeia Produtiva Apresentada pela SIGMA:

Fonte: SIGMA. Apresentação Prefeitura.

Nos projetos e estudos realizados pela empresa SIGMA Mineração na Área de Influência Direta da exploração, na cidade de Itinga, as comunidades Taquaral Seco, Ponte do Piauí, Poço Dantas e o Distrito de Taquaral de Minas, no raio de 1,5 km da Àrea Determinda ao empreendimento serão as mais afetadas. Foram analisadas e identificadas com 27 propriedades onde totalizam 73 moradores, sendo 38 do sexo masculino e 35 do sexo feminino, contando também com crianças e idosos que vivem dentro da área. A partir desses projetos serão realizadas mudanças no traçado da malha viária, aumentando o percurso e afetando principalmente a comunidade Piauí Poço Dantas, que está acima do empreendimento. 

Na cidade de Araçuaí o processo de resistência tem sido uma das bases para que se tenha a garantia de direitos. A jazida está localizada na Área de Preservação Ambiental da Chapada do Lagoão, zona que hoje concentra em seu entorno comunidades, grande número de nascentes, e árvores nativas como pequi e coqueiro, utilizados na confecção de vassouras que contribui na geração de renda das famílias.

A Companhia Brasileira de Lítio – CBL já explora o recurso na cidade de Araçuaí a mais de 30 anos com a mina localizada na Rodovia da BR 367, km 276, na comunidade Piauí. Não é de hoje que o nosso estado mineiro sente a miséria e o descaso causado e deixado pelas mineradoras, como demonstram os crimes da Vale em Mariana e Brumadinho. 

Essas são empresas que pouco se importam com a vida de trabalhadores durante a pandemia. Muitos são os trabalhadores do setor da mineração que contraíram Covid-19 pela ganância das empresas, trazendo sofrimento para as famílias, enquanto as empresas continuam impunes e com lucros altíssimos. 

O falso discurso é de que terá desenvolvimento regional, criação de empregos e grandes verbas para as prefeituras. Mas o que eles não falam é de como a mineração impacta negativamente na vida das pessoas que moram nos locais de exploração: muitas famílias são expulsas de suas terras, a população passa a conviver com muito barulho (poluição sonora), poluição do ar e das águas, causando graves danos à saúde, como é o caso de doenças respiratórias e elevação dos casos de câncer. Nas cidades em que há grandes mineradoras, o preço dos aluguéis e dos alimentos são mais altos que o comum, e os índices de violência, prostituição e casos de estupros são maiores comparados com cidades sem a presença desses empreendimentos. 

A Mineradora Sigma, por exemplo, já informou que vai consumir 42 mil litros de água por hora do rio Jequitinhonha. Como se não bastasse, a Sigma também já demonstrou interesse em estudar e explorar a Área de Preservação Ambiental da Chapada do Lagoão, que é considerada a caixa d’água de Araçuaí, com mais de cem nascentes, e território de vida de centenas de famílias. 

Nós do Movimento de Atingidos por Barragens – MAB acreditamos e construímos o debate do desenvolvimento com a participação popular. É fundamental que a sociedade tenha a informação do interesse e da destinação dessa extração apressada e em larga escala. O acesso a água de qualidade às famílias da região deveria ser o debate anterior a exploração de lítio, e a população deveria ser parte das decisões da exploração que afetam diretamente seus modos de vida.

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