Rompimentos familiares, perda da autonomia financeira e sobrecarga emocional

Rompimentos familiares, perda da autonomia financeira e sobrecarga emocional Foto: Mídia Ninja Há 22 anos Patrícia Ambrósio, moradora de Pedra Corrida – distrito de Periquito, em Minas Gerais, é pescadora. […]

Rompimentos familiares, perda da autonomia financeira e sobrecarga emocional

Foto: Mídia Ninja

Há 22 anos Patrícia Ambrósio, moradora de Pedra Corrida – distrito de Periquito, em Minas Gerais, é pescadora. A atividade era a fonte de renda dela e do marido, que arrecadavam por mês cerca de 4 mil reais. Hoje, três anos após o maior crime socioambiental do país, os quatro membros da família  sobrevivem apenas com o cartão emergencial de auxílio da Renova. Nem ela nem o marido foram reconhecidos como pescadores pela Fundação, que é a responsável por reparar os danos à vida dos atingidos pelo rompimento da barragem de rejeitos Fundão, em Mariana. 

À época do crime, Patrícia ainda estava amamentando a filha mais nova, hoje com 6 anos, e ambas passaram mais de 15 dias sem água, nem mesmo para beber. A filha mais velha, de 22, teve que se mudar para Belo Horizonte para conseguir um emprego, pois a lanchonete onde trabalhava fechou depois do desastre. 

A saída de casa da primogênita foi apenas o primeiro impacto. O marido de Patrícia hoje toma remédios controlados para pressão e também depressão, ambas as doenças adquiridas após o crime. O filho adolescente está em conflito com os pais, pois não consegue entender que a situação econômica da família mudou.  

“Hoje não consigo mais ajudar meu marido com as compras da casa porque eu nao tenho renda. Antes eu comprava as verduras e ele a carne, ele pagava as contas e eu comprava coisas para os meninos. Hoje não dá mais. Estamos com muitas dívidas porque nós estamos vivendo com essa migalha que a Renova acha que a gente merece”, lamenta Patrícia.

Assim como ela, inúmeras são as mulheres afetadas pelo crime da Samarco. Para debater essa situação, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) realiza, nos dias 4 e 5 de novembro, o Encontro das Mulheres Atingidas, em Mariana. Indígenas, quilombolas, pescadoras, garimpeiras, agricultoras e diversas outras trabalhadoras que tiverem suas vidas afetadas pela lama participam do ato.    

No primeiro dia do encontro, mulheres de toda a bacia do Rio Doce deram depoimentos sobre os principais problemas que enfrentam. Os mais recorrentes são a perda da independência financeira, os conflitos familiares, como a violência doméstica, o rompimento dos laços afetivos e a sobrecarga física e psicológica que enfrentam por cuidar da saúde dos familiares. Um dos depoimentos foi da pescadora Cláudia Monteiro, moradora da comunidade tradicional de Barra Nova do Sul, distrito de São Mateus, no Espírito Santo. Ela conta que os moradores da região só foram reconhecidos como atingidos no ano passado e desde fevereiro aguardam a resposta do cadastramento das famílias. Até hoje permanecem sem nenhuma reparação. Cláudia denuncia que, além da demora, o cadastramento feito pela Fundação classifica as mulheres apenas na condição de dependentes dos homens. “O desastre da Samarco se renova todos os dias e continua nos impactando. Nós não podemos deixar esse crime impune” afirma.

De acordo com o Movimento dos Atingidos por Barragens, cerca de 70% das mulheres cadastradas pela Renova não foram reconhecidas pela Fundação e estão sem nenhum tipo de reparação.  

“Nós vamos lutar até o fim. Nós vamos lutar e provar que ela é uma assassina! Ela matou floresta, matou peixes e agora quer matar o nosso direito de ser cidadã. Mas nós não vamos deixar. Isso ela não vai matar nunca. Ela não vai tirar nosso diretos. Nós vamos mostrar para ela que é ela quem nos deve!”, desabafa a pescadora Patrícia Ambrósio. 

O Encontro das Mulheres Atingidas marca a abertura da Marcha:  Lama no Rio Doce, 3 anos de injustiça. Até o dia 14 de novembro, os atingidos realizam uma jornada de lutas por toda Bacia do Rio Doce, saindo de Mariana com destino à Vitória (ES). A Marcha vai passar por 13 cidades realizando plenárias, feiras de saúde e encontros para debater as demandas dos atingidos em cada região.

Por: Amélia Gomes do Brasil de Fato