“Se a Venezuela não tivesse esse nível de organização, a realidade seria catastrófica”, afirma ministra das Comunas sobre enfrentamento ao coronavírus

Em entrevista ao MAB, Blanca Eekhout conta como o país enfrenta a pandemia com índices baixos de contaminação e mortes pela Covid-19

Foto: Ministério do Poder Popular para Las Comunas/ Comunicação

Desde o começo da chamada Revolução Bolivariana na Venezuela, o país é alvo constante de ataques por parte dos grandes conglomerados de mídia internacionais, alinhados com a defesa das grandes potências econômicas e seus interesses. Não podia ser diferente: a Venezuela conta com a maior reserva de petróleo do mundo e a segunda maior produção, ficando atrás apenas da Arábia Saudita. A abundância do recurso sempre foi objeto da cobiça internacional.

A morte do ex-presidente Hugo Chávez, em 2013, fez com que as forças contrárias à Revolução Bolivariana incrementassem o ataque ao país. Medidas de bloqueio de reservas financeiras e obstáculos ao comércio internacional geraram efeitos devastadores para a população. E a aposta dos revolucionários em dar mais poder ao povo parece frustrar o desejo de seus inimigos.

É justamente a organização popular que explica os números alentadores sobre a pandemia do novo coronavírus no país sul-americano. Enquanto o Brasil amarga mais de 45 mil vítimas e centenas de milhares de contaminados, a Venezuela contabiliza duas dezenas de vítimas e pouco menos de três mil contaminados pela Covid-19.

O Movimento dos Atingidos por Barragens conversou com a ministra das Comunas da Venezuela, Blanca Eekhout para entender como um país assediado por uma guerra econômica pode ter sucesso na maior empreitada do século XXI: vencer o coronavírus.

Eekhout é comunicadora, responsável pela criação de iniciativas importantes de comunicação popular na Venezuela, como a Catia TV e a Vive TV. Já foi ministra das Comunicações, vice-presidenta da Assembleia Legislativa, e agora está à frente do ministério responsável por fomentar e fortalecer o modelo comunal de organização popular.

Confira a entrevista:

MAB: Como está a situação na Venezuela atualmente, no contexto da pandemia do novo coronavírus, e quais as principais medidas que o governo está tomando para o enfrentamento?

Blanca Eekhout: Na Venezuela, temos enfrentado a pandemia a partir do sistema de saúde público, garantindo a atenção gratuita a toda a população e desenvolvendo uma estratégia de aplicação de testes a nível nacional. Aplicamos mais de um milhão de testes e desenvolvemos uma estratégia de visita casa a casa, com a organização do Poder Popular. Isso nos permitiu conter a pandemia. Até agora temos 3.386 pessoas contaminadas, das quais 835 já se recuperaram, e 28 pessoas morreram no país por consequência do novo coronavírus.

O presidente Nicolás Maduro tomou a decisão da quarentena antes do primeiro registro de contágio. Iniciamos uma quarentena voluntária, coletiva, disciplinada. Isso nos permitiu garantir tratamento gratuito, assim como a aplicação de testes para detecção do vírus de maneira coletiva na nossa população, além de atender a população contagiada integralmente. O sistema da Missão Barrio Adentro e os CDIs (Centros de Diagnóstico Integral) foram equipados, habilitamos “hospitais sentinelas” e também foi articulado um plano junto à rede privada de saúde.

Nesse momento, cerca de 80% das pessoas contagiadas no nosso país são casos importados, provenientes do Brasil, Colômbia, Peru, Equador, Chile, além dos primeiros casos que vieram da Europa e da República Dominicana. Temos um nível de contágio comunitário de apenas 20%, e agora, o esforço fundamental é por conter esse nível de contágio, apesar de estarmos muito próximos de um dos epicentros do contágio mundial bem aqui na nossa fronteira.

Obviamente, nosso sistema de saúde foi afetado pela “guerra de quarta geração”, a guerra econômica, a guerra multifatorial que o império norte-americano aplica contra o nosso país, tentando impedir que cheguem medicamentos, insumos médicos, através de sabotagem, de ataques.

Como a Venezuela conseguiu esses resultados tão positivos no combate à pandemia?

Um dos elementos fundamentais para conseguir a contenção do coronavírus foi, em primeiro lugar, a garantia do direito ao trabalho a todos os trabalhadores e as trabalhadoras do nosso país. Logo que começou a quarentena, o presidente Nicolás Maduro instituiu a “imobilidade laboral”, uma medida que garantiu que nenhum trabalhador ou trabalhadora pudesse ser demitido durante este ano, diante das dificuldades que vivemos por conta da Covid-19. Igualmente, foi instituída uma política de proteção social através dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAPs), garantindo assim o fornecimento de cestas de alimentos subsidiadas a sete milhões de famílias venezuelanas.

Através do Carnê da Pátria e da plataforma Pátria, nós conseguimos realizar um censo permanente sobre o tema da saúde, ou seja, sabemos quantas pessoas possuem necessidades especiais, quantos idosos, gestantes, quantas pessoas são hipertensas e quantas têm algum problema respiratório. Ou seja, tudo está desenhado para preservar a quarentena.

Qual tem sido o papel do Poder Popular e das Comunas nesse processo?

O poder popular é a coluna vertebral da Revolução Bolivariana. Nossa revolução tem como fundamento a democracia participativa e protagônica, ou seja, é o Socialismo do Século XXI. E a coluna vertebral é o poder popular, o povo organizado em cada território.

Nesse momento, temos mais de 48 mil conselhos comunais organizados em todo o país, em um território que concentra quase 20 milhões de homens e mulheres, de povo. Temos uma instância superior que são as Comunas, que atualmente são mais de 3.230 a nível nacional. Todas são experiências de organização social, política e econômico-produtivas. Ainda temos muita tarefa por fazer, ainda temos muitas limitações que precisamos superar. Mas, o que temos até agora já produz resultados extraordinários e que são determinantes para a vitória da pátria, para a defesa do território, para o avanço da Venezuela.

Logo após o presidente Nicolás Maduro decretar a quarentena coletiva, os produtores têxteis das comunas, de maneira voluntária e gratuita, produziram mais de um milhão e meio de máscaras de proteção em menos de uma semana. Máscaras para garantir que os companheiros e companheiras da linha de frente, que visitavam casa por casa tivessem essa ferramenta de proteção à sua disposição. Mais adiante, coordenamos com o Ministério de Finanças uma ação produtiva que ativou a produção têxtil das comunas, e em quatro semanas, foram produzidas dois milhões de máscaras, garantindo que essa ferramenta de proteção estivesse disponível ao povo venezuelano.

De igual maneira, atuamos sobre o tema da alimentação. Na Venezuela, a partir da guerra econômica, da intensificação do bloqueio, foi retomado um projeto de enfrentamento à questão alimentar do começo da Revolução Bolivariana, que são as Casas de Alimentação, dirigidas à população mais vulnerável: idosos, pessoas com necessidades especiais e crianças. São 3.200 casas de alimentação que iniciaram um plano para a elaboração e entrega de alimentos às famílias, atendendo a essa população mais vulnerável de maneira imediata.

Como seria se não houvesse na Venezuela a organização popular que existe atualmente?

Se a Venezuela não tivesse esse nível de organização, a realidade seria realmente catastrófica. Se olhamos o cenário do Brasil, se vemos o cenário do Peru, o que está acontecendo no Equador ou Colômbia, embora não estejam sob bloqueio, e não estejam submetidos ao plano de roubo que o governo dos EUA tem aplicado contra nosso país e que já nos causou a perda de mais de 130 bilhões de dólares. Todo esse roubo tem gerado efeitos severos. No entanto, em meio a tudo isso, conseguimos um nível de estabilidade e defesa do nosso sistema de saúde como poucos países conseguiram na América Latina. Isso é produto da organização do povo e da solidariedade entre nossos povos. Seria impossível para a Venezuela enfrentar de maneira exitosa essas enormes dificuldades sem a participação da Revolução Cubana, que tem sido nossa irmã e lutado ao nosso lado.

De igual maneira, tivemos o apoio da China que, em meio ao bloqueio, sanções ileais e medidas criminosas impostas pelos EUA, rompeu essas barreiras e nos permitiu ter acesso à compra de testes, além de um conjunto de insumos fundamentais para enfrentar a pandemia. Também contamos com o apoio da Rússia e o apoio do povo iraniano, que em meio a grandes ameaças, nos forneceu combustível necessário para ativar todo o transporte nacional, além de insumos químicos para a ativação das refinarias no nosso país.

Também mantivemos uma relação permanente com a Organização Mundial da Saúde (OMS), que tem nos acompanhado e visto de perto a experiência do modelo venezuelano de enfrentamento ao coronavírus. Apesar de todo o ataque, de todo o bloqueio, de todas as sanções criminosas do governo dos EUA, a Venezuela não esteve e nem está isolada. A Venezuela conseguiu fazer com que prevalecesse a diplomacia dos povos.

No Brasil, está em curso uma forte campanha para colocar em dúvida os dados divulgados pelo governo venezuelano sobre contaminados e mortos pela Covid-19. Como você avalia esta nova estratégia da imprensa internacional para descredibilizar a Venezuela nesse momento?

Acho que é mais perigosa e mais criminosa a guerra midiática, a campanha de mentiras, de difamação, de calúnias, o bloqueio midiático contra o nosso país, do que o próprio coronavírus. É um crime contra a verdade. E é terrível não só porque essa mentira pretende ser uma justificativa para agredir ainda mais a Venezuela, mas também é terrível porque pretende ocultar um exemplo que poderia ser a salvação de muitos homens e mulheres no mundo, se pudessem conhecer o modelo de atenção que a Venezuela desenvolveu, sua efetividade, sua capacidade de garantir a vida do nosso povo.

Quando começou a pandemia, saiu um artigo no New York Times que dizia e anunciava, “sem sombra de dúvidas”, que a Venezuela ia se converter no epicentro da pandemia mundial. Comemoravam como aves de rapina, anunciavam a morte e a dor que se abateria sobre o nosso povo. Isso foi publicado quando ainda não havia acontecido nenhuma morte por coronavírus no nosso país.

Não se pode esconder os mortos. O Brasil, embora hoje pretenda não apresentar os dados, não dar mais informação, não pode esconder as covas abertas nos cemitérios, não pode esconder essa barbárie. E a Venezuela, em meio a todas as dificuldades, mostrou que a solidariedade, a proteção, a unidade e a organização do povo podem conter os presságios do New York Times e que toda essa campanha midiática se concretize na realidade.

O que podemos esperar do pós-pandemia? Qual é a perspectiva para a Revolução Bolivariana?

A Revolução Bolivariana está na vanguarda, continua sendo um exemplo de dignidade, de que sim, é possível. Um exemplo de que quando o povo se une, quando o povo luta, o povo pode. E nós estamos demonstrando que um operário, o presidente Nicolás Maduro, um homem leal, um revolucionário, pode enfrentar os obstáculos mais complexos, difíceis, e avançar, quando se é um “presidente-povo”, quando o povo é quem manda. Assim, a tarefa da América Latina é alcançar a unidade. A Venezuela vai continuar lutando, mas a vitória só pode ser a vitória da Pátria Grande latino-americana. Essa é nossa tarefa, essa é nossa principal batalha e esse é o nosso destino. Juntos, venceremos.

*Com colaboração de Ciro Casique Silva

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