Vale nega indenização por danos psicológicos de crianças em Brumadinho

Em acordos individuais, Vale nega danos das crianças do Córrego do Feijão para indenização

Foto: Isis Medeiros

A mineradora Vale, na comunidade do Córrego do Feijão, em Brumadinho, nega indenização por danos psicológicos para crianças, que acompanharam de perto os desdobramentos do rompimento da barragem BI, do complexo Mina Córrego do Feijão. A denúncia é de moradores da comunidade que entraram individualmente com a Defensoria Pública ou com advogados particulares para indenização.

Segundo os atingidos, ao apresentarem os laudos emitidos pelos psicólogos, que é um critério para indenização, na mesa de negociação os advogados da empresa afirmam que as crianças não tiveram danos psicológicos.

“As crianças do Córrego do Feijão, ficaram sem lazer durante vários meses e a Vale fala que não tiveram danos psicológicos? Isto é um absurdo. Ainda não quer pagar as consultas de psicólogos e psiquiatras”, desabafa com revolta atingida que não quis se identificar.

Os atingidos ainda relatam a demora dos processos individuais. Existem processos que estão parados há oito meses porque o jurídico da empresa não dá andamento.

Crianças tiveram danos irreparáveis 

Desde o dia 25 de janeiro de 2019, as crianças do Córrego do Feijão vivenciaram sequências de fatos que abalariam o psicológico de qualquer ser humano. Cerca de vinte e seis dias o Corpo de Bombeiros instalou uma base na Igreja da comunidade ao lado do campo de futebol, onde chegavam os corpos das vítimas. Muitas crianças ficavam nas grades do campo de futebol, por curiosidade ou na espera de notícias de familiares.

As crianças precisaram conviver com helicópteros, viaturas da polícia militar e do corpo de bombeiros, além do assédio da imprensa e de curiosos. A mudança radical na vida da comunidade, que possuía cerca de 600 moradores, não foi enfrentada de forma tão simples.

Houveram perdas nos laços comunitários. Os locais que lazer que as crianças tinham, como a quadra de futebol, foi ocupado por um hospital veterinário dos animais resgatados na lama, que causava mau cheiro e possíveis propagações de doenças. A pracinha, local de convivência e troca comunitária, foi tomada por curiosos, voluntários e demais pessoas que por ali passavam.

“Foram dias de horrores que vivemos. Meu filho fica assustado ao ouvir qualquer tipo de barulho. Ele ainda tem medo de dormir sozinho, fico na cama com ele até dormir, quando é madrugada ele vem dormir comigo. São traumas irreparáveis e a Vale ainda não quer pagar os danos que causou. É um absurdo”, diz atingida, que decidiu sair da comunidade para tentar recomeçar a vida e prefere não se identificar.

Para o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) existe uma prática das grandes empresas de não reconhecerem as crianças como atingidas. “Sabemos que as crianças sofrem com a perda do vínculo com vizinhos, colegas de escola, áreas de lazer e as empresas não levam em consideração esses anseios. Não existe uma indenização para os danos materiais e psicológicos específicos para as crianças. Além de não se preocuparem com o futuro e os traumas deles”, afirma Miquéias Ribeiro da coordenação estadual do MAB.

“É preciso ter espaços de discussão sobre as crianças atingidas por barragens, elas sofrem igual e até mais que os adultos nesses processos. O MAB tem uma atenção específica com as crianças atingidas, pois elas que estarão lidando com a realidade futuramente e esses danos precisam ser trabalhados ainda na infância, quando as crianças estão em formação”, finaliza Miquéias.

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