Artigo: ser mulher atingida é obrigatoriedade de reinventar-se cotidianamente

Como dizer o que não encontra palavras? Nos carece no mais alto dicionário uma descrição precisa das imagens de 5 de novembro de 2015. E para os que tiveram olhos atentos, ver a história se repetir em tragédia no dia 25 de janeiro de 2019. Os rompimentos são a interrupção de dezenas de vidas que viraram centenas e serão milhares.

Na lama, que tudo arrasa, arrastam-se os sonhos dos despossuídos, viventes do abismo colonial de um Estado minero-dependente. A exposição e a arte não pedem licença para inundar de subjetividade esse cenário da irracionalidade racional. O MAB os/as convida a romper com os limites impostos entre gênero, política e direitos, e nos chama à reflexão do tempo presente.

Se diz o poeta “viver é um rasgar-se e remendar-se”, ser mulher atingida é obrigatoriedade de reinventar-se cotidianamente. Assim, a realidade me rasga, a lama me soterra, a barragem inunda minha casa, mas eu me reconstruo na costura de cada boneca, de cada tecido. Ser atingida é essa coisa de costurar o não dito. A juta é o grito que ecoa na mente dos inertes a esse modelo exploratório. Esses que negam que somos feitos da mesma matéria prima, da mesma natureza, insistindo em nos tirar a condição de existência no mundo. Mas contra eles, recusamos o carimbo do papel social pelo sexo que nascemos.

Esse tempo é de viver uma ética do presente devastadora de um projeto de futuro. Andamos com medo das enfermidades que criamos, da crise ecológica que nos permeia, com índices de desigualdade crescentes, muros entre povos e guerras entre gentes. Acreditamos viver uma realidade perigosa, de natureza traiçoeira e humanidade imprevisível, da qual muitos que caminham por esses corredores pararam de fazer perguntas. Naturalizamos o surreal e fazemos do teatro cotidiano.

Se esse é o mundo possível, quisera eu falar sobre o impossível. As Arpilleras são o projeto de ousadia, de traduzir um presente em sacos de batata.

Através de cada furo encontramos um processo político a se bordar, mulheres comuns postas em fileiras compartilhando de um futuro de utopias impossíveis. Essa iluminação especial recai sobre um mundo variável, composto de mundos impossíveis e não disponíveis pela grande televisão. São presentes carregados de multiplicidades de possibilidades, mas invisíveis e subalternizados nos corpos das mulheres.

Se somos ao fundo e a cabo humanos e, portanto, capazes de uma reflexão transcendental, basta do tempo que essa transcendentalidade não nos serve para entender o outro. Esse é o chamado da racionalidade da convivência, começando a conceber o mundo pelas necessidades da vida concreta. Que o centro da economia seja a vida. Essa utopia das loucas que falam da reprodução da vida humana, do cuidado completamente esquecidas do espaço público-comunitário-social, como se nunca houvéramos sido crianças.

Nós falamos de transformação social, de superação das desigualdades sociais, e por isso precisamos pensar novas linguagens. É assim que as Arpilleras exploram a subjetividade e saltam do universo particular para a problemática coletiva, na reconstituição do tempo concreto a partir da utopia impossível – na medida em que o impossível é traduzido e tornado presente, contra a lógica de esvaziamento de futuro, na primazia da ética do presente das ausências. Em uma expressão de resistência em movimento, é o tal do caminho que se faz ao andar. Eis a arte!

 Para aqueles que são céticos de uma utopia que vá além dos limites de possibilidade de futuro do tempo da modernidade, os da ética do ainda não, dos limites intransponíveis, convidamos a conhecer os vazios da juta, a buscar nas ausências e na negação os caminhos, ouvindo os que por aí andam. Encontrar nas mulheres – como sujeito coletivo organizado – as repostas. Falamos da prática da tradução e do tornar presente o que é impossível.

Se não começarmos a enxergar esses universos impossíveis, nos baseando em uma inércia casuística, de logística de custos, esses cidadãos de carne e osso podem não ter um futuro, e nós estamos condenados ao peso de sua não existência como um fracasso de um projeto civilizatório. O ser humano já não pode decidir ou escolher o que deveria ser o presente de hoje ou de amanhã, o tempo absoluto determina e o presente se esfuma.

A pergunta sobre a impossibilidade daquilo que está presente por ausência é a pergunta referente à liberdade de decidir nossa forma de viver. Trata-se da dimensão do sentido de viver. Quando se quantifica e torna técnica essa ausência no mito do progresso, as necessidades se esvaem num tempo futuro abstrato. Portanto, qualquer interferência na lógica do mercado é negada. Em última análise estamos negando a liberdade de autodeterminação humana.

O mito do desenvolvimento são as flores do chicote do povo. Quando se traduz a ausência em arte se desnuda o chicote, assim o futuro falso oprime o presente, oprime os seres humanos e oprime as mulheres.

O impossível que um dia acreditaram ser o voto das mulheres, não pode ser transformado em nome do ainda não, num futuro ausente. Ao contrário, pela mudança de estruturas sociais tem de ser traduzido e tornado presente. Por isso a ética do impossível é o motor imóvel para a ação humana. O bordado, o reconhecimento da impossibilidade do ausente que se acha presente na estrutura de dominação e libera para a liberdade como autodeterminação social.

A nossa liberdade – mulheres – é a ruptura dos seus privilégios – homens – ou seja, uma liberdade conflitiva que não se trata de conflitos absolutos. Se trata de subordinar o tempo, as decisões de realização da vida concreta. A conseqüência de um projeto de sociedade em que caibam os seres humanos e suas necessidades, que dê espaço igualmente a natureza, e que produza a riqueza de uma maneira tal que não sejam ameaçadas as fontes de toda a riqueza: a terra, a água e o trabalho. Não é um horizonte único, mas de possibilidades. O possível como o ainda não fecha o futuro, o impossível que se traduz em possibilidades se abre. Que construamos então o impossível: o Estado à serviço da vida real e concreta, sob pena do humanismo seguir sendo um discurso.

Assim, não estamos falando da promoção de um razão mítica como um fator subjetivo ao reconhecimento de leis objetivas, mas do reconhecimento da rebelião de sujeitos marginalizados como promotores de novos mundos. Cabe a nós, na difícil tarefa de garantia dos direitos humanos, a clareza de reconhecer que esses sujeitos se deparam com diversos fatores objetivos com os quais têm de contar e que o limitam em viver e reproduzir-se.

É Tempo de deixar de sermos rio, que correm margeados sozinhos, para aprendermos a ser totalidades, como o mar. Tal qual as sementes, que bordaram a resistência: Nicinha de Souza, Berta Cáceres, Marielle Franco e Dilma Ferreira. Tantas são as mulheres que cultivam sonhos de novos mundos ainda possíveis.

* Tchenna Maso é advogada popular da coordenação nacional do MAB. 

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